Estamos nos aproximando da celebração mais importante de
todo o Ano Litúrgico, a saber, o Tríduo Pascal. Esta celebração necessita estar
carregada de mistagogia e espiritualidade para levar o povo de Deus a fazer a
experiência de mergulhar no mistério da Paixão e da Morte de Jesus para
ressurgir, com Ele, na vida Nova. Sendo assim, a celebração do Tríduo Pascal é
a experiência de morrer para a criatura velha com atitudes velhas e renascer
uma nova criatura com atitudes novas. O texto que segue, sem a pretensão de ser
uma doutrinação, pretende auxiliar as equipes de celebração e liturgia, para
uma melhor preparação dessa Grande Celebração.
A primeira pergunta que precisa ser feita é: o que celebramos? Martín (2006, p.
347), é claro em afirmar: “a celebração do mistério pascal, ao mesmo tempo em
que evoca os fatos finais da vida terrena de Cristo, revive e atualiza a participação
dos batizados na passagem das trevas para a luz”. Em outras palavras, celebrar
o Tríduo Pascal é celebrar a realidade em que a comunidade está inserida. Porém
não basta só isso. É importante que a comunidade, nesta celebração, faça a experiência
de passar das trevas para a luz.
Este momento é muito importante por se tratar do contexto
real da comunidade, isto é, o mistério pascal inserido na vida da comunidade
orante. E quando se fala em vida se traz a memória os fatos que são bons e
aqueles que são menos bons. As equipes responsáveis para esta celebração têm a
missão de fazer a transformação da assembleia litúrgica. Mas, como? O conjunto
do tríduo pascal precisa levar os fieis a entender que não é só de momentos
ruins que vivemos, mas que estes são passageiros e servem para fortalecer a
nossa fé e, sobretudo, a buscar a superação na Luz que é Jesus Cristo.
Diante da catástrofe chamada violência, que vivemos hoje,
deixamos nos afetar por ela e, quando vamos a comunidade, estamos carregados de
pedidos e pouco de agradecimentos. Este é um sinal de trevas na vida de fé. Trevas
porque acomodam as pessoas e elas acreditam que só existem coisas más, sem
falar na demonização[1] da
liturgia, e não são capazes de sair desse contexto. Por este motivo que, ao finalizar
o rito da celebração da Vigília Pascal, e com ela o Tríduo Pascal, a comunidade
deve entender que o acontecimento da morte de Jesus – aquilo que era ruim e
parecia ser o fim – foi apenas um momento, um instante, a passagem das trevas
para a Luz. O que permaneceu e tirou da acomodação os apóstolos, amigos e
amigas de Jesus foi a Ressurreição. Diante disso, é preciso envolver a liturgia
do tríduo pascal com uma simbologia que leve a comunidade a entender que a experiência
maior, e que deve permanecer, é a do Ressuscitado e não a do Crucificado. No entanto,
a experiência do Crucificado não pode ser menosprezada, pois para chegar a
Ressurreição Jesus precisou passar pela morte de cruz. E é por meio dela,
segundo Martín (2006, p. 348), “que os cristãos renovem em si mesmos a passagem
da morte para a vida”, pois o que permanece é a vida.
Uma segunda pergunta pertinente a esta celebração é: como celebramos? Aqui precisamos
adentrar em cada um dos momentos do Tríduo Pascal para enfatizar o
desdobramento desta pergunta.
Para vivenciar o ‘como celebramos’ é preciso retomar o ‘o
que celebramos’ de cada um dos momentos da celebração do Tríduo Pascal. Segundo
Buyst (2002, p. 63), “na quinta feira santa celebramos a Páscoa da Ceia; recordamos
as palavras e os gestos de Jesus na última ceia, na qual expressou o sentido de
sua vida e morte e nos mandou celebrar sempre em sua memória”. Eis aqui o
primeiro momento do Tríduo Pascal.
