sábado, 28 de fevereiro de 2015

“E TRANSFIGUROU-SE DIANTE DELES” - 2º DOMINGO DA QUARESMA - ANO B - 01 de março de 2015



Leituras

         Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18. Agora sei que temes a Deus.
         Salmo 115/116b,10.15-19. Eis que sou o vosso servo, ó Senhor.
         Romanos 8,31b-34. Quem acusará os eleitos de Deus.
         Marcos 9,2-10. Mestre é bom ficarmos aqui.





1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da transfiguração do Senhor. Jesus transfigurado institui a Aliança. Celebramos o 2º Domingo da Quaresma, em nossa caminhada pascal, rumo a Jerusalém, local onde Jesus vai ser entregue, condenado, morto e ressuscitado. Nesse caminho, subimos a montanha com Jesus, Pedro, Tiago e João para fazermos a experiência da intimidade com o próprio Jesus, participar de sua glorificação e recebermos o mandamento de escutá-lo sempre.

A transfiguração-iluminação de Jesus nos faz enxergar os rostos “desfigurados” de tantos irmãos e irmãs, pobres, doentes, sofredores, que clamam por saúde para ter uma vida digna.

Estamos na Quaresma e Campanha da Fraternidade. Ela tem como tema: “Fraternidade: Igreja e sociedade”, e o lema: “Eu vim para servir” (cf. Marcos 10,45).

Levando em conta o “tempo oportuno” da Quaresma, que luzes nos traz a liturgia de hoje para a transfiguração do mundo?

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos

Primeira leitura – Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18. Esta leitura mostra Deus fazendo uma “Aliança com Abraão”. Ele que oferece seu único filho obedecendo a voz de Deus. Abraão, nosso pai na fé, teve que fazer em sua vida muitos atos de fé, para entender a promessa de Deus. Como entendemos pela primeira leitura deste segundo domingo da Quaresma do Ano B, o sacrifício de Abraão é a prova da sua fé em Deus. Isaac era o filho único de Abraão, “o filho da velhice e da promessa divina”. E agora Deus pede-lhe o sacrifício da sua vida. Suprema prova de fé, confiança, obediência e fidelidade de um homem justo. Mas no momento crucial, o Anjo do Senhor interrompe o braço de Abraão, e um carneiro substitui o filho no sacrifício. Por causa da sua fidelidade comprovada, Deus renova a promessa a Abraão: descendência numerosa, posse de terra, bênção para o seu povo e para as nações de toda a terra. Na realidade, o pano de fundo deste quadro bíblico, bem antigo reforça ainda mais a fé de Abraão no Deus da vida. “O núcleo central aqui é crer, mesmo em meio à escuridão”.

O conhecimento do rosto de Deus que “nenhum homem viu, nem pode ver” (1Timóteo 6,16) não é imediato, mas é um caminho que avança por etapas. Neste crescimento as pessoas purificam progressivamente essas imagens que são frutos dos seus medos, para chegar a descobrir o autêntico rosto de Deus que tem em Jesus, “imagem do Deus invisível” (Colossenses 1,15), a sua plena e definitiva revelação (cf. João 1,18).

No tempo da Bíblia, sacrificar o próprio filho à divindade era considerado válido (cf. Juízes 11,32-39), porque as crianças não tinham nenhum valor. Em Jerusalém, no vale da Geena, havia altares nos quais eram oferecidas crianças ao deus Moloch (Jeremias 7,31; 2Reis 16,3; 21,6; 23,10). O autor do texto do Gênesis quer acabar de modo autoritário com esta macabra tradição, declarando que o Senhor, o Deus de Israel, não exige sacrifícios humanos. Enquanto o deus que requer a Abraão o sacrifício do seu único filho é chamado “Eloim” (versículo 1), nome comum das divindades, o que impede Abraão é o “anjo de Javé” (versículos 11.12.15), expressão com a qual na Bíblia se indica o próprio Senhor (cf. Gênesis 16,10-13). São as divindades dos pagãos que pedem sacrifícios humanos, mas não o Deus de Israel (cf. Oséias 6,6).

Já desde o início, o autor adverte que Deus submeteu Abraão a uma prova, como para prevenir o horror que os sacrifícios humanos causavam aos hebreus (cf. 2Reis 3,27). Sabemos que os cananeus, em certas circunstâncias, ofereciam sacrifícios humanos, especialmente de crianças.

Os antigos redatores do relato tiveram também uma intenção litúrgica: convencer o povo a não mais oferecer a Deus “sacrifícios de crianças” (cf. Juízes 11,10-30; 2Reis 16,3; 21,6; Deuteronômio 12,31; Jeremias 7,31; 19,5; 32,35), que parecem ter alcançado grande sucesso nos séculos VIII e VII.  Ao relembrar que todo primogênito pertencia a Deus (Êxodo 22,28-30), a lei insistia logo na obrigação de resgatá-lo (Êxodo 34,19-20; Deuteronômio 15,19-23) por um sacrifício de substituição, isto é, o de animais.

O Judaísmo lerá o episódio do sacrifício de Abraão no sentido de uma meditação do sofrimento, isto é, ele fará do sacrifício de Isaac, sobretudo no “Livro dos Jubileus”, a cena-tipo da investidura do futuro Messias sofredor, episódio lido na liturgia dos Tabernáculos, que é, precisamente, uma liturgia da investidura do futuro Messias. O único interesse desta relação entre o episódio do sacrifício de Isaac e a investidura do Messias é manifestar, desta forma, a fé num Messias sofredor. Assim, compreendemos que foi dentro do contexto de uma festa dos Tabernáculos (Mateus 17 e 21) que Cristo revelou aos seus discípulos o Messias sofredor. O relato da Transfiguração é a prova mais evidente deste fato.

O sacrifício de Isaac é visto pelos Santos Padres como uma prefiguração do sacrifício de Cristo. Diversos elementos comprovam isto: Isaac é filho único; é muito amado por Abraão; Isaac se presta docilmente. Por outro lado, justamente porque Isaac não é sacrificado, mas em seu lugar é imolado um cordeiro, muitos vêem nesse cordeiro uma prefiguração de Cristo que morreu por nós.

Mas o que se destaca no relato do sacrifício de Isaac é a grandeza da fé de Abraão. Ele é alguém que crê até o absurdo, porque tem certeza de que Deus é poderoso e bom para conduzi-lo à realização de suas promessas.
           
Salmo Responsorial 115/116,10.15-19. É um salmo de ação de graças individual. Uma pessoa se encontrou diante de um perigo mortal, clamou, foi ouvida e agora agradece diante de todo o povo. O justo confia em Deus, que liberta os pobres e necessitados. É neste clima de fé, que o justo cumpre seus votos.

A fé consiste em continuar a crer que nada pode separar a pessoa do amor de Deus (cf. Romanos 8,38-39), e que o Pai tem cuidado dos Seus filhos mesmo quando os acontecimentos da existência parecem demonstrar o contrário e se faz a experiência do sofrimento e da morte.

O rosto de Deus neste Salmo é de um Deus que inclina o ouvido, salva e liberta. É o mesmo esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o Deus deste Salmo é o mesmo do êxodo e da Aliança.

Uma frase importante do Salmo é: “É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos, seus amigos”. Custa para Deus aceitar que a vida de seus fiéis desapareça prematuramente. Deus sofre quando um de seus servos morre de uma enfermidade fatal, isto é, sente muito quando a doença acaba com a vida de uma servo seu. Porque Ele é o Deus da vida.

Foi por isso que Jesus curou todos os doentes que encontrou em suas viagens missionárias, vencendo até a própria morte. E por causa disso muitos aprenderam a amar Deus Pai em Deus Filho.

Cantemos louvores ao Pai que nos salva da morte e dá a paz e a salvação a todos os que põem nele a sua confiança.

Segunda leitura – Romanos 8,31-34. Mostra-nos que Deus não poupou seu próprio Filho em vista da Aliança. São Paulo, escrevendo aos romanos, compara Deus Pai a Abraão e Jesus a Isaac. Nada nos separará do amor de Cristo, que por nós morreu e ressuscitou. Nele temos a certeza da vitória, a certeza da transfiguração. Não podemos perder de vista esta certeza. É preciso lembrar que quando o apóstolo Paulo fala de “eleitos” (v.33) não é um termo exclusivista, mas nos diz respeito a todo aquele que recebe o dom de Deus. Nos sinóticos, eleitos é a comunidade escatológica (Marcos 13, 20.22.27); no apocalipse são os que venceram e perseveravam até o fim (Apocalipse 17,14).

Paulo, antes de abordar a questão dos judeus (capítulo 9), eleva a Deus, numa linguagem triunfal, litúrgica e lírica, um hino ao seu amor. “Se Deus está conosco, quem será contra nós?” A resposta é, certamente, nada e ninguém. Ou melhor, poderão estar contra nós os homens e o mundo, mas temos a certeza de que não prevalecerão, pois nosso aliado é imbatível, não perde nunca. Aqui, Paulo retoma Romanos 5,5-8, onde mostra que a esperança cristã, fundada no amor de Deus para conosco, não poderá deixar lugar para inquietações. Nem mesmo a morte poderá atemorizar a pessoa humana, pois também ela foi vencida (1Coríntios 15,54).

