sábado, 16 de maio de 2015

“VÓS, QUE DESCENTES ATÉ NÓS PELO CAMINHO DO AMOR, PELO MESMO CAMINHO, FAZEI-NOS SUBIR ATÉ VÓS”

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR
ANO B
17 de maio de 2015

Leituras

Atos 1,1-11. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus.
Salmo 46/47,2-3.6-9. Por entre aclamações Deus se elevou.
Efésios 1,17-23. Que ele abra o vosso coração à sua luz.
Marcos 16,15-20. Quem crer e for batizado será salvo.



  1. PONTO DE PARTIDA
Hoje é o Domingo da Ascensão do Senhor. Chegamos, hoje, a um momento muito importante dentro do Tempo Pascal. É uma festa que tem o seu sentido dentro do espírito que caracteriza estes cinquenta dias de Páscoa. É bom lembrar que estamos vivenciamos dias de Páscoa e não após a Páscoa.
O mistério da Ascensão do Senhor significa “elevação, subida” também para nós, seus discípulos e discípulas missionários que têm como meta a evangelização. Ele elevou-se ao céu, não para afastar-se de nossa humanidade, mas para dar a todos nós a certeza de que nos conduzirá à gloria da imortalidade.
Unidos em comunhão com todos os cristãos espalhados pelo mundo celebramos Ascensão de Jesus, plenitude da Páscoa, cuja memória nós atualizamos na Eucaristia. Jesus conclui sua missão, despede-se dos seus discípulos, mas sem abandoná-los e é elevado e glorificado pelo Pai. A Igreja, convocada para dar continuidade à missão de Jesus, prepara-se para celebrar a Solenidade de Pentecostes e comemora também o dia das comunicações. 

2.  DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Não podemos esquecer que a ascensão de Cristo está intimamente ligada com a sua Ressurreição. É parte integrante desse movimento de volta do Cristo ao Pai. Depois de passar pelo túnel da morte, Ele volta ao Pai, abrindo para nós a possibilidade de ingressar no Reino definitivo. Neste dia a nossa frágil natureza humana penetra na glória de Deus. Cristo sobe aos céus para nos tornar participantes de sua divindade. Enquanto contemplamos o mistério da volta de Cristo ao Pai, precisamos tomar consciência que nossa missão é testemunhá-lo no coração no coração das realidades humanas.
A teologia da Ascensão, mais ainda que a da Ressurreição, exige que se supere adequadamente a sua representação sensível. Antes de tudo é preciso saber que ela se insere no Mistério Pascal. Pode-se dizer que a Páscoa é um movimento dotado de três momentos: o primeiro, a Sua morte, a Ressurreição em sentido restrito, consiste na superação do Poder da Morte e, portanto, na dissolução deste, o que, em termos afirmativos, pode conceber-se como Nova Criação. Isto aparece claramente no segundo movimento, consiste na manifestação do Senhor Ressuscitado: a Vida que então brota manifesta-se divina e, com isto, põe em questão a sua própria visibilidade (cf. João 20,19-28). Esta se supera na Ascensão, mas esta superação é apenas um aspecto deste terceiro momento do Mistério Pascal: o essencial deste é revelar a Vida Divina, agora humanizada, de volta ao Pai e, portanto, reintegrando a todos nós na esfera originária do Divino e, agora, não mais como intenção, mas segundo a forma efetiva que lhe é dada pela Ressurreição. É como terceiro momento do Mistério Pascal e, portanto, na unidade deste, que a Ascensão deve ser compreendida.
Quem é fiel ao projeto do Pai, vai ser “elevado”, isto é, terá vida plena e glorificada junto à Trindade. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá, como Ele, á vida plena. A Igreja tem sido fiel à missão que Jesus, ao deixar este mundo, lhe confiou? O nosso testemunho tem transformado a realidade que nos rodeia? É relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu e só louvar do que se comprometerem na transformação do mundo. Estamos, efetivamente, atentos aos problemas e às angústias dos seres humanos, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os seres humanos, particularmente com aqueles que sofrem?
a) A oração. Que significa abrir o coração a Jesus ressuscitado que estreita os nossos laços amorosos com Ele. Isso requer duas atitudes que, em nossa vida, encontram a sua síntese: uma atitude de oração e uma atitude de ação. Deus não é a nossa subjetividade ou uma sensação psicológica. Deus é uma pessoa e, como tal, entramos em relação com Ele assim como nos relacionamos com as pessoas a quem amamos: conversando, criando laços, partilhando intimidade. Eis a prática da oração. A oração é o nosso momento de diálogo e abertura com Cristo. Quando rezamos, deixamos que o Espírito dilate o nosso coração para que possamos, aí dentro, apreender, na fé, a presença inexplicável de Deus. Por isso, o cristão que não reza é como um marido que não dialoga com sua esposa. Aos poucos, um se fecha ao outro, e a relação vai esvaziando-se. Quando rezamos, somos como a terra que, sob a chuva, se abre para fecundar a semente. Como diz Maria, nessa abertura orante, Deus realiza em nós maravilhas...
b) A ação. A atitude da ação é consequência, também causa, da nossa atitude de oração. Esta nos torna mais sensíveis à presença do Senhor ressuscitado em tudo que é a negação do “céu” e se nos apresenta como sinal do “inferno”: a fome, a tortura, o desemprego, o egoísmo, a indiferença pelas pessoas, as doenças sem tratamento, as guerras, o terrorismo e tantos outros males que assolam a humanidade. É aí que o Senhor quer ser encontrado, servido e amado, para que possamos transformar esse “inferno”, fruto do pecado estruturado e historizado no sistema capitalista, em “céu”, ou seja, em realidade justa, livre e verdadeira.
            Há uma definição de inferno dada pelo escritor russo Dostoievski, que permanece atual: “O inferno é a ausência de amor”. Amar não é apenas querer bem uma pessoa. É querer bem todas as pessoas, principalmente estes que mais necessitam do nosso amor, da nossa doação, da nossa luta: os trabalhadores oprimidos por uma ordem social que procura preservar a divisão dos homens e mulheres em diferentes classes sociais. Se, de alguma forma, nos voltamos para as causas dos trabalhadores ou, como tais, assumimos as aspirações de nossa classe, estamos fazendo o que Jesus fez: subindo da terra ao céu, isto é, superando os sinais de pecado, as forças da morte e implantando essa realidade nova e justa que é o pré anuncio do Reino que está prometido pelo Pai. Portanto há em nossa vida um movimento de “ascensão”, todas as vezes que procuramos quebrar as barreiras do pecado, da injustiça, da morte, para que as pessoas tenham a vida e a vida em abundância, como diz Jesus no Evangelho de João (10,10).
            Na carta aos Efésios é dito que Jesus “está acima de todas as autoridades que existem neste mundo”. Eis o grande desafio lançado pela Igreja primitiva: obedecer antes a Deus que aos homens. Para nós, cristãos, as determinações humanas são válidas na medida em que não contrariam as exigências de nossa fé e os imperativos de nossa caridade. Não podemos obedecer uma autoridade que pretende ser mais sábia que Deus e mais poderosa que o Cristo Senhor. A presença ressuscitada de Jesus aparece, hoje, nos sinais de justiça, de liberdade, de amor, que vemos em cada pessoa, nos movimentos sociais que lutam por uma justa reforma agrária e pão, liberdade, por terra nos centros urbanos, por moradia...

