SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR
ANO B
03 de abril de 2015
Leituras
Isaías 52,13-53,12. Diante dele os reis
se manterão em silêncio.
Salmo 30/31,2.6.12-13.16-17.25. Senhor,
eu ponho em vós a minha esperança.
Hebreus 4,14-16; 5,7-9. Permaneçamos
firmes na fé que professamos.
João 18,1—19,42. O meu reino não é
deste mundo.
- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA
VIDA
É
significativo que o Evangelho de João sobre a Paixão de Jesus comece num jardim
e termine num jardim (cf. 18,1; 19,41). É uma referência ao jardim do Éden!
“Onde o ser humano não soube se portar de forma humana autêntica, Jesus ensina
o de possuir a vida: dando-se gratuitamente em favor dos outros. Diante de
Jesus as pessoas têm duas opções: ou O reconhecem e se comprometem com Ele, ou
acabam aderindo ao sistema injusto que O rejeitou e condenou, perdendo assim a
chance de ter a vida. A hora de Jesus chegou. A hora em que, na sua morte,
conclui sua obra em favor da humanidade: “Tudo está consumado”. Obra que daí
para frente será levada adiante pelo Espírito: “E, inclinando a cabeça,
entregou o espírito”. Hora que provoca um sério julgamento. “É o momento em que
são postas às claras as opções que as pessoas fazem a favor ou contra Jesus.
E aí, na sua
Paixão e morte, que se mostra em que sentido Jesus é Rei. Aí está a amostra
consumada de que sua realeza não se baseia no jogo de poder das realezas deste
mundo, que fazem uso da força e da violência. A realeza de Jesus consiste em
dar testemunho da verdade (fidelidade de Deus a seu projeto). Ele é Rei porque
cumpre até o fim a vontade do Pai, que é a de amar de tal modo o mundo a ponto
de enviar seu Filho Unigênito (João 3,16). Na Paixão, Jesus é o verdadeiro Rei.
Rei coroado de espinhos e vestido com um manto vermelho. Rei cujo trono é a
cruz. Rei de vestes repartidas. Rei porque é rei na arte de amar sem medida, a
ponto de dar a vida para salva o povo de todo tipo de opressão. Rei que resgata
definitivamente o que significa de fato ser rei. Rei que, por isso tudo, foi
dignificado pelos seus discípulos com sepultura apropriada e perfumosa.
Rei imolado
por nós e, por esse motivo, apelidado mais tarde pelos cristãos de Cordeiro
pascal que tira o pecado do mundo.
Pelos
sacramentos da Iniciação Cristã, nós optamos por ser discípulos e discípulas
desse Rei. Mas temos que estar atentos, vigiar e orar sem cessar para não
cairmos em tentação. Que
tentação? Na tentação de querer aderir aos sistemas injustos que oprimem,
flagelam e matam nosso Rei Jesus; hoje, sobretudo, simbolizado nos pobres
excluídos, nos nascituros indefesos, nos idosos mal assistidos, nos indígenas
explorados, nas vítimas do tráfico de drogas, nos reféns da violência urbana e
rural, em tantos corpos jovens explorados pelo comércio e turismo sexual, e o
planeta devastado pela ganância inescrupulosa dos sumos sacerdotes da idolatria
do dinheiro e pela covardia de governantes com seus jogos sujos de poder,
riqueza e prestígio. Estes são alguns exemplos apenas. Jesus hoje continua
sendo flagelado, crucificado e morto de inúmeras formas.
Diante de
Jesus temos duas opções: ou O reconhecemos e nos comprometemos com Ele, ou
acabamos aderindo ao sistema injusto que O rejeita e O condena, perdendo a
chance de termos a vida em
plenitude. Como discípulos e discípulas Dele, permaneçamos
firmes na primeira opção. “Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos”
(Hebreus 4,14b). que Deus nos ajude a
sermos de fato assim, pois o mundo está precisando de pessoas cada vez mais
comprometidas com a causa pela qual Jesus lutou até o fim!
Ao final de
sua narrativa da paixão, João diz assim: “Eu vi, eu dou testemunho e meu
testemunho é verdadeiro! Eu sei que estou dizendo a verdade, para que vocês
também acreditem!” (João 19,35).