Paulo ilustra a grande novidade representada pela vida e morte de Jesus Cristo: a revelação de um Deus que não pede sacrifícios para as pessoas mas, se sacrifica Ele mesmo pelas pessoas, um Deus que não a vida mas dá a própria vida. Da parte deste Deus as pessoas não devem esperar condenação, mas só absolvições. É esta a Boa Notícia, o Evangelho, que as pessoas esperam.

Com Jesus cumpriu-se a passagem definitiva da religião para a fé. Enquanto na religião a pessoa é tentada a amar e a servir o seu deus, com Jesus é Deus que ama e Se coloca ao serviço das pessoas. A pessoa não deve merecer o amor de Deus, mas pode acolhê-lo apenas como dom gratuito: esta é a fé (cf. Lucas 17,11-19). O deus da religião pede obediência às suas leis, o Pai pede que imitemos o seu amor (cf. Lucas 6,35); o deus da religião condena e castiga, o Pai e Jesus absolve e perdoa. Paulo quer difundir esta certeza nos cristãos. Todos os que acolheram na sua vida a Jesus como Senhor e Mestre não estão sós, mas têm um Deus que se fez seu servo e por amor deles tudo transforma em bem (cf. Romanos 8,28). A adesão a Jesus não elimina os inevitáveis sofrimentos da vida, mas dá a cada um uma força nova para os enfrentarem.

Evangelho – Marcos 9,2-10. Jesus vence a tentação no deserto e agora está transfigurado. Na transfiguração os discípulos Pedro, Tiago e João fazem uma experiência mística, antecipada, da ressurreição, mas eles ainda não entendem seu significado (versículo. 10). O evangelista Marcos, imediatamente depois do anúncio de Jesus da sua paixão e morte em Jerusalém, para onde caminha, nos mostra no evangelho desse segundo domingo da Quaresma, uma magnífica visão teológica da figura de Cristo, “antecipando já o triunfo da sua ressurreição”. Jesus, além de homem mortal, “é o Filho imortal de Deus”, o Messias anunciado “na lei e pelos profetas”, representados no monte da transfiguração por Elias e Moisés.

Não que os mortos aparecem para comunicar mensagem. Moisés e Elias simbolizam a Lei e os Profetas que naquele momento testemunham Jesus Cristo, isto é, todo o Primeiro Testamento se cumpre em Jesus e também aprova a sua missão. No Prefácio da oração eucarística de hoje transparece o sentido da transfiguração: “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo seu esplendor. E com o Testemunho da Lei e dos profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela paixão e cruz, chegará à glória da ressurreição”.

Devido a esta sua condição, “o esplendor da divindade penetra e transfigura a sua humanidade” que transparece na glória do Filho amado do Pai e preanuncia a exaltação final. Aqui, a teologia da cruz aparece unida ao kerigma da ressurreição, e aparece claro o núcleo da cristologia primitiva: “fusão da divindade com a humanidade de Cristo”, Messias e Filho de Deus. Jesus chegará à glória da ressurreição, mas não sem ter passado antes pela prova suprema da sua “paixão e morte”. As leituras recordam o dom de Deus no Filho Jesus para a Nova Aliança. É nesta luz que deve ser entendido o relato evangélico da transfiguração “este é o meu filho predileto”, aquele que é dado e se oferece para a Aliança. Este Jesus transfigurado é quem foi oferecido pelo Pai aos homens e mulheres para restabelecer a Aliança. Uma característica importante é que Elias e Moisés não aparecem aos discípulos, mas a Jesus. A atenção se concentra em Jesus porque Elias e Moisés desaparecem ficando somente Jesus. O êxodo de que fala o Evangelho significa a morte de Jesus. Aí ensina-se que para os justos a morte é um “êxodo”, uma passagem da terra para Deus, e não uma eliminação da companhia dos viventes.
No “Mistério da Transfiguração”, Marcos dá prioridade a Elias sobre Moisés. “E lhes apareceram “Elias e Moisés”, conversando com Jesus” (9,4). Marcos cita primeiro o nome de Elias. Mateus no momento da Transfiguração cita Moisés antes de Elias: “Nisto apareceram-lhes “Moisés e Elias”, conversando com Jesus” (Mateus 17,5). Porque se Elias é João Batista, é claro que ele anuncia o sofrimento do Messias por seus próprios sofrimentos (cf. a explicação de Jesus em Marcos 9,12-13). Portanto, tudo indica ser esta a perspectiva do “Messias sofredor” que está no centro do Evangelho de Marcos.

Aos olhos de Marcos o episódio da transfiguração aparece, antes de tudo, como a revelação de Jesus aos melhores do grupo dos apóstolos: Pedro, Tiago e João. Eles também estarão próximos Dele no Getsêmani: Marcos 14,33.

A transfiguração mostra essencialmente na tomada de consciência, pelos três apóstolos, de que Jesus é verdadeiramente o Messias entronizado pela “festa dos Tabernáculos” (festa das Tendas). A citação dos “seis dias” (versículo 2) faz referência à duração clássica desta festa; a montanha e a nuvem são elementos tradicionais próprios a esta festa, bem como habitar em três tendas sugeridas por Pedro (versículo. 5). Jesus é certamente o Messias que cada ano na festa dos Tabernáculos é entronizado antecipadamente, revestindo-O de brancura e de luz (versículo 3) e investindo-O da própria Palavra de Deus (versículo 7). Mas no livro “judeu dos Jubileus”, quase contemporâneo dos evangelhos, já anunciava que o Messias esperado por ocasião da “festa dos Tabernáculos seria um Messias sofredor”. Ora, Cristo acaba precisamente de anunciar aos seus discípulos que sua paixão está próxima (Marcos 8,31-38).

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

            Analisando o contexto de Abraão, o que significa hoje crer apesar de todas as aparências em contrário? O que representa segundo o apóstolo Paulo, a força do amor de Deus “que é por nós”? Parece que a resposta está naquela conversa de Elias e Moisés com Jesus. Marcos não diz qual foi o assunto dessa conversa, mas Mateus e Lucas falam que a conversa foi sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus (o mistério da Páscoa). Os discípulos ainda não entendiam o que significava a ressurreição (versículo 10). Mais tarde compreenderiam que a ressurreição era a utopia do mundo novo, cujo primeiro fruto foi a ressurreição de Jesus.

Os evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) narram a cena da transfiguração de Jesus depois das tentações. A transfiguração de Jesus é um aperitivo do mundo novo que virá. Não podemos, porém, ficar aí parados, acomodados em tendas. É preciso descer do monte e enfrentar os conflitos do dia-a-dia da nossa vida. Na celebração de hoje entendemos que o começo da fé é escutar Jesus, o Filho amado do Pai, como nos diz a voz saída da nuvem da transfiguração. Cristo é a Palavra pessoal do Pai; e onde melhor se houve é na solidão e no vazio interior. Por isso, devemos “subir à montanha”, com Jesus, para orar e depois descer e enfrentar a realidade que precisa de justiça e paz.

A cena da transfiguração revela aos discípulos, que haviam escutado de Jesus o anúncio da paixão, um sinal da sua vitória sobre a morte. Pedro, os discípulos e todos os demais que esperam um Messias no sentido de um rei terrestre, devem mudar de mentalidade. A palavra de ordem é escutar o filho amado de Deus.
A fé exigida das testemunhas da transfiguração leva hoje a Igreja a não fugir das necessárias encarnações na realidade e do despojamento que essas mesmas encarnações acarretam consigo, a fim de não procurar um Reino de poder que se separe da morte. A Igreja também é alertada a não desejar encarnação sem transfigurar a realidade. Ela só é chamada a estar presente nas estruturas da sociedade para transformá-las. A Igreja só é chamada a transformar a sociedade aceitando morrer a todo conforto e a toda auto-segurança.

Levando em conta o tempo oportuno da Quaresma, que luzes nos traz a liturgia deste domingo para a transfiguração de cada um de nós, de nossa Igreja e do mundo?

O mundo novo já está em ação com a ressurreição de Jesus, embora passando pela cruz, pelos caminhos das contradições deste mundo. É preciso crer contra todas as aparências e apostar neste mundo novo, transfigurado, que supera as idolatrias e mortes e se põe em andamento a promessa feita a Abraão, retomada por Jesus e mostrada no último livro da Bíblia como “um novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21,1). No mundo torto em que vivemos, o caminho de Cristo e o nosso é o da cruz. Mas além dela está a manhã da ressurreição gloriosa.

A transfiguração de Jesus é um “aperitivo” do mundo novo que haverá de vir. Não podemos, porém, ficar aí parados (acomodados em tendas.). É preciso descer do monte e enfrentar os conflitos do dia-a-dia deste mundo.

4- A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO

A Glória do crucificado

Segundo o Rito Romano, as procissões de entrada em nossas celebrações eucarísticas são presididas pela cruz. Essa cruz, segundo a tradição, é a cruz gloriosa, que manifesta tanto a morte quanto a ressurreição redentoras de Jesus. O costume no início do Cristianismo, era representar o Cristo vivo sobre a mesma, somente mais tarde as cruzes começaram a ostentar o Cristo morto, conforme conhecemos contemporaneamente. . Muito antiga também era a cruz gemada, que recorda as marcas da paixão-ressurreição, do abaixamento e humilhação total de Cristo, nos quais residem toda a sua exaltação e dignidade.

