O mês do setembro a cada ano nos convida a uma reflexão a
partir de um tema e de livro da Bíblia. Este ano o tema é: discípulos missionários
a partir do Evangelho de João. E, consequentemente, o livro é o Evangelho de
Jesus Cristo, escrito pela comunidade de João.
Para começar esta conversa, uma visão geral do Evangelho de
João. O texto que segue é um texto didático e foi escrito pelo Frei Ildo
Perondi, OFM, cuja experiência está na nota de roda pé.
Durante este mês de setembro, semanalmente, estarei postando
alguma reflexão, aprofundo um dos temas do texto que segue, tentando fazer a
ligação com os temas dos encontros propostos pela CNBB. Forte abraço e boa
leitura.
EVANGELHO DE
JOÃO
Frei Ildo
Perondi[1]
O símbolo de
João é a águia, que “voa mais alto para ver melhor”. João não se limita a leis
e fatos. É um Evangelho de uma grande espiritualidade, o que não significa que
seja um evangelho “espiritualista” ou desencarnado. Ao contrário, ele é também
muito histórico. Foi escrito no chão da vida de comunidades que buscavam viver
a proposta de Jesus. Por isso, o Quarto Evangelho é fruto da comunidade, se
existe vida existe uma comunidade, onde esta vida procura florescer e dar
frutos.
Uma figura
importante do Evangelho é o “Discípulo Amado”. O verbo Amar é importante no
Evangelho de João, porque aparece muitas vezes, e porque João afirma que Jesus
amou e “amou-os até o fim” (Jo 13,1), até o ponto de dar a vida pelos seus.
A “palavra
chave” do Evangelho de João é VIDA. E, por isso, a frase mais importante está
em João 10,10: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância” (este
é o resumo de todo o Evangelho).
1. ESQUEMA
DESCENDENTE E ASCENDENTE DO PRÓLOGO (Jo 1,1-18)
Verbo = Deus
(1-2) Verbo
= Deus (18)
Criação (3) Nova
Criação (17)
Humanidade (4-5) Dom
(16)
Batista (6-8) Batista
(15)
Encarnação (9) Encarnação (13-14)
Não receberam (9-11) Receberam (12)
2. JOÃO E OS SINÓTICOS
O Evangelho de
João é diferente dos outros três (Sinóticos). João dá uma interpretação mais
profunda da vida de Jesus. Exemplo: no milagre do cego de nascença, quando
Jesus lhe devolveu a vista (9,1-41). João se pergunta: por que Jesus fez isso?
A resposta é: Jesus queria mostrar que veio trazer a luz para a Humanidade. Ele
é a luz do mundo. Foi o mesmo Jesus quem falou e provou isso.
O mesmo
sucedeu com a ressurreição de Lázaro (Jo 11,1-54). João quer mostrar que Jesus
veio para trazer a vida.
João nos
ensina como devemos ler os outros três Evangelhos. Não devemos ficar só na
superfície das coisas, mas penetrar dentro delas para compreender aquilo que a
mensagem quer dizer: ir dentro dos fatos, interpretá-los...
O símbolo de
João é a águia. A águia voa alto, para ver melhor, como diz o provérbio “águas
paradas são fundas”. Por exemplo, a descendência de Jesus varia e vai mais
distante quanto mais tarde se escreve:
·
Marcos: Jesus aparece
no Batismo e anunciando o Reino (Mc 1,9.15); -
·
Mateus: Jesus é descendente
de Abraão (Mt 1,1ss);
·
Lucas: Jesus vem de
Adão (Lc 3,23-38);
·
João: Jesus está no
princípio da vida (Jo 1,1).
Este “no
princípio” que encontramos no Evangelho de João, é o mesmo da primeira frase da
Bíblia (Gn 1,1). Jesus vêm inaugurar a Nova Criação e Ele pode fazer isso, pois
estava presente na primeira Criação.
No Evangelho
de João, a primeira semana é muito importante. O Evangelho inicia com uma
semana simbólica, onde temos o testemunho de João Batista e a adesão dos
primeiros discípulos e a semana tem seu ponto alto no sexto dia (o casamento em
Cana da Galileia).
Algumas
diferenças entre João e os Sinóticos:
·
João não usa a expressão “Reino de Deus (ou dos
Céus)”. Somente duas vezes e sempre no sentido escatológico. João prefere usar
a palavra “Vida” como símbolo do projeto de Jesus.
·
João usa a palavra “Sinais” e não “Milagres”; “comparações”
e não “parábolas”.
·
A purificação do templo em João aparece no começo
do Evangelho (Jo 2,13-22) e não no fim como nos Evangelhos Sinóticos (Mt
21,12-13; Mc 11,11.15-17; Lc 19,45-46).
·
Ao contrário dos Evangelhos Sinóticos, em João os
Samaritanos são bem vistos.
·
“Judeus” representam o judaísmo oficial; “mundo”
representa os romanos. Cuidado com esses dois grupos. “Mundo” pode representar
também aqueles que não creem em Jesus.
