quarta-feira, 2 de setembro de 2015

PALAVRA DE DEUS I

O mês do setembro a cada ano nos convida a uma reflexão a partir de um tema e de livro da Bíblia. Este ano o tema é: discípulos missionários a partir do Evangelho de João. E, consequentemente, o livro é o Evangelho de Jesus Cristo, escrito pela comunidade de João.


Para começar esta conversa, uma visão geral do Evangelho de João. O texto que segue é um texto didático e foi escrito pelo Frei Ildo Perondi, OFM, cuja experiência está na nota de roda pé.


Durante este mês de setembro, semanalmente, estarei postando alguma reflexão, aprofundo um dos temas do texto que segue, tentando fazer a ligação com os temas dos encontros propostos pela CNBB. Forte abraço e boa leitura.

EVANGELHO DE JOÃO

Frei Ildo Perondi[1]

O símbolo de João é a águia, que “voa mais alto para ver melhor”. João não se limita a leis e fatos. É um Evangelho de uma grande espiritualidade, o que não significa que seja um evangelho “espiritualista” ou desencarnado. Ao contrário, ele é também muito histórico. Foi escrito no chão da vida de comunidades que buscavam viver a proposta de Jesus. Por isso, o Quarto Evangelho é fruto da comunidade, se existe vida existe uma comunidade, onde esta vida procura florescer e dar frutos.
Uma figura importante do Evangelho é o “Discípulo Amado”. O verbo Amar é importante no Evangelho de João, porque aparece muitas vezes, e porque João afirma que Jesus amou e “amou-os até o fim” (Jo 13,1), até o ponto de dar a vida pelos seus.
A “palavra chave” do Evangelho de João é VIDA. E, por isso, a frase mais importante está em João 10,10: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância” (este é o resumo de todo o Evangelho).

1.     ESQUEMA DESCENDENTE E ASCENDENTE DO PRÓLOGO (Jo 1,1-18)

Verbo = Deus (1-2)                                                                         Verbo = Deus (18)
      Criação (3)                                                                  Nova Criação (17)
          Humanidade (4-5)                                               Dom (16)
                     Batista (6-8)                                          Batista (15)
                            Encarnação (9)                        Encarnação (13-14)
                        Não receberam (9-11)     Receberam (12)


2.     JOÃO E OS SINÓTICOS

O Evangelho de João é diferente dos outros três (Sinóticos). João dá uma interpretação mais profunda da vida de Jesus. Exemplo: no milagre do cego de nascença, quando Jesus lhe devolveu a vista (9,1-41). João se pergunta: por que Jesus fez isso? A resposta é: Jesus queria mostrar que veio trazer a luz para a Humanidade. Ele é a luz do mundo. Foi o mesmo Jesus quem falou e provou isso.
O mesmo sucedeu com a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-54). João quer mostrar que Jesus veio para trazer a vida.
João nos ensina como devemos ler os outros três Evangelhos. Não devemos ficar só na superfície das coisas, mas penetrar dentro delas para compreender aquilo que a mensagem quer dizer: ir dentro dos fatos, interpretá-los...
O símbolo de João é a águia. A águia voa alto, para ver melhor, como diz o provérbio “águas paradas são fundas”. Por exemplo, a descendência de Jesus varia e vai mais distante quanto mais tarde se escreve:
·  Marcos: Jesus aparece no Batismo e anunciando o Reino (Mc 1,9.15); -
·  Mateus: Jesus é descendente de Abraão (Mt 1,1ss);
·  Lucas: Jesus vem de Adão (Lc 3,23-38);
·  João: Jesus está no princípio da vida (Jo 1,1).
Este “no princípio” que encontramos no Evangelho de João, é o mesmo da primeira frase da Bíblia (Gn 1,1). Jesus vêm inaugurar a Nova Criação e Ele pode fazer isso, pois estava presente na primeira Criação.
No Evangelho de João, a primeira semana é muito importante. O Evangelho inicia com uma semana simbólica, onde temos o testemunho de João Batista e a adesão dos primeiros discípulos e a semana tem seu ponto alto no sexto dia (o casamento em Cana da Galileia).
Algumas diferenças entre João e os Sinóticos:
·  João não usa a expressão “Reino de Deus (ou dos Céus)”. Somente duas vezes e sempre no sentido escatológico. João prefere usar a palavra “Vida” como símbolo do projeto de Jesus.
·  João usa a palavra “Sinais” e não “Milagres”; “comparações” e não “parábolas”.
·  A purificação do templo em João aparece no começo do Evangelho (Jo 2,13-22) e não no fim como nos Evangelhos Sinóticos (Mt 21,12-13; Mc 11,11.15-17; Lc 19,45-46).
·  Ao contrário dos Evangelhos Sinóticos, em João os Samaritanos são bem vistos.
·  “Judeus” representam o judaísmo oficial; “mundo” representa os romanos. Cuidado com esses dois grupos. “Mundo” pode representar também aqueles que não creem em Jesus.

3.     A COMUNIDADE DO EVANGELHO DE JOÃO

A comunidade onde João vive e para quem escreve o Evangelho, é uma comunidade que está levando a sério a vida cristã e a proposta de Jesus. É uma comunidade que está sendo perseguida (época do Apocalipse). Existe o conflito com os judeus (nesta época o cristianismo já foi expulso das sinagogas).
É uma comunidade que vive o amor. Comunidade de irmãos e amigos. “Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15). A relação é de igualdade. Não é a relação de “Senhor x servo”; mas pessoa x Deus. Não é pai x filho, mas um Deus paternal. Amigo x Amigo.
Não há discriminação na comunidade. Existe a assembleia, onde todos devem ser iguais. Exemplo disso é o texto de Jo 15. Jesus é a videira e todos são os ramos. Os ramos são iguais.
A comunidade deve ser “Testemunha”. Quem escreve é o “Discípulo Amado” que deu testemunho dessas coisas e que as escreveu. Mas a comunidade também deve confirmar: “E nós sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21,24).

4.     A “HORA DE JESUS”

João nos conduz à “hora” de Jesus em duas etapas. Na primeira, ele narra os “sinais” que Jesus fazia e que demonstravam, para quem estava disposto a crer, que Jesus é o Enviado do Pai (cap. 1-12). “Minha hora ainda não chegou” (2,4)...
Na segunda etapa, ele descreve a “hora” de Jesus, quando Jesus mostra a glória de Deus, o rosto do Pai, indo até o fim da sua missão (cap. 13-20). “Pai, é chegada a hora” (16,2); “Vem a hora, e já chegou” (16,32). A palavra “hora” aparece 26 vezes neste Evangelho.

5.     OS CONTRASTES

- do lado de Deus                             - do lado oposto; do outro lado
- Deus                                               - mundo (romanos ou o judaísmo)
- “de cima”; “do alto”                         - “de baixo”; “daqui”
- celeste; eterno                               - terreno; perecível
- espírito                                           - carne
- luz                                                  - trevas
- vida                                                - morte
- verdade; fidelidade                        - mentira; incredulidade
- liberdade                                       - escravidão

6.     TRÊS FIGURAS IMPORTANTES EM JOÃO

1) Jo 3,1-21 - Nicodemos: símbolo do novo povo de Deus; / ou dos que tem medo (noite);
2) Jo 9,1-41 - O Cego de Nascença: simboliza a comunidade que não tomou consciência de sua situação de cegueira. Mostra o conflito com aqueles que mantém o povo na “escuridão”;
3) Jo 11,1-57 - A ressurreição de Lázaro: A vida plena da ressurreição já está presente naqueles que pertencem à comunidade de Jesus.

7.     AS FESTAS (VAZIAS) DOS JUDEUS E A FESTA DA VIDA:

·  2,13 – Páscoa
·  5,1 – Não definida
·  6,4 – Páscoa
·  7,2 – Festa das Tendas
·  10,22 – Dedicação
·  11,55 – Páscoa
·  20 – Ressurreição. É verdadeira festa. As demais são “frias” e já sem sentido.

8.     OS 7 SINAIS: EXISTE JESUS TRAZ

1.    2,1-11 – Bodas de Caná falta de “vinho” – Amor
2.    4,46-54 – Cura do filho do funcionário doença – Saúde
3.    5,1-18 – Cura do paralítico abandono / exclusão – Solidariedade
4.    6,1-15 – Multiplicação dos pães fome – Partilha
5.    6,16-21 – Jesus caminha sobre as águas medo – Confiança
6.    9,1-41 – Cura do cego cegueira - Luz / Visão
7.    11,1-44 – Ressurreição de Lázaro morte - Vida

8.   O DISCÍPULO AMADO:

·  13,23-26 – Na última Ceia
·  19,26-27 – Aos pés das cruz
·  20,2-10 – Na Ressurreição
·  21,7.20.24 – No mar da Galiléia depois da Ressurreição
·  1,35; 18,15 – Discípulo anônimo
Mas, quem é este “Discípulo Amado”? Várias hipóteses são propostas: o Apóstolo João, o autor do Evangelho, Lázaro, Maria Madalena, a comunidade...

9.   AS MULHERES EM JOÃO:

O papel desempenhado pelas Mulheres em João é muito especial (Jo 2,1-12; 4,1-42; 11,1-44; 12,1-11; 16,20-22; 19,25,27; 20,11-18). Isso leva a crer que as mulheres tinham uma função muito importante na comunidade e também nas liturgias. Maria aparece duas vezes somente neste Evangelho. No começo (Jo 2,1) e aos pés da cruz (Jo 19,25).
Jo 4,1-1-42: A Samaritana é levada a perceber que Jesus é o Cristo. Os samaritanos crêem por causa da mulher e em sua oração. A samaritana se torna missionária (4,39).
Jo 11,5 nos diz que Jesus amava Marta, Maria e Lázaro. Em Jo 20,16, Maria Madalena reconhece Jesus quando a chama pelo nome. E em João são as mulheres que vão primeiro ao sepulcro ainda de madrugada (Jo 20,1). Maria Madalena vê o próprio Jesus e vai anunciar aos discípulos (20,18). Torna-se “testemunha” da ressurreição.

10.   JESUS É O “NOVO MOISÉS”

É interessante ver como no Evangelho a figura de Jesus é apresentada como sendo um novo Moisés. Já segundo Dt 18,15.18-19 havia a promessa que Deus enviaria um Profeta maior que Moisés. Em Jesus se cumpre esta promessa. Ele é o profeta por excelência (Jo 6,14; 7,40.52). Da mesma forma como Moisés trouxe os 10 Mandamentos, Jesus traz o Mandamento novo: o Amor e pede que nos amemos uns aos outros como ele nos amou (Jo 13,34-35; 15,12-17). A Moisés Deus havia revelado seu Nome: “Eu Sou” (Ex 3,14). Jesus assume este Nome (veja abaixo) e revela ainda o rosto divino de Deus que é também Pai (Jo 17,1.11.24-25). Por isso, diante de Deus nós devemos agir e obedecer, não como escravos, mas como amigos (Jo 15,15; 8,34-36). Assim como Deus agiu através de Moisés, Jesus também realiza os sinais para mostrar que sua obra é de Deus.

11.   “EU SOU”

Jesus, que também era hebreu, utilizou para si o mesmo verbo com o qual Deus se manifestou em Ex 3,13-14. É importante analisar esta expressão no Evangelho de João. O evangelista conhece a fundo o AT, conhece a cultura e a religião hebraica. Por isso, neste Evangelho, é interessante ver como o verbo “ser” é muito freqüente. E nos interessa muito que em João por três vezes1 (número da unidade) Jesus utiliza para si a expressão “EU SOU” sem que tenha algum complemento (Jo 8,24.28; 8,58; 13,19)2.
1 Consideramos Jo 8,24 e depois 8,28 uma única vez, pois é uma repetição dentro do mesmo contexto.
2 No Evangelho de João aparece ainda várias vezes a expressão “Sou eu” (Jo 4,26; 6,20; 7,28; 8,16; 9,9; etc), mas não no sentido forte como nesses três casos. 
Outra constatação importante é que quando Jesus usa o complemento ao verbo, o faz por sete vezes. Ou seja por sete vezes (o número perfeito) Jesus diz o que Ele é!
1) Eu sou o Pão da Vida (6,36.41.48.51); 2) Eu sou a Luz do mundo (8,12; 9,5); 3) Eu sou a Porta (Jo 10,7.9.11.14); 4) Eu sou o Bom Pastor (Jo 10,11.14); 5) Eu sou a Ressurreição e a Vida (Jo 11,25); 6) Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6); 7) Eu sou a Videira Verdadeira (15,1.5).

12.   OUTRAS “PALAVRAS-CHAVES” EM JOÃO:

a) O “Testemunho”, vem do grego: marturia. Importante ver quem é que dá Testemunho e de quem é que dá “Testemunho”. b) No Evangelho de João existe uma “procura”, um “encontrar”. Sublinhe estas palavras. c) O verbo “entregar” é significativo: quem entrega o que, quem... d) O “Julgamento” é importante em João. e) Os verbos “crer e acreditar” são muito freqüentes e muito bem empregados. f) A “glória” de Jesus e todas as expressões do verbo “glorificar”. g) O Verbo “amar” e o substantivo “amor” aparecem tantas vezes! h) Verbos: “conhecer”, “ver”, “permanecer”... i) A “vida eterna”.
13.   DIVISÃO DO EVANGELHO

Prólogo: 1,1-18
I PARTE: O Livro dos Sinais: 1,19–12,50
II PARTE: O Grande Sinal: 13,1–20,29
Epílogos: 20,30–21,25

15. O “MUNDO”

A palavra “mundo” no Evangelho de João tem um sentido especial. Significa quem é contra Jesus. Podem ser os chefes dos judeus, os romanos ou aqueles que não crêem. Em geral é negativa (6 vezes em Jo 15,18-19; 18 vezes em Jo 17).

16. AUTOR

É muito difícil encontrar uma afirmação segura sobre quem seria o autor deste Evangelho. As tradições mais antigas e Irineu de Lião afirmam ser o Apóstolo João, daí também provém o nome. Mas durante a história encontramos mais de vinte hipóteses, inclusive Lázaro, Maria Madalena...
Outra possibilidade seria que o Evangelho tenha sido escrito em várias etapas e depois alguém tenha feito a redação final. Para o povo das nossas comunidades o mais importante é o texto do Evangelho, que é tão bonito e profundo, e saber que foi escrito por um “discípulo amado de Jesus”! Nunca vamos saber ao certo quem foi seu autor.


[1] Frei Ildo Perondi é Frei Capuchinho da Província São Lourenço de Brindes, do Paraná, Santa Catarina e Paraguai. Formado em Teologia Bíblica em Roma. Atua dando cursos bíblicos e é professor universitário da PUC Londrina e de outros Institutos Teológicos.