Neste tempo da Quaresma, em que os cristãos são convocados a converter o coração e buscar a misericórdia divina é ocasião para viver a espiritualidade da genuflexão diante da cruz do Salvador. Sobe-se ao monte Calvário, simbolizado pelo sacramento da Eucaristia para depois descer aos jardins do sepulcro vazio, com os pés da fé.

A Palavra de Deus no monte

Seguindo o itinerário quaresmal, a eucologia litúrgica insiste no fato de que a Palavra de Deus que calibra o olhar dos batizados, para que reconheçam na cruz a glória do Filho: “alimentai o nosso espírito com a vossa Palavra, para que purificado o olhar da nossa fé, nos alegremos com a visão da vossa glória.” O monte da Transfiguração aparece como uma estilização do que acontecerá no monte Calvário. Ao celebrarmos o acontecimento que lá se deu, damo-nos a oportunidade de ser conduzidos por Deus, verdadeiro guia no caminho quaresmal, a redescobrir a chave interpretativa  para compreender a paixão do Salvador.

5- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

No prefácio da oração eucarística de hoje transparece o sentido da transfiguração: “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela paixão e cruz, chegará á glória da ressurreição”.

O aspecto mais profundo da espiritualidade da Quaresma consiste na participação do mistério de Cristo, ou seja, sua paixão e ressurreição. A eucaristia é a celebração memorial da ceia de Jesus. É isto que expressamos no coração da liturgia eucarística: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus! A aclamação eucarística expressa bem que anunciamos o mistério da morte e ressurreição do Senhor, enquanto esperamos a sua vinda glorioso. Nas nossas celebrações antecipamos festivamente o grande banquete celeste e nosso encontro com o Cristo glorioso “Eu vos digo: Não beberei mais deste fruto da videira até o dia em que convosco beberei o vinho novo no Reino do meu Pai” (Mt 26,29). Assim, a assembléia litúrgica é um sinal escatológico do encontro com o Ressuscitado, o Cordeiro imolado.

Porém, para que a nossa liturgia seja agradável a Deus, é necessário que ela seja continuada na grande missão de transfigurar este mundo tão marcado por contradições em Reino de Deus.

6- ORIENTAÇÕES GERAIS

1. A homilia (conversa familiar) interpreta as leituras bíblicas a partir da realidade atual, tendo o mistério de Cristo como centro do anúncio e fazendo a ligação com a liturgia eucarística (dimensão mistagógica) e com a vida (compromisso e missão).

2. Em todo o rito, a Palavra se conjuga com o silêncio. Momentos de silêncio após as leituras, o salmo e a homilia, fortalecem a atitude de acolhida da Palavra. O silêncio é o momento em que o Espírito Santo torna fecunda a Palavra no coração da comunidade. Nem tudo cabe em palavras.

3. A preparação da mesa, feita com simplicidade, realce o essencial: o pão em um único prato (sem patena à parte para o padre); o vinho em um único cálice ou vários cálices (IGMR, 270).

4. O bom uso do Lecionário. O ciclo A é ligado com o Batismo. O ciclo B deste ano, com a Aliança. Na época em que foi preparado o Lecionário Dominical, diversos peritos julgavam que, para a Quaresma, seria suficiente só o ciclo A, porque seu alcance doutrinal é fundamental. Mas prevaleceu o parecer dos biblistas. Afinal chegou-se a uma decisão equilibrada. Nas comunidades onde há adultos que se preparam para os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma) na noite da Páscoa, deve-se utilizar o ciclo A, o qual, no entanto, quando se julgar oportuno, pode ser usado sempre como indica o próprio Lecionário Dominical, nas páginas 438, 442, 446, 752, 756 e 760. Mas, onde não houver adultos preparando-se para os sacramentos, poderão ser usados, conforme os anos, os ciclos B e C, porque a linha do ciclo A é fundamentalmente batismal.


7- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo da Quaresma, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 1º Domingo da Quaresma. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

A regra da reserva simbólica vale para todos. A liturgia nos ensina a reservar os elementos festivos para a festa da Páscoa. Assim, os grupos são chamados a serem mais moderados na execução dos instrumentos, evitando “solos instrumentais”, deixando de tocar algum instrumento, ou mesmo cantando algo “à capela” (sem acompanhamentos musicais). É tempo também de escutar, de ser “obediente”, de aguçar o discipulado: uma boa forma de manifestar isso seria assumir o repertório da CNBB para as celebrações.

1- Canto de abertura: “Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atende-lo, e a seu lado eu estarei em suas dores”, Salmo 90/91,15-15). “Senhor, tende compaixão do vosso povo que acolhe a conversão”, articulado com o Salmo 50/51: “Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia”, CD: CF-2015, melodia da faixa 3.

Como canto de abertura da celebração, sugere-se o canto proposto pelo CD:CF-2015 CNBB. Isso não significa exclusividade. Mas a equipe de liturgia, a equipe de celebração, a equipe de canto juntamente com o padre usando do bom senso têm a liberdade de variar sua escolha, desde que isso manifeste o Mistério celebrado e seja fiel aos princípios que regem a escolha de uma música adequada para a celebração. Uma sugestão, para entender bem o que significa isto, seria “Senhor, eis aqui o teu povo”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 1; “Reconcilia-vos com Deus”; Hinário Litúrgico da CNBB, II, pág. 290. “João Batista clamou no deserto”, Hinário Litúrgico da CNBB, página 284. O canto de abertura deve nos introduzir no mistério celebrado.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII, CD: Liturgia XIV e CD: CF-2015.

2- Ato penitencial. Nesse domingo seria oportuno rezar a invocação da Quaresma número 3 da página 397 do Missal Romano. Todos se coloquem de joelhos.
3- Salmo responsorial 115/116B. Confiança em Deus no meio da adversidade. “Andarei na presença de Deus, junto a ele na terra dos vivos”, CD: CF-2015, melodia da faixa 6 ou CD: Liturgia XIV, melodia da faixa da faixa 5.

A função do salmista é de suma importância. Sua função ministerial corresponde à função dos leitores e leitoras, pois o salmo é também Palavra de Deus posta em nossa boca para respondermos à sua revelação. Por isso, o salmo dever ser proclamado do Ambão e, se possível, cantado.

4- Aclamação ao Santo Evangelho. “Este é o meu filho amado: escutai-o” (Lucas 9,35). “Glória a vós, ó Cristo, Verbo de Deus!”, articulado com Lucas 9,35:  “Numa nuvem resplendente”, CD: CF-2015, melodia da faixa 6.

Preserve-se a aclamação ao Evangelho cantando o texto proposto pelo Lecionário Dominical. Ele ajudará a manifestar o sentido litúrgico da celebração, conforme orientações da Igreja na sua caminhada litúrgica.

5- Canto após a homilia. Onde for oportuno, após a homilia e uns momentos de silêncio, entoar o Hino da CF-2015. “Em meio às angústias, vitórias e lidas”, Seria oportuno entoar este hino após a homilia, para facilitar a vinculação da Liturgia da Palavra com a vida e o tema da CF.

6- Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração na Quaresma. Podemos entoar, “Aceita, Senhor, com prazer o que vimos te oferecer”, CD: CF-2015, melodia da faixa 10. A Igreja oferece outros cantos quaresmais: “Eis o tempo de conversão”, CD: CF-2012, melodia da faixa 12; CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 6, e Hinário Litúrgico da CNBB, II, pág. 217; “Recebe este canto do chão”, CD: Liturgia XIV; “O vosso coração de pedra”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa5. Outra opção é o hino da CF-2015, se não for entoado após a homilia.

7- Canto de comunhão: “Este é o meu filho muito amado”, (Mateus 17,5). “Jesus, Filho amado do Pai, divina e gloriosa alegria”, CD: CF-2015, melodia da faixa 13.

A mesma orientação dada para o canto de abertura vale para o canto de comunhão. Mas na mesma liberdade e bom senso, sugerimos um canto bem conhecido da série Povo de Deus: “Então da nuvem luminosa dizia uma voz”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 8, articulado com o Salmo 44/45. Também se encontra no Hinário Litúrgico II da CNBB, página 41.

O canto de comunhão deve retomar o Evangelho do 2º Domingo do Tempo Quaresma. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o Corpo e Sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. No 2º Domingo da Quaresma, estamos com Jesus no alto da montanha. A exemplo do Divino Mestre, devemos transfigurar a nossa vida.

8- O ESPAÇO CELEBRATIVO

1. Preparar bem o espaço celebrativo, dando destaque a três símbolos fortes: a cruz, a caminhada e a luz. Colocar no espaço celebrativo galhos secos e um cacto saindo das pedras para lembrar que a Quaresma é tempo de deserto.

2. A equipe também procure caracterizar o ambiente e organizar toda a celebração dentro de uma certa sobriedade (cor roxa, sem flores, sem glória, sem aleluia e sem o canto de louvor a Deus após a comunhão. Isso não quer dizer que o ambiente seja de tristeza. A fé cristã une numa mesma celebração “a dor e a alegria, a luta e a festa”. Na Quaresma se retoma o silêncio, as celebrações são mais silenciosas, sóbrias, simples, austera. Não se enfeita o espaço celebrativo com flores. Os instrumentos apenas acompanham o canto. Não deve ter baterias e instrumentos de percussão fazendo aquele barulho como se fosse uma boate. É o silêncio que predomina.