Como ouvimos na segunda leitura, dizer que fazemos parte do “corpo de Cristo” significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que, nessa comunhão, recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos e irmãs, membros do mesmo “corpo” alimentados pela mesma vida. Paulo implora aos cristãos de Éfeso a graça do conhecimento do mistério de Deus. Participando deste segredo, saibamos perceber a riqueza da nossa fé comprometida com a comunidade e também com as lutas sociais.
É oportuno citar uma homilia de Santo Agostinho, bispo do século V, para a festa de hoje:
Hoje, nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba também com Ele o nosso coração. Ouçamos as palavras do Apóstolo: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Colossenses 3,1-2). Assim como ele subiu sem se afastar de nós, também nós subimos com Ele, embora não se tenha realizado ainda em nosso corpo o que nos está prometido. Cristo já foi levado ao mais alto dos céus; contudo continua sofrendo na terra através das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Dou testemunho dessa verdade quando se fez ouvir lá no céu: Saulo, Saulo, por que me persegues?”(Atos 9,4). E ainda: “Eu estava com fome e me destes de comer” (Mateus 25,35).
Cristo está no céu, mas também está conosco. É como dizia Santo Agostinho:  Nós, mesmo permanecendo na terra, estamos também com Ele. Por sua divindade, por seu poder e por seu amor Ele está conosco. Embora não possamos realizar isso pela divindade, como Ele, ao menos podemos realizar pelo amor que temos pra com Ele.
Existe a unidade entre Cristo, nossa cabeça, e nós, seu corpo. Ninguém senão Ele poderia realizar esta unidade que nos identifica com Ele mesmo, pois tornou-se Filho do Homem por nossa causa, e nós, por meio Dele, nos tornamos filhos de Deus.  
            Contando os últimos dias da presença de Jesus entre os seus, Lucas quer chamar a atenção para a última palavra de Jesus. Escutando-a, sejamos enviados tal como os apóstolos.
            O mistério da Ascensão do Senhor nos mergulha no mistério da Aliança que existe entre o céu e a terra, entre o divino e o humano. Santo Agostinho diz que “Jesus Cristo não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afastou de nós quando subiu novamente ao céu”. Ele, por sua misericórdia, mergulhou até o fundo da nossa condição humana e, depois, subiu ao céu levando a humanidade consigo, fazendo-nos participar desse mistério da Ascensão.
            A assembleia eucarística da Ascensão aprofunda a fé na divindade do Senhor Jesus. Mas é uma fé de companheiro de Deus: ela colabora com ele na espiritualização do universo, não sem lentidão e despojamento, pois este projeto só pode ser realizado em plenitude para depois da morte. A eucaristia também é o meio através do qual a Igreja se encontra com seu Senhor na oração de intercessão que Ele que não desiste de formular para todos os seres humanos diante do trono de seu Pai.

