SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR
ANO B
17 de maio de 2015
Leituras
Atos 1,1-11. Durante quarenta dias,
apareceu-lhes falando do Reino de Deus.
Salmo 46/47,2-3.6-9. Por entre
aclamações Deus se elevou.
Efésios 1,17-23. Que ele abra o vosso coração
à sua luz.
Marcos 16,15-20. Quem crer e for
batizado será salvo.
- PONTO DE PARTIDA
Hoje é o Domingo
da Ascensão do Senhor. Chegamos, hoje, a um momento muito importante dentro do
Tempo Pascal. É uma festa que tem o seu sentido dentro do espírito que
caracteriza estes cinquenta dias de Páscoa. É bom lembrar que estamos vivenciamos
dias de Páscoa e não após a Páscoa.
O mistério da
Ascensão do Senhor significa “elevação, subida” também para nós, seus
discípulos e discípulas missionários que têm como meta a evangelização. Ele
elevou-se ao céu, não para afastar-se de nossa humanidade, mas para dar a todos
nós a certeza de que nos conduzirá à gloria da imortalidade.
Unidos em
comunhão com todos os cristãos espalhados pelo mundo celebramos Ascensão de
Jesus, plenitude da Páscoa, cuja memória nós atualizamos na Eucaristia. Jesus
conclui sua missão, despede-se dos seus discípulos, mas sem abandoná-los e é
elevado e glorificado pelo Pai. A Igreja, convocada para dar continuidade à
missão de Jesus, prepara-se para celebrar a Solenidade de Pentecostes e
comemora também o dia das comunicações.
2. DA PALAVRA
CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
Não podemos
esquecer que a ascensão de Cristo está intimamente ligada com a sua
Ressurreição. É parte integrante desse movimento de volta do Cristo ao Pai.
Depois de passar pelo túnel da morte, Ele volta ao Pai, abrindo para nós a
possibilidade de ingressar no Reino definitivo. Neste dia a nossa frágil
natureza humana penetra na glória de Deus. Cristo sobe aos céus para nos tornar
participantes de sua divindade. Enquanto contemplamos o mistério da volta de
Cristo ao Pai, precisamos tomar consciência que nossa missão é testemunhá-lo no
coração no coração das realidades humanas.
A teologia da
Ascensão, mais ainda que a da Ressurreição, exige que se supere adequadamente a
sua representação sensível. Antes de tudo é preciso saber que ela se insere no
Mistério Pascal. Pode-se dizer que a Páscoa é um movimento dotado de três
momentos: o primeiro, a Sua morte, a Ressurreição em sentido restrito, consiste
na superação do Poder da Morte e, portanto, na dissolução deste, o que, em
termos afirmativos, pode conceber-se como Nova Criação. Isto aparece claramente
no segundo movimento, consiste na manifestação do Senhor Ressuscitado: a Vida
que então brota manifesta-se divina e, com isto, põe em questão a sua própria
visibilidade (cf. João 20,19-28). Esta se supera na Ascensão, mas esta
superação é apenas um aspecto deste terceiro momento do Mistério Pascal: o
essencial deste é revelar a Vida Divina, agora humanizada, de volta ao Pai e,
portanto, reintegrando a todos nós na esfera originária do Divino e, agora, não
mais como intenção, mas segundo a forma efetiva que lhe é dada pela
Ressurreição. É como terceiro momento do Mistério Pascal e, portanto, na
unidade deste, que a Ascensão deve ser compreendida.
Quem é fiel ao
projeto do Pai, vai ser “elevado”, isto é, terá vida plena e glorificada junto
à Trindade. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, á vida
plena. A Igreja tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe
confiou? O nosso testemunho tem transformado a realidade que nos rodeia? É
relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais
de olhar para o céu e só louvar do
que se comprometerem na transformação do mundo. Estamos, efetivamente, atentos
aos problemas e às angústias dos seres humanos, ou vivemos de olhos postos no
céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações,
pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o
coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os seres humanos,
particularmente com aqueles que sofrem?
a) A oração. Que significa abrir o coração
a Jesus ressuscitado que estreita os nossos laços amorosos com Ele. Isso requer
duas atitudes que, em nossa vida, encontram a sua síntese: uma atitude de oração e uma atitude de ação. Deus não é a nossa
subjetividade ou uma sensação psicológica. Deus é uma pessoa e, como tal, entramos em relação com Ele assim como nos
relacionamos com as pessoas a quem amamos: conversando, criando laços,
partilhando intimidade. Eis a prática da oração. A oração é o nosso momento de
diálogo e abertura com Cristo. Quando rezamos, deixamos que o Espírito dilate o
nosso coração para que possamos, aí dentro, apreender, na fé, a presença
inexplicável de Deus. Por isso, o cristão que não reza é como um marido que não
dialoga com sua esposa. Aos poucos, um se fecha ao outro, e a relação vai
esvaziando-se. Quando rezamos, somos como a terra que, sob a chuva, se abre
para fecundar a semente. Como diz Maria, nessa abertura orante, Deus realiza em
nós maravilhas...