3. Colocar em volta da mesa da Palavra e da cruz processional várias velas acesas lembrando o brilho da transfiguração. Outra forma de valorizar a cruz neste Domingo da Quaresma seria manter um pequeno braseiro aos seus pés, com um discreto incenso durante toda a celebração. A fumaça não só lembrará a nuvem da transfiguração, bem como valorizará a cruz como sinal de Jesus Cristo obediente que caminha para Jerusalém.

9- AÇÃO RITUAL

A celebração deste domingo nos recorda como homens e mulheres que nasceram no Batismo para ser “luzeiros“ de Deus no mundo, guiando os dias e iluminando as noites. A equipe de celebração vai acolhendo a cada um com um de maneira fraterna com um aperto de mão.

Ritos Iniciais

1. Motivar para que a procissão de entrada na igreja seja sinal de nossa peregrinação quaresmal rumo à Páscoa. Vamos fazer com Jesus uma parada na igreja pra orar. Nossa igreja vai ser hoje o monte Tabor.

2. Como saudação presidencial sugerimos a de 2Tessalonicenses 3,5 (opção c):

O Senhor, que encaminha os nossos corações  para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco.

3. Após a saudação presidencial, as comunidades que já deixaram de fazer comentário antes do canto de abertura, porque entenderam o rito da Igreja e a primazia da saudação (Palavra de Deus que nos convoca), em seguida podem propor o sentido litúrgico.

Domingo da Transfiguração do Senhor. No tempo da Quaresma somos chamados, pelo Pai, a nos elevar com seu Filho na escuta de sua Palavra, deixando que, em meio às nossas cruzes, se manifeste a sua glória. No Evangelho, Cristo não quer ser confundido com nenhum tipo de messianismo afastado da cruz, ainda que tenha resplandecido diante dos discípulos, por isso mesmo, ordena que guardem segredo a respeito do que viram. A cruz, nosso segredo, revela-se como caminho para a glória que o Pai nos reserva.

4. Em seguida, fazer uma recordação da vida, tornando presentes as realidades que hoje precisam ser transfiguradas, transformadas, especialmente em relação ao tema da Campanha da Fraternidade. Não esquecer os fatos positivos que revelam o brilho da luz divina. Trazer os fatos da vida de maneira orante e não em forma de noticiários.

5. O Ato Penitencial poderia ser celebrado como preparação à escuta da Palavra. Quem preside convida a assembléia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus.  Pode ser feito por toda a assembléia, de joelhos, defronte a cruz do Senhor. Quem preside convida a assembléia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus. Sugerimos o convite ao ato penitencial da fórmula 1 da página 390 do Missal Romano.

O Senhor Jesus transfigurado que nos convida à mesa da Palavra e da Eucaristia, nos chama à conversão.

Sugerimos para o Ato Penitencial a invocação da Quaresma número 3 da página 397 do Missal Romano. Todos se coloquem de joelhos.

Senhor, que fazeis passar da morte para a vida quem ouve a vossa Palavra, tende piedade de nós.

6. Na Oração do Dia suplicamos ao Pai, que alimente o nosso espírito com a Palavra que nos vem através do Filho amado; que o olhar de nossa fé seja purificado, para que enxerguemos a verdadeira glória em Jesus Cristo.

Rito da Palavra

1. Antes da primeira leitura, todos entoam suavemente sem instrumentos musicais: “Eu vim para escutar tua Palavra, tua Palavra, tua Palavra de amor”, e uns momentos de silêncio.

2. Hoje recebemos um convite todo particular para “escutar” profundamente o Filho amado. É bom fazer um instante de silêncio antes da proclamação das leituras. Os leitores e salmistas, imbuídos da Palavra do Senhor, tornam-se anunciadores da boa Notícia, proclamando-a de todo o coração.

3. Na liturgia da Palavra, Deus chama e propõe as condições da Aliança, enquanto o povo as ouve e aceita. Na liturgia eucarística a Aliança é “selada” no sangue do Cordeiro que tira o pecado mundo. Agora o Cristo, em seu mistério pascal (Evangelho), é a chave da leitura da revelação bíblica (demais leituras) e dos acontecimentos dos dias de hoje (a vida que trazemos para a Eucaristia).

4. As leituras sejam proclamadas de forma clara, pois a ordem do Pai é de que escutemos o seu Filho amado. Neste Domingo, incentive-se a assembléia a fazer o exercício da escuta atenta, deixando de lado os folhetos para acompanhar as leituras com o coração, pois “quando se lêem as Sagradas Escrituras na missa, é o próprio Cristo que fala” (SC 7).

5. Onde houver batismo de adultos na Vigília Pascal, pode-se fazer, neste domingo após a homilia, um pequeno rito de entrega da Bíblia aos catecúmenos e também um pequeno rito com a bênção e entrega de uma vela acesa aos mesmos. Adultos que vão receber a primeira eucaristia e o crisma também participam desse rito.

6. As preces, como Palavra que ressoa em forma de súplica, sejam proferidas do Ambão. As fórmulas se inspirem nas leituras da celebração, trazendo sempre o elemento memorial antes da súplica. Exemplo:

Senhor, vosso Filho nos conduz ao monte para testemunhar a manifestação da glória que vós nos preparastes: no meio das penúrias da vida, fazei-nos fixar o nosso olhar na face gloriosa Dele, para que os sofrimentos não nos façam esmorecer no caminho até a Páscoa. Nós vos pedimos.

Rito da Eucaristia

1. Sejam trazidos na procissão (a não ser em circunstâncias especiais) apenas pão e vinho, bem como alimentos e dinheiro para as necessidades dos pobres e da comunidade. Contudo, em certas ocasiões a procissão tornar-se á mais expressiva se levar também para o altar ofertas simbólicas alusivas à comemoração realizada naquele dia ou a algum aspecto da vida da comunidade. Os cristãos, outrora, para expressar a sua participação no sacrifício eucarístico, eram muito sensíveis à oferta do pão, do vinho e de donativos para os pobres para os pobres.

2. A preparação dos dons tem uma finalidade prática, expressa na procissão com que o pão e o vinho são trazidos ao altar. Segundo o costume das refeições judaicas, bendiz-se a Deus pelo alimento básico, o pão, e pela bebida mais significativa, o vinho. Evitar de chamar este momento de “ofertório”, pois ele acontece após a narrativa da ceia (consagração).

3. Na Oração sobre as Oferendas, peçamos a Deus que as oferendas que trazemos ao Altar lavem os nossos pecados para que sejamos santificados.

4. No Prefácio próprio para este Domingo, contemplamos Jesus que na “montanha sagrada” mostra todo o seu esplendor e que pela “paixão e cruz” chegará à glória da ressurreição.

6. Ao apresentar o pão e o vinho, isto é, o convite à comunhão, o presidente da celebração mostrando o cálice e a ambula ou patena diz o versículo bíblico do Evangelho de João 8,12 e que se encontra no Missal Romano: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida. Eis o Cordeiro de Deus...”

7. Não esquecer de, após a comunhão, reservar um tempo para a assembléia fazer um profundo “silêncio contemplativo” do encontro havido com Deus. Seria bom que até se fizesse uma breve motivação para esse momento de silêncio orante, previsto pelo Missal Romano.
8. Lembramos que, em si, não há necessidade de um “canto de ação de graças” após a comunhão (como virou um costume errado em muitas comunidades), pois a ação de graças, na verdade, já aconteceu; foi a Oração Eucarística, a grande prece da Igreja. O que o Missal propõe é um canto ou salmo de louvor a Deus, que na Quaresma é omitido juntamente com o Hino de louvor (Glória) e o Aleluia.

Ritos Finais

1. Na Oração depois da Comunhão, suplicamos a Deus que depois de comungar o mistério da glória, nos ajude aqui na terra, já participarmos da realidade eterna de Deus.

2. Quem começa a dar os avisos, inicia recordando que é hora de descer da montanha e seguir os passos da cruz de Cristo, guardando fielmente o segredo da cruz como lugar supremo da manifestação da glória de Deus. Os avisos são desdobramentos da cruz: a missão que a comunidade deve enfrentar.

            3. Nos Ritos Finais, seria interessante dar a bênção à comunidade com o Livro dos Evangelhos (Evangeliário), conforme venerável tradição, antes reservada ao Papa e agora aberta aos bispos e presbíteros. Apresentamos a seguir a sugestão de bênção solene, inspirada nos oracional e liturgia da Palavra deste domingo:

- Deus que revelou no monte a glória de seu Filho, vos ilumine neste itinerário quaresmal. Amém!

- Cristo, cuja Palavra vos foi anunciada, vos permita assumir a cruz para celebrar a ressurreição que ela manifesta. Amém!

- O Espírito vos dirija o caminhar, para que o fulgor do Crucificado dê sentido à vossa vida. Amém!

- Abençoe-vos Deus todo poderoso Pai e Filho + (com o Evangeliário) e Espírito Santo. Amém.

4. As palavras do envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: Transfigurai vossas vidas e a sociedade. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

É necessário confiar e esperar sempre, pois o Transfigurado no Tabor, Filho predileto, aparece transfigurado na Cruz, porém se torna definitivamente o Ressuscitado e Transfigurado.

O objetivo da Igreja e da nossa equipe diocesana de liturgia é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos
Pe. Benedito Mazeti


sábado, 21 de fevereiro de 2015

“CONVERTEI-VOS E CREDE NO EVANGELHO”

1º DOMINGO DA QUARESMA
ANO B
22 de fevereiro de 2015

Leituras

         Gênesis 9,8-15. Estabeleço convosco a minha aliança.
         Salmo 24/25,4-9. Vossa verdade me oriente e me conduza.
         1Pedro 3,18-22. À arca corresponde o batismo, que hoje é a vossa salvação.

