2º DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO
SENHOR
ANO B
12 de abril de 2015
Leituras
Atos 2,32-35. Entre eles ninguém
passava necessidade.
Salmo 117/118,2-4.16-18.22-24. A mão
direita Senhor me levantou.
1João 5,1-6. O que crê que Jesus é o
Cristo nasceu de Deus.
João 20,19-31. A paz esteja convosco.
1. PONTO DE PARTIDA
Hoje é o
domingo da profissão de fé de Tomé. Há u
ma semana celebramos a Páscoa da
Ressurreição. Nós batizados, fomos sepultados na morte com Cristo e
ressuscitamos com ele. Neste Tempo Pascal, somos fortalecidos pela Palavra de
Deus e pela Eucaristia a fim de darmos testemunho de Jesus ressuscitado, seja
pela nossa vida pessoal, pela participação comunitária, seja pela atuação
transformadora da sociedade.
Hoje também é
o domingo da Divina Misericórdia, instituído por João Paulo II, no dia 30 de
abril de 2000, damos graças ao Senhor por seu eterno amor por nós, sempre
disposto a nos perdoar, quando o nosso coração arrependido volta-se para Ele.
Como Tomé, dizemos: “Meu Senhor e meu Deus” (João 20,28).
Celebramos a
Páscoa de Jesus que se manifesta na comunidade dos discípulos e discípulas e em
todas as pessoas e grupos que promovem a reconciliação no meio de nós.
2. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
O Evangelho
narra a aparição de Jesus ressuscitado á comunidade reunida. É fundamental
voltarmos o nosso olhar para o momento que Jesus escolheu: a comunidade
reunida! A comunidade cristã reunida deve
aparecer como sinal de Cristo ressuscitado. “a paz esteja convosco. Como o
Pai me enviou, também eu vos envio” (João 20,21). Isto mostra que a Igreja já
nasceu missionária.
Na tarde do
primeiro dia da semana, os discípulos estavam reunidos, de portas fechadas,
quando o Senhor apareceu, ressuscitado. Era Ele mesmo. Fez questão de mostrar
em seu corpo as marcas da paixão, para que ninguém tivesse dúvidas. Do lado dos
discípulos, havia o medo, a incredulidade, a tristeza. Do lado de Jesus, a paz,
a reconciliação e uma força capaz de provocar uma nova atitude no meio da
comunidade.
Podemos
perceber claramente que ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto
de referência, fator de unidade. A comunidade está reunida em volta dele, pois
Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo”
e a hostilidade do mundo.
Jesus passa
para os discípulos a missão que recebeu do Pai, dando-lhes o dom do Espírito
Santo e a graça de oferecer o perdão.
Jesus “soprou”
sobre os discípulos reunidos em sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do
texto grego de Gênesis 2,7, o qual diz que Deus soprou sobre o homem de argila,
infundindo-lhe a vida de Deus. Com um “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a
vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito,
a vida de Deus, para poderem como o Mestre dar-se generosamente aos outros. É
esse Espírito que constitui e anima nossas comunidades cristãs.
Jesus
aparece-lhes não só para que dessem testemunho de sua ressurreição, mas também
para dar-lhes o Espírito Santo e enviar-lhes em missão.
Pensemos no
nosso hoje: se ouvíssemos de outros: “Vimos o Senhor!”, sem o testemunho
narrado no Evangelho, será que nossa atitude seria muito diferente da de Tomé?
Ele precisou ver para crer, por isso, arrependido, professa sua fé em Jesus Cristo : “Meu
Senhor e meu Deus!” (João 20,28). É na vida da nossa comunidade (na sua
liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que encontramos as provas de que
Jesus está vivo.
Nossa fé
precisa ser, realmente, incondicional para que reconheçamos o Senhor. Mesmo sem
podermos tocar em suas mãos e em seu peito aberto, é possível vê-Lo na Palavra
anunciada e num simples pedaço de pão, porque Ele mesmo disse que ali estaria,
se reunidos celebrássemos sua memória. Se estivéssemos, porém, ausentes da
comunidade, do Espírito de amor e partilha que Ele nos propõe, poderemos ser o
Tomé de hoje, incapazes de crer. Fora da comunidade, da fé e da vivência
segundo o Espírito de Deus, dizer que Ele está vivo no meio de nós pode
fazer-nos parecer meros visionários aos olhos de quem não crê.
Hoje também, é
preciso acreditar antes de ver, pois é a fé que abre nossos olhos à presença de
Jesus, a seus sinais e a sua graça.
Este é nosso
desejo, todos “queremos ver Jesus, tal qual expresso no Projeto Nacional de
Evangelização: “Ver Jesus é o anseio mais profundo do coração humano, mesmo sem
o saber”. “Em Jesus Cristo, Deus manifesta-se aos que o procuram e lhes oferece
a vida em plenitude” (PQVJ. P.5). E contudo, podemos dizer que vemos, nós
também: a realidade do Cristo glorioso, no Espírito.
Nós somos
agora o “espaço” da salvação de Deus, do qual podem brotar equilíbrio e vida
plena paras todos. Tornando-nos missionários da reconciliação pelo exercício do
perdão. Isso, com certeza, é paz, justiça, saúde e vida para todos. “Como o Pai
me enviou, também eu envio vocês”, disse Jesus. Daí a importância de vivermos
em comunidade, a exemplo das primeiras comunidades cristãs, perseverantes na
escuta da Palavra, na comunhão fraterna (caridade, solidariedade, ajuda mútua,
partilha de bens, serviço à vida), na fração do pão (Eucaristia como memorial
de Jesus) e nas orações diárias como alimento da fé.