b) A ação. A atitude da ação é consequência,
também causa, da nossa atitude de oração. Esta nos torna mais sensíveis à
presença do Senhor ressuscitado em tudo que é a negação do “céu” e se nos
apresenta como sinal do “inferno”: a fome, a tortura, o desemprego, o egoísmo,
a indiferença pelas pessoas, as doenças sem tratamento, as guerras, o
terrorismo e tantos outros males que assolam a humanidade. É aí que o Senhor
quer ser encontrado, servido e amado, para que possamos transformar esse
“inferno”, fruto do pecado estruturado e historizado no sistema capitalista, em
“céu”, ou seja, em realidade justa, livre e verdadeira.
Há
uma definição de inferno dada pelo escritor russo Dostoievski, que permanece
atual: “O inferno é a ausência de amor”. Amar
não é apenas querer bem uma pessoa. É querer bem todas as
pessoas, principalmente estes que mais necessitam do nosso amor, da nossa
doação, da nossa luta: os trabalhadores oprimidos por uma ordem social que
procura preservar a divisão dos homens e mulheres em diferentes classes
sociais. Se, de alguma forma, nos voltamos para as causas dos trabalhadores ou,
como tais, assumimos as aspirações de nossa classe, estamos fazendo o que Jesus
fez: subindo da terra ao céu, isto é, superando os sinais de pecado, as forças
da morte e implantando essa realidade nova e justa que é o pré anuncio do Reino
que está prometido pelo Pai. Portanto há em nossa vida um movimento de
“ascensão”, todas as vezes que procuramos quebrar as barreiras do pecado, da
injustiça, da morte, para que as pessoas tenham a vida e a vida em abundância,
como diz Jesus no Evangelho de João (10,10).
Na
carta aos Efésios é dito que Jesus “está acima de todas as autoridades que
existem neste mundo”. Eis o grande desafio lançado pela Igreja primitiva:
obedecer antes a Deus que aos homens. Para nós, cristãos, as determinações
humanas são válidas na medida em que não contrariam as exigências de nossa fé e
os imperativos de nossa caridade. Não podemos obedecer uma autoridade que
pretende ser mais sábia que Deus e mais poderosa que o Cristo Senhor. A
presença ressuscitada de Jesus aparece, hoje, nos sinais de justiça, de
liberdade, de amor, que vemos em cada pessoa, nos movimentos sociais que lutam
por uma justa reforma agrária e pão, liberdade, por terra nos centros urbanos,
por moradia...
Como ouvimos
na segunda leitura, dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que
devemos viver numa comunhão total com Ele e que, nessa comunhão, recebemos, a
cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão,
em solidariedade total com todos os nossos irmãos e irmãs, membros do mesmo
“corpo” alimentados pela mesma vida. Paulo implora aos cristãos de Éfeso a
graça do conhecimento do mistério de Deus. Participando deste segredo, saibamos
perceber a riqueza da nossa fé comprometida com a comunidade e também com as
lutas sociais.
É oportuno
citar uma homilia de Santo Agostinho, bispo do século V, para a festa de hoje:
Hoje, nosso
Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba também com Ele o nosso coração. Ouçamos
as palavras do Apóstolo: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por
alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus;
aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Colossenses 3,1-2).
Assim como ele subiu sem se afastar de nós, também nós subimos com Ele, embora
não se tenha realizado ainda em nosso corpo o que nos está prometido. Cristo já
foi levado ao mais alto dos céus; contudo continua sofrendo na terra através
das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Dou testemunho dessa
verdade quando se fez ouvir lá no céu: Saulo, Saulo, por que me persegues?”(Atos
9,4). E ainda: “Eu estava com fome e me destes de comer” (Mateus 25,35).
Cristo está no
céu, mas também está conosco. É como dizia Santo Agostinho: Nós, mesmo permanecendo na terra, estamos
também com Ele. Por sua divindade, por seu poder e por seu amor Ele está
conosco. Embora não possamos realizar isso pela divindade, como Ele, ao menos
podemos realizar pelo amor que temos pra com Ele.
Existe a
unidade entre Cristo, nossa cabeça, e nós, seu corpo. Ninguém senão Ele poderia
realizar esta unidade que nos identifica com Ele mesmo, pois tornou-se Filho do
Homem por nossa causa, e nós, por meio Dele, nos tornamos filhos de Deus.
Contando
os últimos dias da presença de Jesus entre os seus, Lucas quer chamar a atenção
para a última palavra de Jesus. Escutando-a, sejamos enviados tal como os
apóstolos.