         Marcos 1,12-15. O Espírito levou Jesus para o deserto.

1- PONTO DE PARTIDA

Domingo do deserto de Jesus. Deus faz Aliança conosco em Jesus Cristo. Estamos no início da quaresma e da Campanha da Fraternidade, tempo de forte de conversão. Quaresma é caminho marcado pela conversão através da oração, da escuta da Palavra de Deus, do jejum, da esmola e de gestos concretos de caridade. Neste domingo, vamos com Jesus ao deserto, conduzidos pelo Espírito e aprenderemos a enfrentar as situações do mundo.

Diante das tentações renovamos nossa fidelidade ao Deus vivo e verdadeiro, sustentados por sua Palavra. Fazendo memória da Páscoa de Cristo, proclamamos a vida que vence a morte e renovamos nosso compromisso de fidelidade a Jesus Cristo e seu projeto de salvação.

Estamos na Quaresma e Campanha da Fraternidade. Ela tem como tema: “Fraternidade: Igreja e sociedade”, e o lema: “Eu vim para servir” (cf. Marcos 10,45).

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos bíblicos

Primeira leitura – Gênesis 9,8-15. O tema central do texto litúrgico de hoje é o da Aliança. Esta leitura propõe a narração do dilúvio que destrói o mal e constrói um novo povo de Deus na Aliança. A leitura nos diz que Deus sempre tem uma proposta de amor para a humanidade, apesar de nossas resistências e teimosias. A Bíblia nos apresenta várias dessas, propostas, que ela chama de alianças, isto é, acordo. O texto desse primeiro domingo narra a primeira delas com toda a humanidade, depois da catástrofe do dilúvio. Através dessa Aliança, simbolizada no arco-íris, Deus garante a vida para toda a Criação, a não ser que as pessoas não aceitem Deus. Deus nos ama e quer fazer uma Aliança de amor conosco.

Noé torna-se o pai da humanidade, a mesmo título que Adão: Deus faz, pois, Aliança com ele, como fizera com Adão (Gênesis 1) e o abençoa da mesma forma que abençoou a primeira humanidade.

Para o homem da Antiguidade, qualquer fenômeno atmosférico que provinha do Céu, da esfera do divino, enquanto sinal de benevolência ou, mais freqüentemente, de castigo da parte da divindade irada pelos pecados do povo (cf. Deuteronômio 28,15-46). O mito de um dilúvio capaz de eliminar toda a forma de vida era conhecido em todo o Oriente. O autor sagrado baseia-se nessa crença para corrigir e afirmar de modo decisivo que o Senhor não ameaça nem castiga a Humanidade (cf. Isaias 54,9-10).

É a primeira Aliança que a Bíblia apresenta de forma explícita. Nela estão presentes alguns elementos sobre os quais é interessante refletir. Esta Aliança, situada pelo autor sagrado no fim do dilúvio, manifesta o amor que Deus tem pela Humanidade e por todas as demais criaturas. Esta primeira Aliança de Deus não é somente com a Humanidade, mas com toda a Criação, representada por “todos os seres vivos que estão convosco: aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra, que saíram convosco da arca” (cf. versículo 10). Fala-se muitas vezes da Aliança com as pessoas, mas aqui é a única vez que se fala de uma Aliança de Deus com os animais. Certamente é porque juntamente com o homem, os animais também foram atingidos pelo castigo do dilúvio. Deus, o “Criador fiel” (1Pedro 4,19), o “Senhor amante da vida” (Sabedoria 11,26), assegura que não comunicará morte e destruição, mas vida e fecundidade.

Como prova dessas Suas intenções, Deus “faz aparecer o seu arco” (cf. versículo 130): o instrumento que servia para lançar as flechas e punir as pessoas (cf. Abdias 3,9-10) é definitivamente abandonado. Assim o arco-íris, que era um fenômeno natural, assume, aos olhos dos hebreus, um valor e um sentido religioso. Daqui em diante não servirá para dar a morte às pessoas, mas para lhes recordar que toda a Criação está sob o desígnio da bondade de Deus, e que nenhum pecado jamais poderá comprometer a fidelidade de Deus à Aliança com a Humanidade. “E a Criação interpela impaciente os homens, esperando o cumprimento dessa Aliança para ser libertada da corrupção e entrar também ela na liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8,21).

O dilúvio é o símbolo do juízo de Deus sobre esse mundo. Mas repousa sobre este também sua misericórdia, simbolizada pelo arco-íris. Deus faz Alianças com Noé e sua descendência, isto é, a Humanidade inteira. É significativo que esta mensagem foi codificada no tempo do declínio do reino de Judá! A fidelidade de Deus dura para sempre – Gênesis 9,8-11 cf. Gênesis 6,18; Oséias 2,20; Isaias 11,5-9; 54,9-10; Eclesiástico 44,17b-18; Romanos 12,29 – 9,12-15 cf. Ezequiel 1,28; Apocalipse 4,3.

Salmo responsorial 24/24,4-9. Este salmo nos diz que Deus é fiel, que seu amor é fiel, que tudo o que Deus faz é amor e fidelidade, que em sua Aliança está a sabedoria para a nossa vida.

O Salmo é uma mistura de súplica individual com temas dos salmos sapienciais (veja Salmo 1). Mas predomina a súplica. Uma pessoa – na terceira idade pede duas coisas a Deus: o perdão dos desvios (pecados) de sua juventude e a libertação das mãos dos inimigos. Recupera a religiosidade popular, o sentido das caminhadas, das procissões. Faz pensar na liturgia enquanto celebração da vida e expressão da fé. Ajuda a superar o ritualismo e uma religião de aparências.

O rosto de Deus. O Salmo tem muitas palavras que recordam a Aliança: caminho (versículos 8.9), direito (versículo 9). O Deus deste Salmo é, mais uma vez o aliado do pobre explorado e oprimido, o mesmo Javé que, no passado, libertou os hebreus da escravidão do Egito, aliou-se a eles e os conduziu para a terra da promessa. É por isso que o salmista tem tanta coragem em pedir e tanta confiança em ser atendido, evitando a vergonha e a confusão de um Deus neutro, surdo e indiferente.

No Novo Testamento Jesus proclamou felizes os mansos (os oprimidos) porque possuirão a terra (Mateus 5,5) perdoou pecados (Lucas 7,36-50; João 8,1-11) e advertiu os gananciosos que acumulam bens (Lucas 12,15).

Manifestemos nossa alegria pela fidelidade do nosso Deus e peçamos que Ele nos ajude a sermos fiéis à sua Aliança.

Segunda leitura – 1Pd 3,18-22. Também a arca de que fala essa leitura e que apresenta como figura do batismo que salva, propõe de novo de certo modo o “motivo da Aliança”. A carta de Pedro nos fala que aquela água do dilúvio, da qual foram salvos Noé e sua família, é símbolo do Batismo. O apóstolo Pedro, escrevendo aos cristãos que viviam longe de sua terra natal, aprofunda o sentido do batismo, fazendo seu comentário sobre a leitura do Gênesis (1ª leitura). Mergulhando-nos na “morte e ressurreição de Cristo”, o batismo nos faz renascer para a vida nova de filhos e filhas de Deus. A salvação das águas do dilúvio marca para Noé e sua família o “começo de uma nova criação”.

Esta leitura provavelmente se inspira num antigo hino batismal que os primeiros cristãos cantavam durante a Vigília Pascal. Podemos reconstituí-lo da seguinte maneira:

(Cristo)
(conhecido desde antes da criação)

manifestado no fim dos tempos                                                 (1Pedro 3,18)
morto pela carne                                                                         (1Pedro 3,18)
vivificado pelo Espírito                                                              (1Pedro 3,18)
pregou aos mortos                                                                       (1Pedro 3,19)
subiu ao céu                                                                                (1Pedro 3,22)
subordinando potências e dominações                                       (1Pedro 3,22)

Aliás, este hino inspira outras passagens do Novo Testamento (Efésios 3,7.11; 2 Timóteo 1,9-11).

Devemos observar que estes versículos se agrupam aos pares. Os dois primeiros cantam o senhorio de Cristo sobre o tempo; do qual é o Alfa e o Ômega. Os dois seguintes descrevem sua vida sobre a terra, sua passagem da morte à vida e seu Mistério de homem vivificado pelo Espírito. Os dois últimos definem seu senhorio sobre o cosmos, da morada dos mortos até o céu.

O autor da carta inseriu nesta aclamação uma breve profissão de fé:
(Creio em Cristo)
que morreu                                                                                 (1Pedro 3,18a)
que ressuscitou                                                                           (1Pedro 3,21b)
que está à direita de Deus                                                          (1Pedro 3,22  )

A forma do Credo Apostólico se proclama que Jesus Cristo “foi crucificado, morto e sepultado: desceu à mansão dos mortos” quer afirmar que a salvação e a vida eterna foram comunicadas também aos que morreram antes Dele. É o triunfo da misericórdia divina que, segundo o autor da Carta de Pedro, se estende aos que “tinham sido outrora desobedientes” (versículo 20). Aos incrédulos e aos injustos a salvação é concedida não pelos seus méritos, mas como dom gratuito de Deus.