Pois bem, como celebramos? Este dia é um dia de alegria em
que Jesus se reúne com os seus amigos para celebrar a Páscoa. Dois gestos de
Jesus marcam esta celebração: a instituição da Eucaristia e o lava-pés. É preciso
ficar atentos para não dar a ênfase maior ao lava-pés e menor a instituição da
Eucaristia. Nas comunidades que têm somente a celebração da Palavra de Deus, a
Eucaristia precisa ser valorizada no momento da Louvação quando se traz o pão eucarístico
para o altar. É bom lembrar que não é momento de adoração. É um cântico de ação
de graças rendendo louvores ao Senhor que se faz presente como alimento na
forma de pão.
O que preparar para este dia? Por se tratar de um dia
festivo é importante que o ambiente esteja alegre com flores vivas e arranjos litúrgicos
que levem a assembleia litúrgica a mistagogia da celebração. A cor litúrgica para
este dia é o branco. Atenção para duas observações importantes.
Primeira: tanto nas comunidades que têm missa como nas
comunidades que têm celebração da Palavra o sacrário deve estar vazio conforme
orientação do Missal Romano (p. 247). Por que o sacrário vazio? É a celebração
da memória da instituição da Eucaristia. Ainda não se tinha o cristianismo.
Jesus celebrou a páscoa judaica e nela instituiu a Eucaristia. Eis o porquê do Sacrário
vazio.
Segunda: o lava-pés. Aqui é importante se perguntar: a nossa
comunidade ainda reproduz uma cultura machista? O que é isso? É quando a equipe
de Liturgia escolhe somente homens para o ato litúrgico simbólico do lava-pés. Junto
com Jesus andavam homens e mulheres. Com certeza no momento da páscoa todos e
todas estavam presentes até porque a celebração da páscoa judaica era uma festa
familiar. É bom se questionar no momento da preparação da celebração: nossa
comunidade é formada só de homens? É claro que não! É formada de homens e de
mulheres. Então, porque no lava-pés só aparecem homens? Ah, porque Jesus lavou
os pés dos doze apóstolos que eram homens. É importante que estejam
representados no gesto do lava-pés aquelas pessoas menos favorecidas da sociedade
e de todos os movimentos e pastorais da comunidade. Quando se fala em
representação significa que todos devem estar presentes, inclusive mulheres,
jovens, adolescentes e crianças, pois a Igreja serve a todos e o gesto do
lava-pés é serviço. Não importa se passar de doze pessoas. Não estamos fazendo
um teatro ou encenação, mas uma memória do grande gesto de Jesus de abaixar-se
para servir.
Falamos no início deste texto de transformação. A Campanha
da Fraternidade deste ano fala e orienta para a superação da violência. A violência,
nos seus mais diversos tipos, mancha a vida da pessoa, da comunidade e da
sociedade Um gesto interessante a ser feito seria de que os participantes do
lava-pés estariam vestindo duas túnicas ou vestes sendo que a primeira estaria
manchada, suja (com tinta ou outro material). No momento em que lava os pés, o(a)
ministro(a) ou o sacerdote, tira aquela veste suja ficando somente a veste
branca. Com isso se faz a comunidade a refletir de que só é possível superar a
violência quando se serve e se deixa ser servido evocando o Amor como forma
plena de servir, pois este é o tema central da Liturgia deste dia. Eis aqui um
dos pontos que se pode refletir na atualização da Palavra.
Finalizando esta celebração a Igreja fica vazia. Tiram-se as
toalhas do altar, cobrem-se as imagens, tiram-se as flores e faz-se o translado
do Santíssimo. Seria interessante não fazer o translado para os fundos da
igreja, por exemplo. O melhor é fazer para outro espaço para que esse sinal do
vazio permaneça até o momento da proclamação da Páscoa na celebração da Vigília
Pascal no Sábado Santo. As flores utilizadas para ornamentar esta celebração
podem ladear o Santíssimo. ‘
Durante a noite de quinta feira até às 15h de sexta feira se
faz a experiência da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras quando ele fica em vigília,
é preso e condenado. É o momento de velar com Jesus e depositar ali todas as angústias
e tristezas. Durante o momento da adoração é importante mais silêncio do que
fala.
Ao chegar às 15h da Sexta Feira Santa tem-se o segundo
momento da celebração do Tríduo Pascal: páscoa da cruz. Segundo Buyst (2002, p. 70), “neste dia fizemos memória da Paixão e morte de Jesus. No centro da nossa atenção está a cruz”.a A cruz é
sinal de dor e sofrimento. Neste ano a dor que somos chamados a olhar e
refletir é a dor provocada pela violência. Mulheres espancadas pelos maridos. Crianças
vitimadas por tantas realidades. Pessoas agonizando vitimas de ações violentas
dos governantes para com a sociedade. Olhares tristes e massacrados pela exclusão
social. Jovens e famílias de corações partidos por causa do uso de entorpecentes
e outras formas. Enfim, corpos quebrados pela dor da violência física, verbal e
cibernética.
Este dia é um dia de luto e de dor, mas não um dia de
tristeza. É um dia de olhar para quais situações de cruz nós ajudamos a
construir. É um dia de perceber que a cruz faz parte da nossa caminhada cristã
e existencial, mas não é eterna. É um dia de poder perceber que precisamos
passar pela cruz para chegar a Ressurreição, isto é, passar pelas tribulações
para alcançar o Amor.
O espaço sagrado, vazio e despojado, nos leva a entender de
que precisamos nos despojar de tudo aquilo que atrapalha a vida comunitária,
pessoal, social, familiar e laboral. É o momento de nos esvaziarmos e deixar o
Amor tomar conta do nosso coração, pois o ato litúrgico da Celebração da Paixão
representa o grande ato de Amor de Jesus que se faz pequeno, frágil e incapaz
para se tornar Grande na Nova Criação e salvar a humanidade toda.
Evite-se, neste dia, qualquer tipo de Sacramento, exceto em ocasiões
especiais que necessitem do atendimento sacerdotal, como por exemplo, pessoas
em perigo de morte, ou circunstâncias pastorais especiais.
Nesta celebração são quatro grandes momentos: Liturgia da
Palavra, Adoração da Cruz e Comunhão. Na Liturgia da Palavra tem-se o cântico do
servo sofredor (1ª Leitura), a súplica de Jesus para que Deus não o abandone (Salmo),
a exaltação da cruz (2ª Leitura), o relato da paixão (Evangelho), e a Oração
Universal (proclamada da Mesa da Palavra por fazer parte da Liturgia da
Palavra). A adoração da cruz nos leva a venerar o crucificado que está sem
vida. Ele se doou até a última gota de sangue para que a humanidade pudesse
experimentar a vida nova renascida do lado aberto de Jesus (cf Jo 19,34). A comunhão,
feita na simplicidade do vazio, é o sinal da presença de Jesus sacramentado no
seio da comunidade que faz memória da sua entrega. A cor litúrgica para este
dia é o vermelho.
Nem no início e nem no final da celebração tem o sinal da
cruz. A procissão de entrada entra em silêncio e o presidente prostra-se diante
do altar, ladeado pelos leitores, ministros e salmistas. No final da celebração
todos se retiram em silêncio após oração sem final sem a benção final. Por quê?
Porque ainda estamos dentro da grande celebração do Tríduo Pascal e a celebração
da Paixão é o segundo momento. Terminado este momento, aguarda-se ainda em
silêncio orante o início da celebração da grande vigília, a Vigília Pascal, mãe
de todas as celebrações.
A celebração da Vigília Pascal, segundo Martín (2006, p.
350), “é essencialmente uma celebração ampla da Palavra de Deus que termina com
a eucaristia”. Alguns elementos chave dessa celebração: fogo, água, batismo e Palavra
de Deus.
