sexta-feira, 27 de março de 2015

DO LADO ABERTO DE JESUS NASCE A REDENÇÃO



DO LADO ABERTO DE JESUS NASCE A REDENÇÃO*

Edemilton dos Santos[1]

Uma vida suspensa entre o céu e a terra. Um homem que só soube servir agora está desfalecido. No entanto, do alto da cruz, brota uma missão: ser Igreja viva em missão. É do lado aberto do homem Jesus que se derrama a totalidade do sangue para que se converta em fertilidade a fé no terreno do coração humano.
Para chegar a esse momento crucial de sua vida terrena Jesus passou pela Encarnação (Lc 1,26-38), pelo nascimento (Lc 2,1-20), pela vida pública, anunciando o Reino de Deus (Mc 1,14-15) e pela condenação (Jo 18,1-19,42). O propósito de Deus, quando enviou seu Filho ao mundo era claro: “pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).
Os passos de Jesus foram tecendo uma relação de amor e ódio com a sociedade do seu tempo. Os marginalizados e esquecidos, aos poucos, aderiram aos seus ensinamentos, pois, viram Nele o Libertador. Os doutores da lei, fariseus e saduceus, bem como os reis, viam em Jesus uma ameaça ao seu poder opressor. No entanto, Jesus não se intimida diante desta realidade e continua a mostrar a Misericórdia e o Amor de Deus para com seu povo. Situação que o fez chegar até a cruz, derramando a última gota de sangue para a redenção da humanidade. “Um dos soldados transpassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34).
Este despojamento total de Jesus rega os primeiros passos da comunidade cristã que irá receber o nome de cristãos em Antioquia, pela primeira vez (cf At 11,26). O seguimento a Jesus Cristo se espalhou pelos séculos até chegar aos dias atuais sempre regados no seu sangue derramado. Muitos homens e mulheres morreram e continuam a morrer por defender a causa dos pequenos e fracos seguindo os passos do Mestre.
De muitas maneiras a Igreja continua a fazer esta memória dos profetas e profetizas de ontem e de hoje que seguem os ensinamentos de Jesus Cristo na radicalidade do Evangelho. Pela oração e vivência da Palavra de Deus, seja nos círculos bíblicos ou na Celebração Eucarística ou da Palavra, a memória de Deus construindo história com seu povo é presença transformada. Outro elemento que ajuda a olhar os passos da Igreja, principalmente no Brasil, durante a Quaresma, é a Campanha da Fraternidade que traz um tema e um lema. Este ano o tema é um convite para refletir e rezar a relação existente entre Igreja e Sociedade, tendo como fio condutor o lema: “eu vim para servir” (Mc 10,45).
Diante destes desafios podemos nos perguntar: queremos uma Igreja conivente com a opressão ou queremos uma Igreja que abrace a causa e a defesa dos oprimidos? Isso não é ser da Teologia da Libertação ou de movimentos sociais, mas é seguir os passos de Jesus Cristo. Se somos capazes de dizer que seguimos a Cristo precisamos honrar este seguimento não só com palavras, mas com ações concretas.
A morte de Jesus na Cruz nos convida a olhar para a sociedade com os olhos da compaixão. A entrega da sua vida é um modelo de misericórdia a ser gerado no coração humano. A redenção provoca o esvaziamento de si, para que o Amor de Deus seja a luz a irradiar de cada pessoa que se coloca a serviço do Reino de Deus na missionaridade da vida. A ação missionária pode ser na família, na sociedade, na comunidade ou espalhados pelos mais diversos setores da sociedade. Cabe a nós cristãos, sermos sinal profético do amor incondicional de Deus para com a humanidade, pois “deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade” (EG 186).
Ser Igreja viva em missão é contemplar Cristo na Cruz como ícone da nossa salvação. É realizar a desintoxicação do coração para que cada ser humano, lavado no sangue derramado de Jesus, tenha no coração de Deus o seu lugar. Este lugar é marcado pela experiência da Ressurreição de Jesus que é o cume da Revelação plena de Deus à humanidade. Nela está a Nova Criação e a Nova Aliança. Nela está o broto da fé que nasce pelo lado aberto e se espalha pelo povo de Deus que constitui a Igreja, Corpo de Cristo.
Portanto, ser sinal do Ressuscitado é ser também sinal do Crucificado. É estar em movimento como Igreja Peregrina que reza e canta o Amor do seu Deus presente no Filho e na ação do Espírito Santo, para que todos sejam um na unidade e no amor de filhos e irmãos na construção do Reino de Deus.



* Texto publicado na Revista Bertheriano Ano 37, nº 110, jan/Abril. 2015. Revista dos Missionários da Sagrada Família.
[1] Postulante dos Missionários da Sagrada Família. 

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