Jesus derrotou definitivamente todos os elementos que condicionavam a vida das pessoas: os “anjos” rebeldes, as “Dominações” e as “Potestades” (versículo 22), forças cósmicas hostis a Deus e que Cristo submeteu (cf. Hebreus 6,12). O cristão não tem nada a temer do mundo invisível porque, diz Paulo na Carta aos Romanos: nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes nem as forças das alturas ou das profundidades nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, Nosso Senhor (Romanos 8,38-39).

Nem mesmo o pecado consegue separar a pessoa do amor de Cristo que morreu “o Justo pelos injustos” (versículo 18). Com o Batismo, sinal de conversão e de acolhimento da Boa Notícia (cf. Marcos 1,15), o cristão abre-se a uma nova relação com Deus que não se baseia em ritos exteriores de purificação (“da imundície corporal” versículo 21), mas no acolhimento do amor gratuito do Pai.

Evangelho – Marcos 1,12-15. Jesus vence a tentação e o pecado, para poder dar início à reconstrução da Aliança. De forma bem resumida, o evangelista nos apresenta o começo da vida pública de Jesus a partir das “tentações no deserto”. Marcos relata de maneira muito breve a permanência de Jesus no deserto (vv. 12-13). Mas é interessante ver como ele faz desta permanência o ponto central entre o Batismo (vv. 9-11) e a inauguração do ministério de Jesus (vv. 14-15). Marcos é, de fato, o único evangelista que manteve o Batismo de Jesus como fato que inaugura o seu Evangelho; nisso ele foi fiel à pregação apostólica primitiva (Atos 10,37). O rito se desenrola numa série de acontecimentos que precisam ser analisados em si mesmos: a abertura dos céus (v.10), a descida do Espírito (v. 10) e a voz celeste (v. 11). 

Jesus tinha vindo de Nazaré e já havia sido batizado por João Batista no rio Jordão. Agora ele é levado para o deserto, onde enfrenta as mesmas tentações que o Povo de Deus no tempo da libertação do Egito. O evangelista Marcos, ao contrário de Mateus e Lucas, não descreve as tentações de Jesus no deserto, nem se quer fala do jejum. É bom, no entanto, tomarmos consciência de que as três tentações estão na mente de Marcos apesar de não serem expressas, são como que pano de fundo da experiência de Jesus no deserto, antes de iniciar sua vida pública.

O Espírito que Jesus recebeu no batismo impulsionou-O para o deserto.  Em Marcos o deserto é o lugar onde nos encontramos com Deus (1,35; 6,31). Na Bíblia é o lugar onde se tomam as “grandes decisões”. Este aspecto é acentuado pelo número 40. A permanência de Jesus no deserto tem um significado particular: o Êxodo é verdadeiramente engajado: Jesus passa quarenta dias no deserto como o povo aí permaneceu quarenta anos; Ele aí é conduzido pelo Espírito, como o povo foi conduzido pela nuvem; é tentado, como o povo foi (Deuteronômio 8,1-4; Salmo 95/94). Mas, sendo também Messias, Jesus também é servido pelos anjos (Salmo 91/90,10-12) e vence os animais selvagens (Deuteronômio 8,15; Salmo 91/90,13), como queria uma interpretação messiânica do Salmo 91/90.
Ser batizado é, fundamentalmente, deixar-se imergir na água e, sobretudo, na condição humana (com a morte) que a água representa. Quando Jesus se faz batizar, aceita sua condição humana com suas ambigüidades e seus sofrimentos, com a morte na cruz em seu fim para nos salvar. Mas logo após o batismo a tentação vem assediar Jesus a fim de ajudá-Lo a verificar se sua decisão é firme e está profundamente inserida em sua vida.

Depois do deserto Jesus vai para a Galiléia para inaugurar seu ministério público, proclamando o sentido de sua Encarnação na história: o anúncio do “Evangelho de Deus” (Marcos 1,14).

“Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus...” (Marcos 1,14). Apesar desta prisão continua a pregação de uma nova aurora de intervenção de Deus na história da humanidade. A atuação de Jesus não se reduz, porém, a uma mera continuação daquilo que João Batista iniciou. Sua atuação traz a plenitude Boa-Nova. O tempo da preparação iniciado pelo Batista é agora substituído “pelo tempo da plena realização ou da plenitude”: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e creiam no Evangelho” (Mc 1,15) Antífona do Canto de comunhão na Quarta-Feira de Cinzas e articulado com o Salmo 1.

O cenário desta realização é a Galiléia e não a Judéia; é o interior ao redor do Lago de Tiberíades e não a capital Jerusalém. Mas também para Marcos esta indicação provavelmente já se vestiu de um sentido teológico e não somente geográfico. Galiléia não é somente o cenário do ministério terrestre de Jesus, mas também o lugar de encontro dos discípulos com o Senhor ressuscitado (Marcos 14,28; 16,7). A grande decisão toma-se longe dos “centros de decisão” e, está bem claro logo na vocação dos primeiros discípulos (Marcos 1,16-20), não junto aos que tem “poder decisório”, mas a simples pescadores do mar da Galiléia (Marcos 1,14-20).

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Nosso Deus é um Deus de amor e de fidelidade (Salmo 24/25). A Palavra de Deus nos ensina que Ele sempre nos amou com amor eterno, propondo-nos Aliança.

Sua primeira Aliança foi com Noé (Gênesis 9,18-15), representando toda a humanidade. Depois, Deus fez de maneira específica essa Aliança com o povo de Israel, iniciada na promessa feita a Abraão, nosso pai na fé (Gênesis 12,15). Essa Aliança foi depois renovada com todo o seu povo do Primeiro Testamento ao pé do monte Sinai (Êxodo 19-24). E finalmente ela fez a Aliança definitiva com Jesus Cristo, no Segundo Testamento (Lucas 22,20; Mateus 26,28; Mc 14,24).

A contrapartida dessa proposta de Deus é nossa conversão. Ou seja, somos convidados a deixar as tentações das alianças falsas do mundo do pecado (a tentação do ter, do poder e da manipulação de Deus, superada por Jesus nas três tentações). Somos convidados a viver o batismo, que nos coloca dentro do mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo (com o simbolismo do mergulho na água). Quem vive o batismo em comunidade morre para o pecado e ressuscita para a vida nova de filho de Deus. Quem vive o batismo assume o projeto de Jesus, o mesmo Êxodo: sair da casa da escravidão, aprender a partilhar os bens econômicos (cf. Êxodo 16), aprender a partilhar o poder (cf. Êxodo 18), e viver uma religião de compromisso com a vida, não fabricando para si falsos deuses (cf. Êxodo 32).

Um grande problema do nosso mundo são essas tentações (que o antigo povo de Deus teve e que Jesus também teve): “do ter, do poder e da manipulação de Deus”. Por isso falta fraternidade no mundo. Por isso se multiplicam os pobres no mundo. Por isso se excluem os deficientes, os doentes, os pobres, os idosos. Por isso se multiplicam as seitas religiosas feitas de deuses pequenos (fabricados à nossa imagem e semelhança), descompromissados com a verdadeira Aliança e muito distante do Deus da libertação (Êxodo 3).

A Igreja também é tentada a ser “milagreira”, sem buscar a justiça para haja paz; é tentada a um “espiritualismo desencarnado”, sem atender aos sofrimentos do povo; é tentada pela “ambição política”, usando a religião em proveito da instituição.

O apóstolo Pedro ainda nos lembra que “o batismo não serve para limpar o corpo da imundície, mas é um pedido a Deus para obter uma boa consciência, em virtude da ressurreição de Jesus Cristo” (3,21). O batismo não é um banho de purificação semelhante às abluções dos judeus. Muitos ainda hoje pensam que o batismo é para purificar a criança dos pecados dos pais. O que Pedro nos orienta é que o batismo nos faz mergulhar no mistério da morte e ressurreição de Cristo.

Se a vida cristã é estar sempre a caminho, tem que ter um objetivo ou finalidade que dê sentido à nossa caminhada. Este objetivo é morrer com Cristo para o pecado e ressuscitar com ele para a vida de Deus, isto é, viver a “Aliança de amor” e eleição que o Senhor realizou um dia com cada um de nós, pelo Batismo.

A Quaresma é um chamamento gratuito de Deus, “oportunidade feliz” de renovar a nossa Aliança batismal com Ele por meio da “conversão e da reconciliação” com Deus e com os irmãos e irmãs.

Para assegurar a nossa “renovação batismal” devemos apontar, com realismo, metas pessoais e comunitárias de conversão e progresso. Como demonstrar que estamos seguindo a ordem de Jesus: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”? Sinais que expressem e meios que reafirmam a conversão são, entre outros: a penitência quaresmal e a prática penitencial (cinzas, jejum, abstinência): participação na celebração do sacramento da reconciliação; oração como diálogo com Deus; escuta e meditação da Palavra de Deus (celebrações, encontros, caminhadas penitenciais, exercícios, via sacra); a caridade, o amor aos irmãos e irmãs como expressão da nossa mudança do egoísmo, da soberba e da avareza à partilha dos nossos bens e do nosso tempo com os outros; etc.

Seguindo o estilo, o desejo e as atitudes de Jesus no deserto, renasceremos para a vida nova e para a Aliança de filhos e filhas com Deus iniciada no Batismo. Quaresma é estar com Jesus no deserto. Caímos em tentação quando idolatramos a nós mesmos e não damos a Deus o que é de Deus: seu Reino e seu povo.

