Edemilton dos
Santos[1]
São tantos os testemunhos e
escritos que se tem sobre o dia do Senhor. Aqui serão apresentados apenas
alguns a título de análise. O ponto de partida apresenta alguns nomes dos
santos padres da Igreja que falam, em suas cartas, sobre o dia do Senhor.
Antes de tudo é preciso ter
em conta que, além das Sagradas Escrituras, os padres tinham como importante
documento a Didaqué, ou seja, o
catecismo dos primeiros cristãos. Tudo indica que tenha sido escrita por volta
dos anos 60-70 d.C. Numa de suas passagens assim se refere ao Domingo:
“Reunam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, [...]” (DIDAQUÉ
14,1). Duas constatações: partir o pão e agradecer. A reunião que exorta o
autor da Didaqué tem por finalidade
fazer memória do acontecimento pascal, onde Jesus deixa o mandato de fazer em
sua memória esse resgate da partilha. Porém ela não acontece sem um
agradecimento. Se pode dizer: partilha e ação de graças são inseparáveis para
os primeiros cristãos.
Imbuídos desse espírito os
Santos Padres exortam os seguidores de Cristo a viverem nessa mesma dinâmica.
Prova disso é a carta que Santo Inácio de Antioquia escreve aos Magnésios. Nela
assim se pronuncia acerca do dia do Senhor: “aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram
à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a
nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte” (Carta aos Magnésios 9,1).[2]
Quando se refere aos que
viviam na antiga ordem se dirige aos que observavam o sábado. Diz ele que a
passagem se deu por meio do alcançar uma nova esperança, isto é, a experiência
da Ressurreição que se deu no Primeiro Dia da semana, agora chamado de o Dia do
Senhor.
Com esse pequeno adendo em
sua carta aos magnésios, Inácio de Antioquia quer orientá-los que a partir de
agora o Primeiro Dia da semana passa a ser o dia da vivência e do encontro em
comunidade.
São Justino vai mais além.
Faz uma bonita reflexão referindo-se ao Dia do Senhor. Retoma a criação e passa
pela Ressurreição até chegar aos seus dias. Assim se expressa:
No
dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas
cidades ou nos campos [...] Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque
foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o
mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos
mortos (APOLOGIA I 67, 3.7)[3]
Estes testemunhos são
importantes para compreender como o Domingo foi se fundamentando cada vez mais,
tornando-se um dia especial para a vida em comunidade. Isso constitui um fator
verídico e a observância era fundamental pois “qualquer homem diminui a Igreja,
por não se reunir a ela, e faz com que falte um membro no Corpo de Cristo”,
cita Ryan na página 16 de seu livro O
Domingo: história, espiritualidade, celebração, referindo-se ao autor da Didascália Apostolorum.
Outro importante testemunho
dessa época sobre o dia do Senhor é de Eusébio de Alexandria. Diz ele:
O
dia santo do Senhor é a comemoração memorial do Salvador. O dia do Senhor é
chamado domingo ("dia dominical", kyriake
hemera) porque é ele o senhor (kyrios)
dos dias. Antes da paixão do Mestre não se chamava dominical, mas primeiro dia.
Neste dia, com efeito, o Senhor estabeleceu o fundamento da criação.
Igualmente, neste dia, Ele deu ao mundo as primícias da ressurreição. Neste
dia... ordenou celebrar os santos mistérios. Este dia é para nós a “fonte (arché) de todo o bem, é o princípio da
criação do mundo, o princípio da ressurreição e o princípio da semana (sermão
16 sobre o dia do Senhor) (ALDAZÁBAL, 2000, p. 78).
Palavras que merecem atenção
especial em se tratando de certa proximidade com o acontecimento da
Ressurreição e a caminhada das primeiras comunidades. Talvez falte hoje esse
retomar dos primórdios do cristianismo, aqui especificamente o domingo, para
que ele tenha novamente essa sobriedade dispensada.
A observância do domingo era
tão importante que, para o povo desse período da história do Cristianismo, “o
princípio de que não há domingo sem eucaristia não era uma medida disciplinar,
era uma convicção profunda e arraigada” (RYAN, 1997, p. 18).
Para o povo dessa época,
participar das celebrações comunitárias era um prazer e uma necessidade vital
que brotava do coração. Pode-se correr o risco de afirmar que a primeira
necessidade do Domingo era participar da comunidade. A liturgia talvez não
estivesse tão estruturada, mas algumas partes específicas já se faziam presente
mostrando a beleza do encontro fraterno na eucaristia celebrada. São Justino
apresenta como era realizado esse rito.
No
dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas
cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias
dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o
presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em
seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de
terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente,
conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças
e todo o povo exclama, dizendo: "Amém". Vem depois a distribuição e participação
feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos
ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um
conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se
entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por
necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos
forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que
se encontram em necessidade. (APOLOGIA I 67, 3-6)[4]
Sendo assim, a beleza do
rito remonta inteiramente ao Mistério Pascal. Essa essência da fé precisa ser
retomada para que não se perca esse fundamento primeiro de nossa fé.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALDAZÁBAL, J.
Domingo, dia do Senhor. In BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja: ritmos e
tempos da celebração. São Paulo: Edições Loyola, 2000, Vol 3, p. 67-91.
DIAQUÉ. O catecismo
dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. 16ª Ed. São Paulo: Paulus,
1989.
RYAN, Vincent. O
domingo: história, espiritualidade, celebração. São Paulo: Paulus, 1997.
Imagem:
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Disponível em: <http://www.comunidadefanuel.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Domingo-Dia-do-Senhor.jpg>.
Acesso em 11 mar de 2017.
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[1]
Professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina, licenciado em Filosofia,
Pós-Graduado em Docência no Ensino Superior e Graduando em Teologia. O trabalho
aqui apresentado foi realizado para a disciplina de Ano Litúrgico e Liturgia
das Horas do curso de Graduação em Teologia da UCDB.
[2] Disponível em http://www.veritatis.com.br/print/141,
acesso em 01 de agosto de 2016.
[3] Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016.
[4] Disponível em
http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016.
N do A: A primeira parte dessa citação já se encontra
citada acima. Não consta, no entanto, uma repetição, mas a necessidade para o
entendimento do contexto geral da citação.