O
mistério da Ascensão do Senhor nos mergulha no mistério da Aliança que existe
entre o céu e a terra, entre o divino e o humano. Santo Agostinho diz que “Jesus
Cristo não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afastou de
nós quando subiu novamente ao céu”. Ele, por sua misericórdia, mergulhou até o
fundo da nossa condição humana e, depois, subiu ao céu levando a humanidade
consigo, fazendo-nos participar desse mistério da Ascensão.
A
assembleia eucarística da Ascensão aprofunda a fé na divindade do Senhor Jesus.
Mas é uma fé de companheiro de Deus: ela colabora com ele na espiritualização
do universo, não sem lentidão e despojamento, pois este projeto só pode ser
realizado em plenitude para depois da morte. A eucaristia também é o meio
através do qual a Igreja se encontra com seu Senhor na oração de intercessão
que Ele que não desiste de formular para todos os seres humanos diante do trono
de seu Pai.
3. A PALAVRA SE FAZ
CELEBRAÇÃO
O assentimento do Pai
Festejar a
“volta” de Jesus para o Pai, longe de nos entristecer, alegra-nos, pois se
trata da festa do assentimento do Pai à experiência terrena de Jesus. É uma
espécie de pronunciamento de Deus acerca do itinerário pascal de Jesus,
reconhecendo-lhe finalmente como Filho com toda pompa e circunstância (isto literalmente,
o que é óbvio pelas narrativas lucanas). No âmbito da experiência ritual,
podemos perceber que a fazemos em toda Eucaristia , quando nosso coração a Deus se
eleva, tornando-se coração filial, pois só a partir de tal posição (de filhos
no Filho) podemos dar graças a Deus: Corações ao alto! Nosso coração está em
Deus! A experiência da ascensão nos alcança cada vez que fazemos a Eucaristia
(a Anáfora): “Assim, o que na vida do nosso Redentor era visível passou aos
ritos sacramentais”.
Ressurreição e
Ascensão
Em toda
celebração Eucarística fazemos memória da Ascensão do Senhor. Na maioria das
orações Eucarísticas ela é recordada explícita ou implicitamente. A Ascensão
junto com o Pentecostes são facetas de um só acontecimento que é a Páscoa de
Jesus. Nós o desmembramos para melhor celebrar cada aspecto.
No caso da Ascensão,
o aspecto nos é clarificado pela oração depois da comunhão, que retoma o
significado do diálogo invitatório da oração eucarística: “Deus eterno e
todo-poderoso, que nos concedeis viver na terra com as realidades do céu, fazei
que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós nossa
humanidade”.
A experiência
litúrgica da assembleia consta, toda ela, progressivamente, de pôr o coração em
Deus no sentido de decidir e agir de seu lugar, da sua direita, pois em Jesus
já estamos eternamente ao lado do Pai. A Eucaristia celebrada pela comunidade é
fundamental para assegurar que estamos, porém, agindo conforme o coração de
Deus que nos visita em seu filho Ressuscitado (cf. Benedictus, como canto de
comunhão para o tempo pascal). O itinerário quaresmal transformou o nosso
coração de pedra em coração de carne, coração de filhos no Filho!
4. LIGANDO A
PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA
Ao
celebrarmos a memória da Ascensão de Jesus aos céus, entramos no sentido mais
profundo da sua ressurreição e da missão que Ele nos confiou. Paulo nos diz que
o Pai exaltou Jesus como Senhor do céu e da terra. Deus fez dele a plenitude de
tudo o que existe. Nele, todos os elementos do universo encontram unidade e
sentido.
Neste
sentido, agradecendo a Deus essa elevação sagrada de todo o universo com Jesus,
recebemos de Deus a confirmação de que nós todos, seres humanos, fomos, com
Ele, introduzidos na intimidade definitiva de Deus. Com Maria e os apóstolos,
aguardamos a força do alto, conforme a promessa de Jesus. Fazemos isso em
comunhão com todas as Igrejas cristãs, iniciando, hoje, a novena de Pentecostes
e a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
Atentos
às orações litúrgicas da festa de hoje, veneramos ai, presentes em forma de
oração, o que significa a festa da Ascensão do Senhor: “já é nossa vitória”;
“comunhão de dons entre o céu e a terra” (sobre as oferendas); “subiu para
tornar-nos participantes da sua divindade” (prefácio II); “no céu está a nossa
humanidade” (após a comunhão); e “subiu para dar-nos a certeza de que nos
conduzirá à glória da imortalidade” (prefácio I).
Para
nós, ministros e assembleia, esta festa significa afirmar que somos membros de
seu corpo, chamados na esperança a participar de sua glória (coleta).
Celebramos,
portanto, com os corações voltados para o alto (após a comunhão), transbordando
de alegria pascal (prefácio I).
Pe. Benedito Mazeti
Assessor de Liturgia Diocese de São José Rio Preto.
Pe. Benedito Mazeti
Assessor de Liturgia Diocese de São José Rio Preto.
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