A Campanha da Fraternidade deste ano, evidencia de maneira clara o binômio, Igreja-Sociedade, nos exorta a aprofundar a compreensão da dignidade da pessoa humana. Já descobrimos quais são as tentações mais frequentes, hoje em nosso mundo? Já refletimos sobre os tipos de aliança que fazemos em nosso dia a dia, na prática? Com que projeto de sociedade sonhamos?

A Quaresma e a Campanha da Fraternidade são um convite forte para a volta ao projeto de Deus, à sua Aliança. (Ver outras indicações para homilia no Manual da Campanha da Fraternidade).

4- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

Conversão do Coração

Um dos enfoques que a liturgia quaresmal do Ano B nos apresenta é a conversão do coração ao Deus que faz Aliança conosco em Jesus Cristo. Conversão do coração que coincide com metanóia (conversão) da mentalidade e do modo de agir, já que, para as Escrituras, o coração é a sede da inteligência e do discernimento. A oração sobre as oferendas insiste neste aspecto ao suplicar “que o nosso coração corresponda a estas oferendas com as quais iniciamos disposição e abertura para acolher a Palavra de Deus, deixando que ela nos guie para a Páscoa de Jesus. Ser como o pão e vinho apresentados na abertura da liturgia eucarística, corresponde a, como eles, permitir que a Palavra os habite e os transforme.

Comer e beber o Verbo

Atanásio de Alexandria, em pleno século IV, nos inícios ao surgimento da quaresma, portanto, elucida a importância de comer a Palavra do Pai em suas Cartas Pascais o que coaduna com a Antífona de Comunhão: “Não só de Pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus”. É preciso que o ser humano se torne Palavra de Deus como falara Inácio de Antioquia por ocasião de sua prisão, para que o Evangelho vença o pecado e a morte. Nesse sentido, tomar parte na refeição do Mistério significa consumir a Palavra de Deus. Orígenes muito bem sintetiza isto ao afirmar que “O Deus Verbo não chamou seu Corpo aquele pão visível que tinha em suas mãos, mas à Palavra em cujo mistério devia partir-se o pão. Nem chamou seu Sangue àquela bebida visível, mas à Palavra, em cujo mistério derramaria esta bebida. De fato, que outra coisa pode ser o Corpo e Sangue do Deus Verbo, senão a Palavra que alimenta e alegra os corações?”

A Eucaristia como sacramento da vitória pascal

A participação na mesa eucarística, seguindo a lógica das Escrituras e dos Santos Padres nos faz vencer as tentações do caminho, que consistem em reduzir o Reinado de Deus ao nosso governo nos três âmbitos: o fazer, o ter e o ser. A Eucaristia esclarece e realiza em nós o trabalho de Deus (fazer), através do qual participamos do seu reinado, que consiste em partilhar com o cosmos inteiro o que é fruto de Sua Benção (ter-com-os-demais), o que por sua vez manifesta de fato nossa identidade, como ressonância de sua Palavra (ser). O primeiro domingo da Quaresma, portanto, nos indica claramente o horizonte de vitória pascal da qual já participamos, e ao qual, constantemente, devemos converter o coração, isto é, os interesses.    

5. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Na liturgia deste domingo fazemos a memória de Jesus, que não se deixou levar pelas tentações do poder, do acúmulo e do prestígio. Sua obediência ao Pai até o fim trouxe para nós a justificação. Jesus Cristo é a nova árvore da vida que o Pai plantou para a salvação de toda a humanidade. Pelo batismo, com Ele nascemos para uma vida nova, baseada na partilha e fraternidade. A Quaresma é um tempo especial para renovarmos o batismo, o qual é participação na reconciliação do sacrifício realizado por Cristo. Por isso rezamos na oração inicial para que “possamos progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa”. Fazemos isso através da confiança em Deus retribuindo o seu amor por nós.

A vitória de Jesus sobre todo o mal é o grande motivo de louvor e ação de graças ao Senhor, nosso Deus. Por isso, presidente da celebração, em nome de toda a assembléia, reza no prefácio: “Jejuando quarenta dias no deserto, Jesus consagrou a observância quaresmal. Desarmando as ciladas do antigo inimigo, ensinou-nos a vencer o fermento da maldade. Celebrando agora o mistério pascal, nós nos preparamos para a Páscoa definitiva”.

Na celebração eucarística oferecemos Cristo ao Pai e o recebemos em comunhão. Ele é o “pão vivo e verdadeiro que nutre a fé, incentiva a esperança e fortalece a caridade” (oração final).

6. ORIENTAÇÕES GERAIS

1. O ensaio de canto e um momento de silêncio e oração pessoal ajudam a criar um clima alegre e orante para a celebração.

2. Fazer a experiência do vazio, da reserva simbólica (ausência de flores, cantos como o glória e os aleluias, moderação nos instrumentos musicais). A pedagogia da liturgia, em sua simplicidade e despojamento manifestados na Quaresma, há de nos ensinar, por si, a adentrar no mistério da Quaresma.

3. O bom uso do Lecionário. O ciclo A é ligado com o Batismo. O ciclo B deste ano, com a Aliança. Na época em que foi preparado o Lecionário Dominical, diversos peritos julgavam que, para a Quaresma, seria suficiente só o ciclo A, porque seu alcance doutrinal é fundamental. Mas prevaleceu o parecer dos biblistas. Afinal chegou-se a uma decisão equilibrada. Nas comunidades onde há adultos que se preparam para os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma) na noite da Páscoa, deve-se utilizar o ciclo A, o qual, no entanto, quando se julgar oportuno, pode ser usado sempre como indica o próprio Lecionário Dominical, nas páginas 438, 442, 446, 752, 756 e 760. Mas, onde não houver adultos preparando-se para os sacramentos, poderão ser usados, conforme os anos, os ciclos B e C, porque a linha do ciclo A é fundamentalmente batismal.


7. MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo da Quaresma, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 1º Domingo da Quaresma. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

A regra da reserva simbólica vale para todos. A liturgia nos ensina a reservar os elementos festivos para a festa da Páscoa. Assim, os grupos são chamados a serem mais moderados na execução dos instrumentos, evitando “solos instrumentais”, deixando de tocar algum instrumento, ou mesmo cantando algo “à capela” (sem acompanhamentos musicais). É tempo também de escutar, de ser “obediente”, de aguçar o discipulado: uma boa forma de manifestar isso seria assumir o repertório da CNBB para as celebrações.

1. Canto de abertura: Deus atende o clamor de seu servo (Salmo 90/91,15-16). “Lembra, Senhor, o teu amor fiel para sempre!”, articulado com o Salmo 24: “Senhor, meu Deus, a ti elevo a minha alma”, CD: CF-2015, melodia da faixa 3. A Igreja também oferece outras duas ótimas opções, para o povo de Deus, que se reúne em assembléia buscando o coração de Deus para uma verdadeira reconciliação. “Senhor, eis aqui o teu povo”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 1; “Reconcilia-vos com Deus”; Hinário Litúrgico da CNBB, II, pág. 290. O canto de abertura deve nos introduzir no mistério celebrado.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII, CD: Liturgia XIV e CD: CF-2015.

2. Ato penitencial. Nesse domingo seria oportuno rezar a fórmula “Confesso a Deus todo-poderoso... do Missal Romano, pag. 391. Todos se coloquem de joelhos. Outra opção é substituir o Ato penitencial pela aspersão da assembleia. “Aspergi-me, Senhor, e serei purificado”, CD: Nossa Senhora da Conceição Aparecida e Cantar a Liturgia, melodia da faixa 8; “Lavai-me, Senhor, lavai-me” do Hinário III da CNBB, pág. 89.

3- Salmo responsorial 24/25. Fidelidade de Deus a seu amor. “Verdade e amor são os caminhos do Senhor!”, CD: CF-2015, melodia da faixa 6.

4- Aclamação ao Santo Evangelho.Não só de pão vive o homem” (Mateus 4,4b). “Glória a vós, ó Cristo, Verbo de Deus. O homem não vive somente de pão...”, CD: CF-2015, melodia da faixa 9.

6. Canto após a homilia. Onde for oportuno, após a homilia e uns momentos de silêncio, entoar o Hino da CF-2015. “Em meio às angústias, vitórias e lidas”, melodia da faixa 1. Seria oportuno entoar este hino após a homilia, para facilitar a vinculação da Liturgia da Palavra com a vida e o tema da CF.

7. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração no Tempo da Quaresma. Podemos entoar, “Aceita, Senhor, com prazer o que vimos te oferecer”, CD: CF-2015, melodia da faixa 10. A Igreja oferece outros cantos quaresmais: “Eis o tempo de conversão”, CD: CF-2012, melodia da faixa 12; CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 6, e Hinário Litúrgico da CNBB, II, pág. 217; “Recebe este canto do chão”, CD: Liturgia XIV; “O vosso coração de pedra”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa5. Outra opção é o hino da CF-2015, se não for entoado após a homilia.

8. Canto de comunhão: “Não só de pão vive o homem”, (Mateus 4,4). “Nós vivemos de toda palavra que procede da boca de Deus”, CD: CF-2015, melodia da faixa da faixa 12.

