sábado, 2 de junho de 2018

QUANDO EU OLHO PARA O CÉU, OLHO TAMBÉM PARA A TERRA


A Igreja celebra o 9º Domingo do Tempo Comum. O Tempo Comum é o tempo em que somos chamados a olhar para os ensinamentos de Jesus e sua atuação junto ao povo sofrido e excluído do seu tempo, por causa de um poder opressor que visava mais a lei que a vida humana.

Neste Domingo, a antífona da entrada conclama: “Olhai para mim, Senhor, e tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz. Vede minha miséria e minha dor e perdoai todos os meus pecados”[1].  A Oração da coleta dirige uma súplica a Deus: “[...] afastai de nós o que é nocivo, e concedei-nos tudo o que for útil. [...]”[2]. A oração final ou Depois da comunhão, dividida em duas partes, na primeira suplica a Deus que o seu povo, nós, sejamos governados pelo seu Espírito agora que nutridos pelo Corpo e Sangue do Filho. Na segunda parte, é uma súplica importante para a missão. Assim diz: “Dai-nos proclamar nossa fé não somente em palavras, mas também na verdade de nossas ações para que mereçamos entrar no reino dos céus”[3].

O Evangelho (Mt 2,23-3,6) mostra a ação de Jesus em favor da vida. Ao ser visto arrancando espigas recebe dos fariseus o seguinte comentário: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” (2,24). Depois de chamar a atenção deles e citar o exemplo de Davi, Jesus os repreende dizendo: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (2,27). Ao curar o homem da mão seca, Jesus aponta para o que deve ser feito: chama o homem para o meio e questiona: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (3,4). Depois disso, libertou o homem do seu mal. Os fariseus, com os olhos fechados na lei, tentavam tramar contra Jesus.

A Primeira Leitura (Dt 5, 12-15), chama a atenção e orienta o povo de Deus para a importância do dia de descanso e, nesse dia, cuidar da fé, pois é o Dia do Senhor, dia de fazer memoria da ação libertadora de Deus. O salmo de resposta (80/81) aponta para um cântico que permite o humano abraçar a fé por meio de nossa força que exulta no Senhor. A Segunda Leitura (2Cor 4, 6-11), Paulo testemunha as tribulações sofridas, mas a presença de Jesus que dá força para enfrenta-las e vencê-las.

Pois bem, atualizando esta Palavra e o mistério celebrado neste dia do Senhor, é necessário olhar para a realidade e perceber quais os sinais que a Liturgia de hoje nos impele para vivenciarmos no nosso dia a dia. Quando a antífona da entrada pede que se afaste de nós tudo o que é nocivo, quando o Evangelho convida para direcionar o olhar à vida humana, quando a Primeira Leitura convoca para guardar o Dia do Senhor, estão interpelando a nós cristãos para unir fé e vida e, sobretudo, valorizar aqueles e aquelas que estão sofrendo às margens da sociedade por causa de um poder opressor que visa à saúde financeira e não a saúde humana e o respeito pela valorização da fé.

Que atitude devemos ter enquanto seres humanos presentes numa comunidade cristã? No mínimo atitudes que afastam a opressão e agreguem a acolhida, o perdão e o respeito. O que adianta ir à comunidade pedir que Deus afaste de nós o que é nocivo se depois que sair da igreja pedir a intervenção militar? O que adiante pedir ser governado pelo Espírito de Deus se lá fora é a favor do armamento? O que adianta ouvir com atenção e piedade a Liturgia da Palavra se depois se fecha para os necessitados e não abre o coração para o amor de Deus pensando só em si?  O que adianta pedir vigor para proclamar a fé em palavras e ações se no dia a dia não consegue vislumbrar ao lado o irmão que passa por necessidade?

Chega de cristão que olham para o céu pensando que Deus está somente lá. Chega de cristãos que suplicam por um coração adorador olhando somente para o alto. O verdadeiro coração adorador é aquele que, como Jesus, prima pelo bem estar do ser humano. A Eucaristia não é alimento para ficar guardado no coração, mas é alimento para ser vivenciado no dia a dia com atitudes que exprimam amor e fraternidade. Panos, ornamentos, igrejas luxuosas não estão no coração do povo sofredor. Se somos Igreja de Jesus Cristo precisamos ser Igreja simples e de coração humilde para saber valorizar o outro, em suas diferenças, acolhendo-o e promovendo-o a vida, convidando-o para vir ao meio, fazer parte da comunidade. 

Portanto, precisamos de uma Igreja, e aqui entende-se cristãs e cristãos, que ao olhar para o céu, saiba também olhar para a terra, pois a verdadeira missão está no viver a liturgia vivencial e não só a liturgia ritual, pois o rito nos fortalece para a vivência.  


[1] Missal Dominical. 10ª Ed. São Paulo, Paulus, 2011, p. 920.  
[2] Idem.
[3] Idem, p. 924.