3. A COMUNIDADE
DO EVANGELHO DE JOÃO
A comunidade
onde João vive e para quem escreve o Evangelho, é uma comunidade que está
levando a sério a vida cristã e a proposta de Jesus. É uma comunidade que está
sendo perseguida (época do Apocalipse). Existe o conflito com os judeus (nesta
época o cristianismo já foi expulso das sinagogas).
É uma
comunidade que vive o amor. Comunidade de irmãos e amigos. “Eu vos chamo
amigos” (Jo 15,15). A relação é de igualdade. Não é a relação de “Senhor x
servo”; mas pessoa x Deus. Não é pai x filho, mas um Deus paternal. Amigo x
Amigo.
Não há
discriminação na comunidade. Existe a assembleia, onde todos devem ser iguais.
Exemplo disso é o texto de Jo 15. Jesus é a videira e todos são os ramos. Os
ramos são iguais.
A comunidade
deve ser “Testemunha”. Quem escreve é o “Discípulo Amado” que deu testemunho
dessas coisas e que as escreveu. Mas a comunidade também deve confirmar: “E nós
sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21,24).
4. A “HORA DE
JESUS”
João nos
conduz à “hora” de Jesus em duas etapas. Na primeira, ele narra os “sinais” que
Jesus fazia e que demonstravam, para quem estava disposto a crer, que Jesus é o
Enviado do Pai (cap. 1-12). “Minha hora ainda não chegou” (2,4)...
Na segunda
etapa, ele descreve a “hora” de Jesus, quando Jesus mostra a glória de Deus, o
rosto do Pai, indo até o fim da sua missão (cap. 13-20). “Pai, é chegada a
hora” (16,2); “Vem a hora, e já chegou” (16,32). A palavra “hora” aparece 26
vezes neste Evangelho.
5. OS CONTRASTES
- do lado de
Deus - do
lado oposto; do outro lado
- Deus -
mundo (romanos ou o judaísmo)
- “de cima”;
“do alto” - “de baixo”; “daqui”
- celeste;
eterno -
terreno; perecível
- espírito -
carne
- luz -
trevas
- vida - morte
- verdade;
fidelidade -
mentira; incredulidade
- liberdade -
escravidão
6. TRÊS FIGURAS
IMPORTANTES EM JOÃO
1) Jo 3,1-21 -
Nicodemos: símbolo do novo povo de Deus; / ou dos que tem medo (noite);
2) Jo 9,1-41 -
O Cego de Nascença: simboliza a comunidade que não tomou consciência de sua
situação de cegueira. Mostra o conflito com aqueles que mantém o povo na
“escuridão”;
3) Jo 11,1-57
- A ressurreição de Lázaro: A vida plena da ressurreição já está presente
naqueles que pertencem à comunidade de Jesus.
7. AS FESTAS
(VAZIAS) DOS JUDEUS E A FESTA DA VIDA:
·
2,13 – Páscoa
·
5,1 – Não definida
·
6,4 – Páscoa
·
7,2 – Festa das Tendas
·
10,22 – Dedicação
·
11,55 – Páscoa
·
20 – Ressurreição. É verdadeira festa. As demais
são “frias” e já sem sentido.
8. OS 7 SINAIS:
EXISTE JESUS TRAZ
1. 2,1-11 – Bodas
de Caná falta de “vinho” – Amor
2. 4,46-54 – Cura
do filho do funcionário doença – Saúde
3. 5,1-18 – Cura
do paralítico abandono / exclusão – Solidariedade
4. 6,1-15 –
Multiplicação dos pães fome – Partilha
5. 6,16-21 – Jesus
caminha sobre as águas medo – Confiança
6. 9,1-41 – Cura
do cego cegueira - Luz / Visão
7. 11,1-44 –
Ressurreição de Lázaro morte - Vida
8. O DISCÍPULO
AMADO:
·
13,23-26 – Na última Ceia
·
19,26-27 – Aos pés das cruz
·
20,2-10 – Na Ressurreição
·
21,7.20.24 – No mar da Galiléia depois da
Ressurreição
·
1,35; 18,15 – Discípulo anônimo
Mas, quem é
este “Discípulo Amado”? Várias hipóteses são propostas: o Apóstolo João, o
autor do Evangelho, Lázaro, Maria Madalena, a comunidade...
9. AS MULHERES EM
JOÃO:
O papel
desempenhado pelas Mulheres em João é muito especial (Jo 2,1-12; 4,1-42;
11,1-44; 12,1-11; 16,20-22; 19,25,27; 20,11-18). Isso leva a crer que as
mulheres tinham uma função muito importante na comunidade e também nas
liturgias. Maria aparece duas vezes somente neste Evangelho. No começo (Jo 2,1)
e aos pés da cruz (Jo 19,25).
Jo 4,1-1-42: A
Samaritana é levada a perceber que Jesus é o Cristo. Os samaritanos crêem por
causa da mulher e em sua oração. A samaritana se torna missionária (4,39).
Jo 11,5 nos
diz que Jesus amava Marta, Maria e Lázaro. Em Jo 20,16, Maria Madalena
reconhece Jesus quando a chama pelo nome. E em João são as mulheres que vão
primeiro ao sepulcro ainda de madrugada (Jo 20,1). Maria Madalena vê o próprio
Jesus e vai anunciar aos discípulos (20,18). Torna-se “testemunha” da
ressurreição.