A celebração inicia fora da Igreja. É a celebração do
plenilúnio, isto é, da lua cheia. Sempre nesta semana tem a lua cheia, sinal da
plenitude da luz. Antes de iniciar a celebração com a benção do fogo seria
interessante fazer uma serenata ao redor da fogueira com cantigas populares,
como por exemplo, “luar do sertão”, para dizer que este dia é um dia de alegria
e de glória. É o dia em que a vida vence a morte. É o dia em que Senhor
reservou a grande revelação do seu Filho amado, o Cristo Ressuscitado, a nova
Criação. Quando chegamos a um local e sentimos que o mesmo está alegre isso nos
torna alegres mesmo que não estejamos tão alegres. Este é o sentido principal
desta celebração, a alegria. Quão lindo não é ver as pessoas chegando e serem
acolhidas com lindas cantorias. É a vida presente neste espaço.
Com a benção do fogo novo, nova luz se irradia para toda a
comunidade. É a luz do Ressuscitado que vai invadindo o espaço sagrado e,
sobretudo, o coração humano. É hora de cantar o Exulte proclamando a Páscoa do
Senhor. A vida que venceu a morte. Depois é o momento de escutar a Palavra de
Deus que conta toda a história da Salvação por meio das leituras, salmos e Evangelho.
Durante o hino de louvor pode se levar as flores para ornamentar a cruz que a
partir de agora é símbolo de vida e também os arranjos que irão compor a
ornamentação do espaço sagrado. Na partilha da palavra destacar as luzes da comunidade.
Ações que são luzes do Ressuscitado no seio da comunidade reunida. É o dia de
proclamar a claridade e não as trevas. Depois da palavra proclamada e refletida
é o momento de reviver as promessas batismais e os novos batismos, caso haja,
invocando a presença de todos os santos e santas de Deus, de ontem e de hoje,
que nos antecederam no Reino dos céus no testemunho do seguimento a Jesus
Cristo e da vivência do Batismo. É o canto entoado do banho em Cristo
Ressuscitado que nos torna uma nova criatura, pois as coisas que eram antigas
já se passaram e o novo nascimento surgiu para nos tornar novas criaturas. E,
por fim, a grande prece Eucarística numa solene ação de graças ao Ressuscitado
que não mais está morto, mas entre nós. A grande memória da vida-luz que surge
das trevas-morte.
É dia de festa e de alegria, como diz a canção. Um momento
lindo seria a comunidade se organizar para depois da celebração fazer uma
confraternização e partilha de alimentos simbolizando a vida nova partilhada no
seio da comunidade que se alegra pela Ressurreição de Jesus, assim como os discípulos
de Emaús (cf Lc 23).
E assim, com a celebração do primeiro domingo da páscoa ou
domingo da ressurreição, acontece a ligação entre o Tríduo Pascal e o Tempo
Pascal. Essa é uma celebração igualmente importante para todos. Assim, a grande
centralidade do Tempo Pascal, que se estende por cinquenta dias, é a experiência
do Ressuscitado em comunidade.
Para concluir vale ressaltar que o Tríduo Pascal é uma única
celebração. Sendo assim, celebrá-lo “quebrado” destitui-se o seu sentido teológico.
Portanto, se se optar por fazer uma das celebrações do Tríduo pascal nas
comunidades, que sejam feitas todas ou nenhuma, salvo em circunstâncias
pastorais especiais.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém. 3 Ed. São Paulo:
Paulus, 2004.
MARTÍN, Julina López. A liturgia
da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. Trad. Antônio Efro Feltrin. São Paulo:
Paulinas, 2006.
MARSILI, Salvatore. Sinais do
Mistério de Cristo: Teologia litúrgica dos Sacramentos, espiritualidade e Ano
Litúrgico. Tradução: José Afonso Beraldin da Silva. São Paulo: Paulinas,
2009.
[1]
Utilizo este termo para designar os vários movimentos que pregam mais o demônio
a Jesus Cristo. Este tipo de atitude cria um vício litúrgico nas pessoas de que
elas precisam tirar o demônio existe em suas vidas para alcançar a glória, o
livramento, etc. Por trás de tudo isso está o inconsciente da fé, isto é, vai a
comunidade para pedir a ausência do mal, mesmo que ele não exista no momento, e
se esquece de agradecer pelo amor que rega a vida familiar, comunitária e
laboral.


