sábado, 11 de março de 2017

A CAMINHADA DO DIA DO SENHOR NOS PRIMEIROS SÉCULOS DO CRISTIANISMO

  
Edemilton dos Santos[1]

São tantos os testemunhos e escritos que se tem sobre o dia do Senhor. Aqui serão apresentados apenas alguns a título de análise. O ponto de partida apresenta alguns nomes dos santos padres da Igreja que falam, em suas cartas, sobre o dia do Senhor.
Antes de tudo é preciso ter em conta que, além das Sagradas Escrituras, os padres tinham como importante documento a Didaqué, ou seja, o catecismo dos primeiros cristãos. Tudo indica que tenha sido escrita por volta dos anos 60-70 d.C. Numa de suas passagens assim se refere ao Domingo: “Reunam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, [...]” (DIDAQUÉ 14,1). Duas constatações: partir o pão e agradecer. A reunião que exorta o autor da Didaqué tem por finalidade fazer memória do acontecimento pascal, onde Jesus deixa o mandato de fazer em sua memória esse resgate da partilha. Porém ela não acontece sem um agradecimento. Se pode dizer: partilha e ação de graças são inseparáveis para os primeiros cristãos.
Imbuídos desse espírito os Santos Padres exortam os seguidores de Cristo a viverem nessa mesma dinâmica. Prova disso é a carta que Santo Inácio de Antioquia escreve aos Magnésios. Nela assim se pronuncia acerca do dia do Senhor:aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte” (Carta aos Magnésios 9,1).[2]       
Quando se refere aos que viviam na antiga ordem se dirige aos que observavam o sábado. Diz ele que a passagem se deu por meio do alcançar uma nova esperança, isto é, a experiência da Ressurreição que se deu no Primeiro Dia da semana, agora chamado de o Dia do Senhor.
Com esse pequeno adendo em sua carta aos magnésios, Inácio de Antioquia quer orientá-los que a partir de agora o Primeiro Dia da semana passa a ser o dia da vivência e do encontro em comunidade.
São Justino vai mais além. Faz uma bonita reflexão referindo-se ao Dia do Senhor. Retoma a criação e passa pela Ressurreição até chegar aos seus dias. Assim se expressa:

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos [...] Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos (APOLOGIA I 67, 3.7)[3]

Estes testemunhos são importantes para compreender como o Domingo foi se fundamentando cada vez mais, tornando-se um dia especial para a vida em comunidade. Isso constitui um fator verídico e a observância era fundamental pois “qualquer homem diminui a Igreja, por não se reunir a ela, e faz com que falte um membro no Corpo de Cristo”, cita Ryan na página 16 de seu livro O Domingo: história, espiritualidade, celebração, referindo-se ao autor da Didascália Apostolorum. 
Outro importante testemunho dessa época sobre o dia do Senhor é de Eusébio de Alexandria. Diz ele:

O dia santo do Senhor é a comemoração memorial do Salvador. O dia do Senhor é chamado domingo ("dia dominical", kyriake hemera) porque é ele o senhor (kyrios) dos dias. Antes da paixão do Mestre não se chamava dominical, mas primeiro dia. Neste dia, com efeito, o Senhor estabeleceu o fundamento da criação. Igualmente, neste dia, Ele deu ao mundo as primícias da ressurreição. Neste dia... ordenou celebrar os santos mistérios. Este dia é para nós a “fonte (arché) de todo o bem, é o princípio da criação do mundo, o princípio da ressurreição e o princípio da semana (sermão 16 sobre o dia do Senhor) (ALDAZÁBAL, 2000, p. 78).  

Palavras que merecem atenção especial em se tratando de certa proximidade com o acontecimento da Ressurreição e a caminhada das primeiras comunidades. Talvez falte hoje esse retomar dos primórdios do cristianismo, aqui especificamente o domingo, para que ele tenha novamente essa sobriedade dispensada.
A observância do domingo era tão importante que, para o povo desse período da história do Cristianismo, “o princípio de que não há domingo sem eucaristia não era uma medida disciplinar, era uma convicção profunda e arraigada” (RYAN, 1997, p. 18).
Para o povo dessa época, participar das celebrações comunitárias era um prazer e uma necessidade vital que brotava do coração. Pode-se correr o risco de afirmar que a primeira necessidade do Domingo era participar da comunidade. A liturgia talvez não estivesse tão estruturada, mas algumas partes específicas já se faziam presente mostrando a beleza do encontro fraterno na eucaristia celebrada. São Justino apresenta como era realizado esse rito.

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: "Amém". Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. (APOLOGIA I 67, 3-6)[4]

Sendo assim, a beleza do rito remonta inteiramente ao Mistério Pascal. Essa essência da fé precisa ser retomada para que não se perca esse fundamento primeiro de nossa fé.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALDAZÁBAL, J. Domingo, dia do Senhor. In BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja: ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Edições Loyola, 2000, Vol 3, p. 67-91.

DIAQUÉ. O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. 16ª Ed. São Paulo: Paulus, 1989.

RYAN, Vincent. O domingo: história, espiritualidade, celebração. São Paulo: Paulus, 1997.

Imagem:
Disponível em: <http://www.comunidadefanuel.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Domingo-Dia-do-Senhor.jpg>. Acesso em 11 mar de 2017.
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[1] Professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina, licenciado em Filosofia, Pós-Graduado em Docência no Ensino Superior e Graduando em Teologia. O trabalho aqui apresentado foi realizado para a disciplina de Ano Litúrgico e Liturgia das Horas do curso de Graduação em Teologia da UCDB.
[2] Disponível em http://www.veritatis.com.br/print/141, acesso em 01 de agosto de 2016. 
[3] Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016. 
[4] Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016.
N do A: A primeira parte dessa citação já se encontra citada acima. Não consta, no entanto, uma repetição, mas a necessidade para o entendimento do contexto geral da citação. 

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