10. JESUS É O
“NOVO MOISÉS”
É interessante
ver como no Evangelho a figura de Jesus é apresentada como sendo um novo
Moisés. Já segundo Dt 18,15.18-19 havia a promessa que Deus enviaria um Profeta
maior que Moisés. Em Jesus se cumpre esta promessa. Ele é o profeta por
excelência (Jo 6,14; 7,40.52). Da mesma forma como Moisés trouxe os 10
Mandamentos, Jesus traz o Mandamento novo: o Amor e pede que nos amemos uns aos
outros como ele nos amou (Jo 13,34-35; 15,12-17). A Moisés Deus havia revelado
seu Nome: “Eu Sou” (Ex 3,14). Jesus assume este Nome (veja abaixo) e revela
ainda o rosto divino de Deus que é também Pai (Jo 17,1.11.24-25). Por isso,
diante de Deus nós devemos agir e obedecer, não como escravos, mas como amigos
(Jo 15,15; 8,34-36). Assim como Deus agiu através de Moisés, Jesus também
realiza os sinais para mostrar que sua obra é de Deus.
11. “EU SOU”
Jesus, que
também era hebreu, utilizou para si o mesmo verbo com o qual Deus se manifestou
em Ex 3,13-14. É importante analisar esta expressão no Evangelho de João. O
evangelista conhece a fundo o AT, conhece a cultura e a religião hebraica. Por
isso, neste Evangelho, é interessante ver como o verbo “ser” é muito freqüente.
E nos interessa muito que em João por três vezes1 (número da unidade) Jesus
utiliza para si a expressão “EU SOU” sem que tenha algum complemento (Jo
8,24.28; 8,58; 13,19)2.
1 Consideramos
Jo 8,24 e depois 8,28 uma única vez, pois é uma repetição dentro do mesmo
contexto.
2 No Evangelho
de João aparece ainda várias vezes a expressão “Sou eu” (Jo 4,26; 6,20; 7,28; 8,16;
9,9; etc), mas não no sentido forte como nesses três casos.
Outra
constatação importante é que quando Jesus usa o complemento ao verbo, o faz por
sete vezes. Ou seja por sete vezes (o número perfeito) Jesus diz o que Ele é!
1) Eu sou o
Pão da Vida (6,36.41.48.51); 2) Eu sou a Luz do mundo (8,12; 9,5); 3) Eu sou a
Porta (Jo 10,7.9.11.14); 4) Eu sou o Bom Pastor (Jo 10,11.14); 5) Eu sou a
Ressurreição e a Vida (Jo 11,25); 6) Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo
14,6); 7) Eu sou a Videira Verdadeira (15,1.5).
12. OUTRAS
“PALAVRAS-CHAVES” EM JOÃO:
a) O
“Testemunho”, vem do grego: marturia. Importante ver quem é que dá Testemunho e
de quem é que dá “Testemunho”. b) No Evangelho de João existe uma “procura”, um
“encontrar”. Sublinhe estas palavras. c) O verbo “entregar” é significativo:
quem entrega o que, quem... d) O “Julgamento” é importante em João. e) Os
verbos “crer e acreditar” são muito freqüentes e muito bem empregados. f) A
“glória” de Jesus e todas as expressões do verbo “glorificar”. g) O Verbo
“amar” e o substantivo “amor” aparecem tantas vezes! h) Verbos: “conhecer”,
“ver”, “permanecer”... i) A “vida eterna”.
13. DIVISÃO DO EVANGELHO
Prólogo:
1,1-18
I PARTE: O
Livro dos Sinais: 1,19–12,50
II PARTE: O
Grande Sinal: 13,1–20,29
Epílogos:
20,30–21,25
15. O “MUNDO”
A palavra
“mundo” no Evangelho de João tem um sentido especial. Significa quem é contra
Jesus. Podem ser os chefes dos judeus, os romanos ou aqueles que não crêem. Em
geral é negativa (6 vezes em Jo 15,18-19; 18 vezes em Jo 17).
16. AUTOR
É muito difícil
encontrar uma afirmação segura sobre quem seria o autor deste Evangelho. As
tradições mais antigas e Irineu de Lião afirmam ser o Apóstolo João, daí também
provém o nome. Mas durante a história encontramos mais de vinte hipóteses,
inclusive Lázaro, Maria Madalena...
Outra
possibilidade seria que o Evangelho tenha sido escrito em várias etapas e
depois alguém tenha feito a redação final. Para o povo das nossas comunidades o
mais importante é o texto do Evangelho, que é tão bonito e profundo, e saber
que foi escrito por um “discípulo amado
de Jesus”! Nunca vamos saber ao certo quem foi seu autor.
[1] Frei Ildo Perondi é Frei Capuchinho da
Província São Lourenço de Brindes, do Paraná, Santa Catarina e Paraguai.
Formado em Teologia Bíblica em Roma. Atua dando cursos bíblicos e é professor
universitário da PUC Londrina e de outros Institutos Teológicos.

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