A nossa
celebração de cada domingo faz memória desta presença viva de Jesus
ressuscitado. Hoje, esta presença não é visível como naquele domingo em que Tomé podia por o dedo
em suas chagas. Agora, Ele se manifesta invisível, contudo não menos real. Ele
entra em nossas assembléias na situação concreta de cada comunidade e de cada
pessoa, vem ao encontro de nossa frágil fé, cheia de medo, cheia de dúvidas...
E nós ouvindo-O dizer “Bem-Aventurados os creram sem ter visto”, fazemos a
confissão amorosa da nossa fé esperando receber também o dom do Espírito Santo
e a força para sermos testemunhas de sua ressurreição.
Contemplamos o
Senhor ressuscitado com as mãos feridas pela morte. A ressurreição é a vitória
sobre o mal, não sua negação ou fuga. Que Ele nos ajude a superar a cultura
individualista e a cultura da morte e a viver o tempo novo da ressurreição.
3. A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO
Apoiado no
Evangelho de hoje, o cerne da Divina Liturgia é a fé no Ressuscitado. Essa fé
pascal se desdobra em todos os domingos do Ano Litúrgico, condensada na
profissão de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. Reunimo-nos para celebrar
nossa Páscoa, sabemos que o Mestre está vivo, mas nosso encontro se dá no
horizonte mistagógico dos que crêem, mesmo sem ver. O que vemos e sentimos
despreza a lógica daquilo que é palpável. A celebração da Eucaristia não é
outra coisa senão a ritualização do Mistério Pascal do Senhor. As portas da
comunidade da Ressurreição estão escancaradas. A assembléia celebrante não
agrega membros de uma sociedade secreta, reunidos para uma festa privada. Daí
não se admitir missas especiais e particulares, que sinalizam privilégios e
benefícios, nem mesmo missa especial de Natal para satisfazer certas famílias
privilegiadas.
A Páscoa não
se presta a ser desfrute individual, uma alegria subjetiva pela qual cada fiel
ressuscita com “seu” Jesus privatizado. Os desdobramentos da festa pascal são
missionários e evangelizadores. A bem-aventurança do Senhor é clara. Ela recai
sobre os que não se contentam em crer sem a necessidade de tocá-lo. Isso basta.
Nossa única segurança é o anúncio de que Ele está vivo, trazendo-nos paz e
convidando-nos ao perdão mútuo. Mesmo não apalpando suas feridas, cremos Nele e
em sua capacidade de nos agregar como irmãos, na celebração da vida que mata a
morte. Ele se faz presente no centro da comunidade reunida, em torno da Palavra
e da Eucaristia, vivificando-a com o sopro do Espírito Santo. Não se trata de
presença física, mas sacramental e mistério. A dinâmica do rito nos envolve e
nos inebria, através de gestos e símbolos, na bem-aventurança de crer, mesmo
sem ver. Para nadar na contramão do caminho de Tomé, não se precisa ter uma fé
irrepreensível e pura. As dúvidas, de vez em quando, assolam a nossa vida. Como
ficamos então, diante do desafio de crer sem duvidar? A fé no Ressuscitado não
comporta arrogância dos que se vangloriam de nunca terem questionado os
desígnios de Deus, mas requer abandono e entrega, testemunho e ajuda uns dos
outros. Ninguém cresce na fé sozinho. Em comunidade, reunidos todos os
domingos, humildemente pedimos: Nós cremos, Senhor, mas aumentai a nossa fé
(Marcos 9, 14-29).
4. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA
A Eucaristia é
o momento da paz. Em
cada Eucaristia , Cristo nos dá a sua paz e quer que a
atualizemos para nossos irmãos e irmãs. A paz de Cristo é a paz do
Ressuscitado. É diferente da paz do mundo que quer a paz à custa de armas.
Nesta
Eucaristia, apresentemos a Cristo a cegueira do mundo, para que Ele a ilumine.
Apresentemos o ódio do mundo, para que Ele o converta em amor. Apresentemos
o sofrimento de tantos inocentes, para Ele os console.
Na eucaristia
o Senhor nos une num só coração e numa só alma e, na mesa eucarística, partilha
seu corpo e seu sangue como alimento. Ele nos dá a sua paz ao perdoar nossos
pecados e nos convoca a sermos suas testemunhas, fortalecidos pela presença do
Espírito Santo.
A exemplo das
primeiras comunidades cristãs que se reuniam nas casas para a oração e a
partilha do pão, também nós, hoje, nos reunimos para celebrar a Eucaristia, no
primeiro dia da semana.
Assim como os
discípulos ouviram o Senhor ressuscitado, na liturgia da Palavra, quando são
proclamadas as leituras, é Jesus que nos fala novamente. Após escutarmos e
refletirmos a Palavra na homilia, como Tomé, fazemos nossa profissão de fé com
o Credo.
Através do
ministro que preside a assembléia eucarística, na liturgia eucarística, quando
temos Jesus presente no pão e no vinho, é Ele mesmo que nos diz, como outrora
aos discípulos: “A paz do Senhor esteja sempre convosco”.
Depois de
comungarmos o próprio Jesus que se dá a nós em alimento, com a bênção de Deus
Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo, somos enviados em missão, tal qual
os discípulos, que de Jesus receberam a missão confiada a Ele pelo Pai. A cada
celebração litúrgica, esta missão nos é confiada novamente, e a cada celebração
damos graças a Deus, “porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia”.
Não é em
experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas que encontramos Jesus
ressuscitado, mas sim no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão
repartido, no amor que une is irmãos e irmãs em comunidade de vida.
Pe.
Benedito Mazeti
Assessor diocesano de liturgia

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