Vamos seguir o
convite de João e acreditar! Para além da cruz há uma manhã de ressurreição!
- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO
A celebração
da Paixão e Morte do Senhor tem especial significado na vida do Cristão. É uma
celebração da Palavra com distribuição da comunhão e que inclui alguns ritos
significativos para a nossa Igreja: a oração universal e a adoração do Cristo
na cruz. É também uma celebração marcada pelo silêncio, pela piedade e pelo
sincero desejo de acompanhar os passos de Jesus em sua paixão e morte. É a
segunda etapa da festa que costumamos chamar “Tríduo Pascal”. O Tríduo termina
no Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor com a celebração das vésperas,
ou ofício da tarde. É uma festa única que nos introduz no Mistério do Senhor,
de seu amor extremado e de sua livre doação para salvar a todos e para levar a
termo a vontade do Pai. Por isso mesmo tão cara a todos nós que cremos. Convém
mesmo que seja preparada e celebrada com intensidade na Divina Liturgia.
Um dos ritos
que estão previstos para celebrarmos esse mistério é o beijo da cruz. O rito é
bastante significativo e eloqüente: cada fiel se aproxima, beija ou se inclina
diante da Cruz do Senhor. O beijo é um gesto significativo presente em outras
passagens dos evangelhos: o beijo do Pai que reencontra o filho perdido, na
parábola lucana (Lucas 15,20), e a mulher que beija lava os pés de do Senhor
com lágrimas, enxugando-o com os cabelos (Lucas 7,36-50). O primeiro demonstra
o afeto do Pai que reencontra o seu filho que estava morto e tornou a viver. O
segundo é o beijo de quem muito amou e por isso foi perdoada. Esses dois
trechos nos ajudam a entender o que fazemos diante da cruz do Senhor ao
beijá-la. Expressamos com esse mesmo rito a secreta alegria deste dia, quando o
nosso olhar é orientado para a Ressurreição. Nosso beijo, como aquele do Pai
misericordioso da Parábola, diante do filho despojado, confessa a Ressurreição
que o sofrimento e a paixão escondem. Cobrimos de beijo aquele que por sua
morte e ressurreição torna ao seio do Pai, confessando que estava morto mas
tornou a viver (Lucas 15,32).O segundo beijo demonstra o amor da pecadora (não
confundir com Madalena ou com Maria, a irmã de Lázaro) que alcançando o perdão,
alcança igualmente a vida. É o beijo que não só se dá, mas que desfruta do amor
divino que foi derramado no alto da Cruz, como perfume sobre a nossa
humanidade. Amor mais forte do que a morte (Cântico dos Cânticos 8,6), capaz de
ressuscitar (1João 3,14).
- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO
EUCARÍSTICA
Jesus dá sua
vida para o perdão dos pecados. Ele é o cordeiro de Deus, aquele que tira o
pecado do mundo. Jesus passou pela violência, pagou o mal com o bem. Venceu o
ódio com amor. A paz do mundo só será possível se descobrirmos o caminho do
perdão.
O mistério da
Páscoa nasce a partir do sangue derramado de Cristo na cruz. Na celebração da
paixão e morte de Cristo fazemos memória da sua entrega ao Pai, em vista do
Reino. Unindo nossos passos aos passos de Cristo morto, elevamos nossa oração
por toda a humanidade que foi resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando o
seu corpo e o seu sangue, recebemos dele a força para vencer as cruzes do nosso
dia-a-dia.
Participando
da comunhão eucarística, vamos assumir e assimilar sacramentalmernte toda a
entrega de Jesus por nós, para que, como discípulos e discípulas do Mestre e
Servo de todos, Rei universal e Sacerdote único, possamos viver o que Ele
viveu. Por isso, após a comunhão, reza-se a seguinte oração: “Ó Deus, que nos
renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo, conservai em nós a
obra de vossa misericórdia, para que, pela participação deste mistério, vos
consagremos toda a nossa vida”. Ao que todos respondem afirmativamente:
“Amém!”.
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