DO LADO ABERTO DE JESUS NASCE A REDENÇÃO*
Edemilton dos Santos[1]
Uma vida suspensa entre o céu e
a terra. Um homem que só soube servir agora está desfalecido. No entanto, do
alto da cruz, brota uma missão: ser Igreja viva em missão. É do lado aberto do
homem Jesus que se derrama a totalidade do sangue para que se converta em
fertilidade a fé no terreno do coração humano.
Para chegar a esse momento
crucial de sua vida terrena Jesus passou pela Encarnação (Lc 1,26-38), pelo
nascimento (Lc 2,1-20), pela vida pública, anunciando o Reino de Deus (Mc
1,14-15) e pela condenação (Jo 18,1-19,42). O propósito de Deus, quando enviou
seu Filho ao mundo era claro: “pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu
Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”
(Jo 3,16).
Os passos de Jesus foram tecendo
uma relação de amor e ódio com a sociedade do seu tempo. Os marginalizados e
esquecidos, aos poucos, aderiram aos seus ensinamentos, pois, viram Nele o
Libertador. Os doutores da lei, fariseus e saduceus, bem como os reis, viam em
Jesus uma ameaça ao seu poder opressor. No entanto, Jesus não se intimida
diante desta realidade e continua a mostrar a Misericórdia e o Amor de Deus
para com seu povo. Situação que o fez chegar até a cruz, derramando a última
gota de sangue para a redenção da humanidade. “Um dos soldados transpassou-lhe
o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34).
Este despojamento total de Jesus
rega os primeiros passos da comunidade cristã que irá receber o nome de
cristãos em Antioquia, pela primeira vez (cf At 11,26). O seguimento a Jesus
Cristo se espalhou pelos séculos até chegar aos dias atuais sempre regados no
seu sangue derramado. Muitos homens e mulheres morreram e continuam a morrer
por defender a causa dos pequenos e fracos seguindo os passos do Mestre.
De muitas maneiras a Igreja
continua a fazer esta memória dos profetas e profetizas de ontem e de hoje que
seguem os ensinamentos de Jesus Cristo na radicalidade do Evangelho. Pela
oração e vivência da Palavra de Deus, seja nos círculos bíblicos ou na
Celebração Eucarística ou da Palavra, a memória de Deus construindo história
com seu povo é presença transformada. Outro elemento que ajuda a olhar os
passos da Igreja, principalmente no Brasil, durante a Quaresma, é a Campanha da
Fraternidade que traz um tema e um lema. Este ano o tema é um convite para
refletir e rezar a relação existente entre Igreja e Sociedade, tendo como fio
condutor o lema: “eu vim para servir” (Mc 10,45).
Diante destes desafios podemos
nos perguntar: queremos uma Igreja conivente com a opressão ou queremos uma
Igreja que abrace a causa e a defesa dos oprimidos? Isso não é ser da Teologia
da Libertação ou de movimentos sociais, mas é seguir os passos de Jesus Cristo.
Se somos capazes de dizer que seguimos a Cristo precisamos honrar este
seguimento não só com palavras, mas com ações concretas.
A morte de Jesus na Cruz nos
convida a olhar para a sociedade com os olhos da compaixão. A entrega da sua
vida é um modelo de misericórdia a ser gerado no coração humano. A redenção
provoca o esvaziamento de si, para que o Amor de Deus seja a luz a irradiar de
cada pessoa que se coloca a serviço do Reino de Deus na missionaridade da vida.
A ação missionária pode ser na família, na sociedade, na comunidade ou
espalhados pelos mais diversos setores da sociedade. Cabe a nós cristãos,
sermos sinal profético do amor incondicional de Deus para com a humanidade,
pois “deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos
pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais
abandonados da sociedade” (EG 186).
Ser Igreja viva em missão é
contemplar Cristo na Cruz como ícone da nossa salvação. É realizar a desintoxicação
do coração para que cada ser humano, lavado no sangue derramado de Jesus, tenha
no coração de Deus o seu lugar. Este lugar é marcado pela experiência da
Ressurreição de Jesus que é o cume da Revelação plena de Deus à humanidade.
Nela está a Nova Criação e a Nova Aliança. Nela está o broto da fé que nasce
pelo lado aberto e se espalha pelo povo de Deus que constitui a Igreja, Corpo
de Cristo.
Portanto, ser sinal do
Ressuscitado é ser também sinal do Crucificado. É estar em movimento como Igreja
Peregrina que reza e canta o Amor do seu Deus presente no Filho e na ação do
Espírito Santo, para que todos sejam um na unidade e no amor de filhos e irmãos
na construção do Reino de Deus.
* Texto
publicado na Revista Bertheriano Ano
37, nº 110, jan/Abril. 2015. Revista dos Missionários da Sagrada Família.
[1] Postulante dos
Missionários da Sagrada Família.

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