3. A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

O assentimento do Pai

Festejar a “volta” de Jesus para o Pai, longe de nos entristecer, alegra-nos, pois se trata da festa do assentimento do Pai à experiência terrena de Jesus. É uma espécie de pronunciamento de Deus acerca do itinerário pascal de Jesus, reconhecendo-lhe finalmente como Filho com toda pompa e circunstância (isto literalmente, o que é óbvio pelas narrativas lucanas). No âmbito da experiência ritual, podemos perceber que a fazemos em toda Eucaristia, quando nosso coração a Deus se eleva, tornando-se coração filial, pois só a partir de tal posição (de filhos no Filho) podemos dar graças a Deus: Corações ao alto! Nosso coração está em Deus! A experiência da ascensão nos alcança cada vez que fazemos a Eucaristia (a Anáfora): “Assim, o que na vida do nosso Redentor era visível passou aos ritos sacramentais”.

Ressurreição e Ascensão

Em toda celebração Eucarística fazemos memória da Ascensão do Senhor. Na maioria das orações Eucarísticas ela é recordada explícita ou implicitamente. A Ascensão junto com o Pentecostes são facetas de um só acontecimento que é a Páscoa de Jesus. Nós o desmembramos para melhor celebrar cada aspecto.
No caso da Ascensão, o aspecto nos é clarificado pela oração depois da comunhão, que retoma o significado do diálogo invitatório da oração eucarística: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis viver na terra com as realidades do céu, fazei que nossos corações se voltem para o alto, onde está junto de vós nossa humanidade”.
A experiência litúrgica da assembleia consta, toda ela, progressivamente, de pôr o coração em Deus no sentido de decidir e agir de seu lugar, da sua direita, pois em Jesus já estamos eternamente ao lado do Pai. A Eucaristia celebrada pela comunidade é fundamental para assegurar que estamos, porém, agindo conforme o coração de Deus que nos visita em seu filho Ressuscitado (cf. Benedictus, como canto de comunhão para o tempo pascal). O itinerário quaresmal transformou o nosso coração de pedra em coração de carne, coração de filhos no Filho!

4.  LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

            Ao celebrarmos a memória da Ascensão de Jesus aos céus, entramos no sentido mais profundo da sua ressurreição e da missão que Ele nos confiou. Paulo nos diz que o Pai exaltou Jesus como Senhor do céu e da terra. Deus fez dele a plenitude de tudo o que existe. Nele, todos os elementos do universo encontram unidade e sentido.
            Neste sentido, agradecendo a Deus essa elevação sagrada de todo o universo com Jesus, recebemos de Deus a confirmação de que nós todos, seres humanos, fomos, com Ele, introduzidos na intimidade definitiva de Deus. Com Maria e os apóstolos, aguardamos a força do alto, conforme a promessa de Jesus. Fazemos isso em comunhão com todas as Igrejas cristãs, iniciando, hoje, a novena de Pentecostes e a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
            Atentos às orações litúrgicas da festa de hoje, veneramos ai, presentes em forma de oração, o que significa a festa da Ascensão do Senhor: “já é nossa vitória”; “comunhão de dons entre o céu e a terra” (sobre as oferendas); “subiu para tornar-nos participantes da sua divindade” (prefácio II); “no céu está a nossa humanidade” (após a comunhão); e “subiu para dar-nos a certeza de que nos conduzirá à glória da imortalidade” (prefácio I).
            Para nós, ministros e assembleia, esta festa significa afirmar que somos membros de seu corpo, chamados na esperança a participar de sua glória (coleta).
            Celebramos, portanto, com os corações voltados para o alto (após a comunhão), transbordando de alegria pascal (prefácio I).

Pe. Benedito Mazeti
Assessor de Liturgia Diocese de São José Rio Preto. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário