segunda-feira, 6 de abril de 2015

O CANTO E A LITURGIA: DUAS FACES DE UM ÚNICO MISTÉRIO

Edemilton dos Santos*

O que vamos cantar hoje na missa?
Esta é uma pergunta feita pelas nossas equipes de música quando se preparam para escolher os cantos para a celebração que será cantada por elas. Neste estudo, mesmo que de forma breve, algumas orientações para a escolha correta dos cantos, tomando como base o tempo litúrgico que estamos vivendo, isto é, o Tempo Pascal.
Primeiramente vale salientar que as equipes de música não irão cantar na missa e sim cantar a missa. Porque está diferença? Cantar na significa cantar para. Quer dizer, fazer uma apresentação. Canta a significa cantar junto com alguém. Neste caso, cantar a missa quer expressar que juntos, presidente, equipe de liturgia e celebração e povo de Deus reunido, cantam a oração do na forma poética da letra e da melodia da música litúrgica entoada para aquele momento da celebração. Por isso que não cantamos na missa e sim cantamos a missa.
Seguindo nosso estudo é necessário buscar a reposta da pergunta que introduz este texto: o que vamos cantar? Como estamos falando do canto da equipe de cantos vamos listar somente os cantos do povo, entoados pelas equipes que conduzem o mesmo. Antes, porém, de adentrar na sequencia dos cantos, faz-se necessário introduzir o tempo litúrgico Pascal, para se ter uma ideia do que cantar neste momento do Ano Litúrgico.
Durante o Tempo Pascal cantamos a Ressurreição de Jesus Cristo. A experiência humana de Jesus na morte, causada pelos poderes opressores e por sua experiência de abandono, não é para sempre, mas para remeter a humanidade à graça de também experimentar a Ressurreição. Nesse tempo o canto expressa a alegria da Ressurreição do Senhor, que também é ressurreição da humanidade.
E agora? Como é a estrutura dos cantos?
Pois bem, temos os cantos processionais, isto é, aqueles que acompanham os momentos de procissão na celebração. São eles: abertura, oferendas, comunhão e final, quando este é cantado na saída do povo. Existe também o canto de aclamação quando se faz a procissão com o Evangeliário do Altar até a Mesa da Palavra. Caso não seja feita a procissão o canto de aclamação entra em outra categoria: aclamações. Estes cantos mudam conforme o Tempo Litúrgico e a Liturgia da Palavra. Geralmente as estrofes permanecem as mesmas apenas o refrão que é outro, porém na mesma melodia.
Os cantos fixos ou do ordinário são os cantos do Ato Penitencial, Hino de Louvor, Creio, Santo, Pai-Nosso e Cordeiro de Deus. Estes cantos tem a mesma letra do texto rezado. Equivocadamente, principalmente o Hino de Louvor, é apresentado numa aclamação trinitária confundindo com a oração do Glória ao Pai, Ao Filho e ao Espírito Santo. Esta oração quer dizer o seguinte: O Pai, gerador do Filho, transmite-lhe toda a sua natureza e vida Divina. O Filho, por sua vez, abandona-se totalmente ao Pai através de seu amor. O Espírito Santo deriva do amor recíproco entre o Pai e o Filho. Assim sendo, aportamos também àquela que é a missão da Santíssima Trindade: o Pai cria, o Filho salva e o Espírito Santo santifica. No Hino de Louvor está a exaltação a Jesus Cristo como Rei do Universo e Salvador da humanidade, por isso que todo a canto faz menção a segunda Pessoa da Santíssima Trindade elucidando assim uma exaltação cristológica e não trinitária. Para os demais cantos do ordinário a dica é escolher cantos que possuem a mesma letra, ou letra parecida com a letra do texto rezado. Como saber se o canto é litúrgico ou não no caso das partes fixas? A resposta é simples: se a letra fugir totalmente do texto rezado não é considerado canto apropriado para estas partes da celebração. No entanto fica a pergunta: mas, se só dispomos dos cantos com aclamação trinitária? Pode ser rezado ou cantado, desde que se procure aprender e buscar os cantos com as letras próprias.
Ainda temos, durante a celebração, o canto do Salmo Reponsorial. Este canto deve ser cantado na Mesa da Palavra, pois faz parte da Liturgia da Palavra. Por circunstâncias pastorais poderá ser cantado no local que está a equipe de cantos. Por isso, para facilitar o acesso com o instrumento, seria melhor que a equipe de cantos ficasse próximo da mesa da Palavra. O canto do Salmo expressa a espiritualidade bíblica do louvar ao Senhor por meio da expressão poética. É o povo que canta as maravilhas de Deus presente na sua misericórdia, criação e ação em favor do povo. Não existe canto de meditação, pois o Salmo sempre está de acordo com a Primeira Leitura.
Ainda temos durante a liturgia cristã, várias aclamações. Uma delas é a Aclamação ao Evangelho. É uma introdução, preparando a assembleia para o que será proclamado. É um canto breve sempre com um refrão do Aleluia e com o versículo indicado no Lecionário antes do Evangelho. Durante o Ano Litúrgico, o único tempo que não se canta o Aleluia é o tempo da Quaresma, para se cantar solenemente na Vigília Pascal. No Advento é um Aleluia mais suave, sem tom de festividade reservada para a Celebração do Natal.
Para concluir vale lembrar a importância de tirar um tempo para ensaiar os cantos a serem cantados durante a celebração. Quando se tem ensaio é possível corrigir os erros e acertar melhor no canto. Não quer dizer que não aconteça durante a celebração, mas a possibilidade de errar diminui bastante. Cantar a Liturgia é cantar a presença do Senhor no elo entre oração e canto aprofundando a mistagogia da espiritualidade mistérica celebrada naquele dia. Sendo assim é importante que canto e liturgia estejam convergindo e não divergindo. É necessário a unidade entre os dois para não correr o risco de o canto ir numa direção e a liturgia para outra. Escolher os cantos e ensaiar com antecedência é sinal de compromisso com Deus, com a Liturgia e com a comunidade. Quanto melhor cantada a liturgia melhor rezada será em toda sua unidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECKHÄUSER, Alberto. Celebrar Bem. 2ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
BUYST, Ione, FONSECA, Joaquim. Música ritual e mistagogia.  São Paulo: Paulus, 2008.
CNBB. A música litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulus, 2002, 4ª Ed. (Estudos da CNBB, nº 79)
CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil. 20ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2006. (Documento 43).
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Guia Litúrgico-Pastoral. Brasília, edições CNBB. 2ª Ed.
FONSECA, Joaquim.  Cantando a Missa e o Ofício Divino. São Paulo: Paulus, 2007. 3ª Ed.
FONSECA, Joaquim.  Quem canta? O que cantar na liturgia? São Paulo: Paulinas, 2008.
FONSECA, Joaquim. O canto e música no tempo do ano Litúrgico In: Liturgia em Mutirão: subsídios para a formação. Brasília, edições CNBB. 2007.
SACROSANTUM CONCILIUM. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2001.









* Postulante dos Missionários da Sagrada Família. Formado em Filosofia pela Faculdade Pe João Bagozzi de Curitiba PR e Teologia (em fase de Conclusão) pelos Institutos Santo Tomás de Aquino de Belo Horizonte – MG e São Paulo de Estudos Superiores de São Paulo – SP. 

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