O canto de comunhão deve retomar o Evangelho do 1º Domingo do Tempo Quaresma. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o corpo e sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. No primeiro domingo da Quaresma, somos convidados a entrar no deserto com Jesus. A exemplo do Divino Mestre, devemos resistir a toda e qualquer tentação. Devido o espírito de confiança que anima a liturgia de hoje e certos, da proteção dele, sugerimos outros cantos no rito da comunhão. Podemos cantar o Salmo 90/91: “Quando invocar, eu atenderei, na aflição com ele estarei”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 7. Vamos também com Ele pregar o Evangelho de Deus. Podemos também cantar Marcos 1,15 “Agora o tempo se cumpriu, o já chegou”, articulado com o salmo 1, CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 3 que se encontra também no Hinário Litúrgico da CNBB, Vol II, pág. 17.

8. O ESPAÇO CELEBRATIVO

1. Se há um elemento, que, sem palavras, cumpre a função mistagógica, isto é, de conduzir para dentro do mistério celebrado, este é o Espaço Sagrado. Por isso, devemos dedicar-lhe todo o nosso cuidado.

2. Como tempo preparatório para a Páscoa anual, a Quaresma nos convida a uma intensa revisão de vida. Os elementos simbólicos festivos serão reservados. O espaço celebrativo expressa essa “reserva simbólica” através da retirada das flores, do despojamento e austeridade que convém a este tempo. Também a cor roxa da estola (ou casula) e na mesa da Palavra as ajudará a sinalizar o tom penitencial característico desse tempo.

3. A cruz é elemento importante em qualquer tempo, mas na Quaresma é, sem dúvida, um sinal marcante da paixão de Cristo e da paixão do mundo. Colocar junto à cruz algumas pedras e um cacto saindo das pedras e galhos secos para lembrar a dureza do deserto.
4. A Mesa da Palavra pode conter alguns ornamentos discretos e sóbrios. Um ikebana com alguns galhos verdes e secos. Pode-se também fazer o ornamento com um tronco de árvore. Importante não utilizar nada que seja artificial.

5. Para o tempo quaresmal, já é de praxe, o uso da cor roxa nas vestes, velas e paramentos. Mas temos que ir além. Redescobrir, a cada vez, o sentido da chamada “reserva simbólica”: Durante este tempo (a Quaresma) é proibido ornar o altar com flores, cantar o aleluia ou o hino de louvor, o canto de louvor a Deus após a comunhão, com exceção das solenidades e festas.

6. Isso nos ajuda a preparar o espaço celebrativo levando em conta o tempo quaresmal. O ambiente deve estar “despojado a austero”. Isso vale também para outros tempos litúrgicos. Devemos “fazer uma limpeza” de tudo o que é supérfluo no espaço celebrativo, como cartazes, folhagens, fitas, adornos, faixas, muitas imagens, etc. Os exageros de enfeites causam uma verdadeira “poluição visual”, e é preciso achar um lugar “para pousar o olhar e contemplar”. Por outro lado, devemos valorizar e destacar o que é realmente essencial para a celebração do Mistério de Cristo, isto é, o Altar, a mesa da Palavra, a cadeira presidencial e a pia batismal. Durante a Quaresma outros símbolos fortes são importantes, como a cruz, a cor roxa e outros próprios para cada celebração.

7. A equipe procure caracterizar o ambiente e organizar toda a celebração dentro de uma certa sobriedade (cor roxa, sem flores, sem glória, sem aleluia e sem o canto de louvor a Deus após a comunhão. Isso não quer dizer que o ambiente seja de tristeza. A fé cristã une numa mesma celebração “a dor e a alegria, a luta e a festa”. Na Quaresma se retoma o silêncio, as celebrações são mais silenciosas, sóbrias, simples, austera. Não se enfeita o espaço celebrativo com flores. Os instrumentos apenas acompanham o canto. Não deve ter baterias e instrumentos de percussão fazendo aquele barulho como se fosse uma boate. É o silêncio que predomina. O espaço da celebração, a partir da Quarta-feira de Cinzas, deve ser organizado e permanecer por toda a Quaresma.

8. O cartaz da Campanha da Fraternidade e outras gravuras afins sejam colocados no mural ou noutro espaço cuja finalidade é informar os fiéis dos acontecimentos comunitários. Não é oportuno afixá-lo, por exemplo, no Altar ou na Mesa da Palavra. Caso seja apresentado na procissão de abertura, ou na homilia, deve ser reconduzido a um lugar oportuno.

9. AÇÃO RITUAL

Iniciamos o tempo da quaresma entrando no deserto para enfrentar as tentações e o pecado que desfiguram as feições divinas em nós. Jesus nos inicia neste caminho: com ele fazemos a travessia rumo à páscoa, à ressurreição.

Ritos iniciais

1. A celebração tem início com a reunião da comunidade cristã (IGMR 27.47). O canto de abertura começa tendo em conta essa realidade eclesial, e vai introduzir a assembleia no Mistério celebrado.

Seria muito oportuno a saudação inicial de 2Tessalonicensses 3,5:
“O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco”.

2. Em seguida quem preside, ou o diácono ou um leigo ou leiga preparado, dar o sentido da celebração com estas palavras ou outras semelhantes:

No primeiro Domingo da Quaresma o Senhor nos conduz ao deserto. É o próprio Espírito que nos conduz com Jesus e esse tempo de jejum, oração e solidariedade. Fortalecidos por Ele, seremos capazes de enfrentar nossas fragilidades e combater toda espécie de mal que nos afasta de nossa vocação de filhos de Deus.

3. Em seguida fazer uma recordação da vida tornando presentes as realidades que hoje precisam ser transfiguradas, transformadas. Trazer os fatos da vida de maneira orante e não como noticiário.

4. Reunida em torno da cruz, a comunidade pode fazer, de joelhos ou inclinada, o Ato Penitencial e ser motivada a expressar o desejo de viver a Quaresma, indicando aspectos nos quais é chamada à conversão do coração. Outra opção é substituir o Ato penitencial pela aspersão com água.

5. A Oração do Dia nos convida a acompanhar o Cristo de perto e corresponder a seu amor.

Rito da Palavra

1. Na liturgia da Palavra, Deus chama e propõe as condições da Aliança, enquanto o povo as ouve e aceita. Na liturgia eucarística a Aliança é “selada” no sangue do Cordeiro que tira o pecado mundo. Agora o Cristo, em seu mistério pascal (Evangelho), é a chave da leitura da revelação bíblica (demais leituras) e dos acontecimentos dos dias de hoje (a vida que trazemos para a Eucaristia).

2. Em todo o rito, a Palavra se conjuga com o silêncio. Momentos de silêncio após as leituras, o salmo e a homilia, fortalecem a atitude de acolhida da Palavra. O silêncio é o momento em que o Espírito Santo torna fecunda a Palavra no coração da comunidade. Nem tudo cabe em palavras.

3. Cuidar para que o creio não se torne apenas a recitação decorada, mas a renovação da fé e da adesão ao projeto de Deus que a comunidade, sustentada pela Palavra que ouviu da boca de Deus, é motivada a fazer diante de tantas tentações que enfrenta para lutar pela dignidade humana e pela paz.

4. Como os sacramentos de “iniciação cristã” devem ser celebrados nas solenidades pascais e sua preparação imediata é a própria Quaresma, realiza-se habitualmente “o rito de eleição” no primeiro domingo da Quaresma. Depois da Profissão de fé, faz-se o Rito de acolhida, através do qual a comunidade acolhe as pessoas que irão receber o Batismo. A última preparação dos “eleitos” coincida com o tempo quaresmal (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos pág. 63, nº 139).

5. Nas preces não se esqueça de incluir pedidos pela humanidade que tantas vezes sucumbe ao pecado que lhe desfigura a face de filhos de Deus. A resposta pode ser: “Conduza-nos o vosso Espírito ao deserto”.

Rito da Eucaristia

1. Na Oração sobre as Oferendas, peçamos a Deus que as oferendas que trazemos ao Altar lavem os nossos pecados para que sejamos santificados.

2. É tempo de usar os Prefácios do Tempo da Quaresma, que são muito bonitos e trazem uma boa síntese teológica desse tempo litúrgico. Usando estes prefácios, o presidente deve escolher a I ou a III Oração Eucarística. A II admite troca de prefácio. As demais não admitem um prefácio diferente.

Ritos finais

1. Na Oração depois da Comunhão, suplicamos a Deus que depois de comungar o mistério da glória, nos ajude aqui na terra, já participarmos da realidade eterna de Deus.

2. Nos avisos se recorde que os exercícios quaresmais são importantes armas na luta contra as tentações e o mal. A paróquia promova momentos de oração, sugestões de jejum para os fiéis e gestos de solidariedade que reúna os esforços de todos.

3. Bênção solene, para todo o povo, como sugere o Missal Romano, página 521 ou a também a oração sobre o povo, número 6, página 531:

Ó Deus, fazei que o vosso povo se volte para vós de todo o coração, pois se protegeis mesmo quando erra, com mais amor o guardais quando vos serve.

4. As palavras do rito de envio podem estar em consonância como mistério celebrado: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

A liturgia é a fonte e o cume da vida da Igreja. É o momento privilegiado da revelação de Deus. É a salvação acontecendo na vida das pessoas. Participando da liturgia santificamos o nome de Deus e ao mesmo tempo somos santificados.

O objetivo da Igreja e da nossa equipe diocesana de liturgia é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Pe. Benedito Mazeti

Assessor diocesano de liturgia