sexta-feira, 3 de abril de 2015

“TODO AQUELE QUE É DA VERDADE ESCUTA A MINHA VOZ”


SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR
ANO B
03 de abril de 2015

Leituras

     Isaías 52,13-53,12. Diante dele os reis se manterão em silêncio.
     Salmo 30/31,2.6.12-13.16-17.25. Senhor, eu ponho em vós a minha esperança.
     Hebreus 4,14-16; 5,7-9. Permaneçamos firmes na fé que professamos.
     João 18,1—19,42. O meu reino não é deste mundo.



  1. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
           
É significativo que o Evangelho de João sobre a Paixão de Jesus comece num jardim e termine num jardim (cf. 18,1; 19,41). É uma referência ao jardim do Éden! “Onde o ser humano não soube se portar de forma humana autêntica, Jesus ensina o de possuir a vida: dando-se gratuitamente em favor dos outros. Diante de Jesus as pessoas têm duas opções: ou O reconhecem e se comprometem com Ele, ou acabam aderindo ao sistema injusto que O rejeitou e condenou, perdendo assim a chance de ter a vida. A hora de Jesus chegou. A hora em que, na sua morte, conclui sua obra em favor da humanidade: “Tudo está consumado”. Obra que daí para frente será levada adiante pelo Espírito: “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito”. Hora que provoca um sério julgamento. “É o momento em que são postas às claras as opções que as pessoas fazem a favor ou contra Jesus.
E aí, na sua Paixão e morte, que se mostra em que sentido Jesus é Rei. Aí está a amostra consumada de que sua realeza não se baseia no jogo de poder das realezas deste mundo, que fazem uso da força e da violência. A realeza de Jesus consiste em dar testemunho da verdade (fidelidade de Deus a seu projeto). Ele é Rei porque cumpre até o fim a vontade do Pai, que é a de amar de tal modo o mundo a ponto de enviar seu Filho Unigênito (João 3,16). Na Paixão, Jesus é o verdadeiro Rei. Rei coroado de espinhos e vestido com um manto vermelho. Rei cujo trono é a cruz. Rei de vestes repartidas. Rei porque é rei na arte de amar sem medida, a ponto de dar a vida para salva o povo de todo tipo de opressão. Rei que resgata definitivamente o que significa de fato ser rei. Rei que, por isso tudo, foi dignificado pelos seus discípulos com sepultura apropriada e perfumosa.
Rei imolado por nós e, por esse motivo, apelidado mais tarde pelos cristãos de Cordeiro pascal que tira o pecado do mundo.
Pelos sacramentos da Iniciação Cristã, nós optamos por ser discípulos e discípulas desse Rei. Mas temos que estar atentos, vigiar e orar sem cessar para não cairmos em tentação. Que tentação? Na tentação de querer aderir aos sistemas injustos que oprimem, flagelam e matam nosso Rei Jesus; hoje, sobretudo, simbolizado nos pobres excluídos, nos nascituros indefesos, nos idosos mal assistidos, nos indígenas explorados, nas vítimas do tráfico de drogas, nos reféns da violência urbana e rural, em tantos corpos jovens explorados pelo comércio e turismo sexual, e o planeta devastado pela ganância inescrupulosa dos sumos sacerdotes da idolatria do dinheiro e pela covardia de governantes com seus jogos sujos de poder, riqueza e prestígio. Estes são alguns exemplos apenas. Jesus hoje continua sendo flagelado, crucificado e morto de inúmeras formas.
Diante de Jesus temos duas opções: ou O reconhecemos e nos comprometemos com Ele, ou acabamos aderindo ao sistema injusto que O rejeita e O condena, perdendo a chance de termos a vida em plenitude. Como discípulos e discípulas Dele, permaneçamos firmes na primeira opção. “Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos” (Hebreus 4,14b). que Deus nos ajude  a sermos de fato assim, pois o mundo está precisando de pessoas cada vez mais comprometidas com a causa pela qual Jesus lutou até o fim!  
Ao final de sua narrativa da paixão, João diz assim: “Eu vi, eu dou testemunho e meu testemunho é verdadeiro! Eu sei que estou dizendo a verdade, para que vocês também acreditem!” (João 19,35).
Vamos seguir o convite de João e acreditar! Para além da cruz há uma manhã de ressurreição!

  1. A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

A celebração da Paixão e Morte do Senhor tem especial significado na vida do Cristão. É uma celebração da Palavra com distribuição da comunhão e que inclui alguns ritos significativos para a nossa Igreja: a oração universal e a adoração do Cristo na cruz. É também uma celebração marcada pelo silêncio, pela piedade e pelo sincero desejo de acompanhar os passos de Jesus em sua paixão e morte. É a segunda etapa da festa que costumamos chamar “Tríduo Pascal”. O Tríduo termina no Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor com a celebração das vésperas, ou ofício da tarde. É uma festa única que nos introduz no Mistério do Senhor, de seu amor extremado e de sua livre doação para salvar a todos e para levar a termo a vontade do Pai. Por isso mesmo tão cara a todos nós que cremos. Convém mesmo que seja preparada e celebrada com intensidade na Divina Liturgia.
Um dos ritos que estão previstos para celebrarmos esse mistério é o beijo da cruz. O rito é bastante significativo e eloqüente: cada fiel se aproxima, beija ou se inclina diante da Cruz do Senhor. O beijo é um gesto significativo presente em outras passagens dos evangelhos: o beijo do Pai que reencontra o filho perdido, na parábola lucana (Lucas 15,20), e a mulher que beija lava os pés de do Senhor com lágrimas, enxugando-o com os cabelos (Lucas 7,36-50). O primeiro demonstra o afeto do Pai que reencontra o seu filho que estava morto e tornou a viver. O segundo é o beijo de quem muito amou e por isso foi perdoada. Esses dois trechos nos ajudam a entender o que fazemos diante da cruz do Senhor ao beijá-la. Expressamos com esse mesmo rito a secreta alegria deste dia, quando o nosso olhar é orientado para a Ressurreição. Nosso beijo, como aquele do Pai misericordioso da Parábola, diante do filho despojado, confessa a Ressurreição que o sofrimento e a paixão escondem. Cobrimos de beijo aquele que por sua morte e ressurreição torna ao seio do Pai, confessando que estava morto mas tornou a viver (Lucas 15,32).O segundo beijo demonstra o amor da pecadora (não confundir com Madalena ou com Maria, a irmã de Lázaro) que alcançando o perdão, alcança igualmente a vida. É o beijo que não só se dá, mas que desfruta do amor divino que foi derramado no alto da Cruz, como perfume sobre a nossa humanidade. Amor mais forte do que a morte (Cântico dos Cânticos 8,6), capaz de ressuscitar (1João 3,14).

  1. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Jesus dá sua vida para o perdão dos pecados. Ele é o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. Jesus passou pela violência, pagou o mal com o bem. Venceu o ódio com amor. A paz do mundo só será possível se descobrirmos o caminho do perdão.
O mistério da Páscoa nasce a partir do sangue derramado de Cristo na cruz. Na celebração da paixão e morte de Cristo fazemos memória da sua entrega ao Pai, em vista do Reino. Unindo nossos passos aos passos de Cristo morto, elevamos nossa oração por toda a humanidade que foi resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando o seu corpo e o seu sangue, recebemos dele a força para vencer as cruzes do nosso dia-a-dia.
Participando da comunhão eucarística, vamos assumir e assimilar sacramentalmernte toda a entrega de Jesus por nós, para que, como discípulos e discípulas do Mestre e Servo de todos, Rei universal e Sacerdote único, possamos viver o que Ele viveu. Por isso, após a comunhão, reza-se a seguinte oração: “Ó Deus, que nos renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo, conservai em nós a obra de vossa misericórdia, para que, pela participação deste mistério, vos consagremos toda a nossa vida”. Ao que todos respondem afirmativamente: “Amém!”.


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