DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR
ANO B
29 de março de 2015
Leituras
Marcos 11,1-10 (Evangelho da bênção). Hosana
no mais alto do céu.
Isaias 50,4-7. O Senhor Deus me presta
socorro.
Salmo 21/22,8-9.17-18a.19-20.23.24.
Anunciarei vosso nome a meus irmãos.
Filipenses 2,6-11. Foi obediente até à
morte, e morte de cruz!
Marcos 14,1-15,47 ou 15,1-39. Ele era
mesmo o Filho de Deus.
1. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
A partir da
entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, os acontecimentos vão
afunilando. Depois de três anos de missão, de anúncio do Reino de Deus, de
muitos contatos, curas, milagres e pregações, o projeto de Jesus entra num
confronto decisivo.
Por um lado, o
povo que foi tantas vezes por ele ajudado, que percebeu nele uma saída de vida,
aclama-O, cheio de profunda esperança, como aquele que haveria de cumprir as
promessas de Deus, como aquele que seria o “vingador dos pobres”.
Por outro
lado, as elites dominantes, em parceria com o Império Romano, cheias de
privilégios, detentoras de altos rendimentos, donas de todo o poder político,
econômico e religioso, não aceitam essa liderança e tramam a morte do Justo.
É o que
percebemos no Domingos de Ramos da Paixão do Senhor, portal da Semana Santa: um
processo rapidíssimo, uma traição, um beijo falso, um julgamento sob pressão,
um juiz covarde, a condenação de Jesus à morte. O povo se frustra, desanima.
Parece que não adianta lutar, que as coisas têm de ser assim mesmo. Parece que
tudo termina por aí: os pobres sempre mais pobres, as violências crescendo, a
injustiça aumentando e tirando a paz do mundo e os inocentes morrendo.
Mas não é bem
assim. Com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Bom Deus nos mostra o
caminho da salvação, que passa pela cruz, porque Ele respeita a liberdade
humana, gananciosa e cheia de pecados. Foi o caminho que Deus escolheu com a
Encarnação de Jesus. Realizou um esvaziamento (kenose) de si mesmo no serviço,
no lava-pés. Assumiu sobre si nossas dores. Enfrentou o sofrimento e a
perseguição dos poderosos. Historicamente, essa opção de Deus também resultou
em violência: a morte do Filho de Deus, o Justo e santo, numa cruz.
Contraditoriamente,
porém, dessa cruz, instrumento de morte, brotou a vida, a ressurreição, a
semente do novo, a proposta da Igreja das comunidades fraternas. No mundo em
que vivemos, afundado na ganância e no pecado, a salvação passa por esse
processo de morte-vida. O mistério do mal (do sofrimento do justo, do inocente;
das traições das infidelidades e violências) só começa a ter um princípio de
explicação quando se olha para a cruz de Jesus. Parece que até Deus fica
impotente diante do grito do Justo, diante do sofrimento de Jó, diante do
Cristo pendente da cruz (“Não é possível que passe de mim este cálice?”; “Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”).
2. A PALAVRA SE
FAZ CELEBRAÇÃO
Palmas: Sinais da Vitória
A tradição
ortodoxa conhece, segundo a liturgia de São João Crisóstomo um tropário chamado
de apolitikion, rezado logo após um
pequeno refrão de abertura. Trata-se da Oração Principal da Festa. Para o
Domingo de Ramos o tropário diz: ó Deus, antes da tua paixão, dando-nos uma
garantia da ressurreição geral, ressuscitaste Lázaro dos mortos. Por isso, nós
também, como filhos dos hebreus, levamos os símbolos da vitória, clamando: Ó
vencedor da morte, Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor!” Em
nossa liturgia ocidental, o rito de Ramos começa com uma antífona que coincide
com o final desse tropário oriental: Saudemos com hosanas o Filho de Davi!
Bendito o que nos vem em nome do Senhor! Jesus, rei de Israel, Hosana nas
alturas! A exortação que se segue, preparando a bênção dos ramos, articula a
rememoração da entrada em Jerusalém com a nossa participação na ressurreição.
O tropário
oriental, porém, nos apresenta este nexo de maneira mais clara e além disso nos
dá a chave para celebrarmos os mistérios da Semana Santa, cujo Domingo de Ramos
é abertura: “ó vencedor morte, Hosana nas alturas!” Com os olhos pascais é que
a liturgia nos convida a adentrar nos ritos que se seguem durante esta semana.
Nosso olhar atravessa o sofrimento e foca a atenção na Páscoa.
O sentido das
palmas nas mãos, segundo, segundo este tropário, vai na mesma direção: “Levamos
os símbolos da vitória”. A liturgia, portanto, já nos ritos iniciais,
interpreta a paixão e ressurreição do Senhor e nela nos envolve como
participantes desse mistério central da nossa fé. Um outro tropário, que vem
logo em seguida diz: “Fomos sepultados contigo pelo batismo, ó Cristo Deus, e
pela tua Ressurreição, merecemos a vida eterna. Por isso a ti cantamos em alta
voz: Hosana nas alturas”. Esta
referencia ao batismo é interessantíssima se entendermos que a Quaresma tem
forte conotação batismal e que a Vigília Pascal renova os iniciados as suas
promessas de ser seguidores e seguidoras (e fiéis missionários e missionárias)
do Servo Sofredor, recebido e proclamado hoje pelas multidões Rei e, ainda,
segundo a liturgia Oriental manifestação de Deus que a nós se revelou.
3. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA
Seguindo os
passos de Jesus, fazemos memória de sua entrada em Jerusalém para realizar o
mistério de sua morte e ressurreição e que chamamos de “mistério pascal”. Com
os ramos nas mãos, aclamamos Jesus como o verdadeiro Messias, nos associamos à
sua cruz para podermos participar de sua ressurreição e vida (exortação
inicial). Demos graças, porque só assim nosso sofrimento e nossa morte têm
sentido, e na comunhão do seu corpo glorioso já participamos da vida nova, ultrapassando
a morte.
Damos graças
ao Pai que hoje nos apresenta, em Jesus, o sentido que buscamos para nosso
sofrimento e morte. Ao comungar seu corpo glorioso, participamos desde já da
vida que vence definitivamente a morte.
4.
O SIMBOLISMO
DOS RAMOS
O simbolismo
da “arvore” é muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a
“árvore do conhecimento do bem e do mal” e a “árvore da vida” (Gênesis 2,9;
Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o
carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o
povo de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal
de que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de
seu fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a
saúde, carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis,
profetas e sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma
“oliveira selvagem” que foi enxertada na oliveira boa, Israel (Romanos
11,16-24).
Os ramos desta
procissão são uma metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação
vida-morte-vida. As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a
morte, pois esses ramos secarão; mas elas também os “doam” para servir ao
Senhor da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós
como alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa
forma, então, eles “morrem” para que nós tenhamos vida!
Pe Benedito Mazetti
Assessor de Liturgia da Diocese de São Jose do Rio Preto - SP.

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