terça-feira, 31 de março de 2015

“E TENDO AMADO OS SEUS QUE ESTAVAM NO MUNDO AMOU-OS ATÉ O FIM”

QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR
ANO B
02 de abril de 2015

Leituras

     Êxodo 12,1-8.11-14. E comerão às pressas, pois é a Páscoa do Senhor.
     Salmo 115/116,12-13.15-116bc.17-18. Elevo o cálice da minha salvação.
     1Coríntios 11,23-26. Fazei isto em memória de mim.
     João 13,1-15. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.



            1.    PONTO DE PARTIDA

Quinta-Feira Santa da Ceia do Senhor. Com esta celebração, iniciamos o Tríduo Pascal, no qual fazemos memória do nucleio central de nossa fé: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. No Tríduo Pascal, celebramos a Páscoa de Jesus em três dimensões. Hoje celebramos a Páscoa da ceia. Amanhã, celebraremos a Páscoa da paixão. Na Vigília Pascal e no domingo de Páscoa, celebraremos a Páscoa da ressurreição.
Na Páscoa da ceia, celebramos o mandato novo de Jesus na ceia que realizou com seus apóstolos: “Fazei isto em memória de mim”. Naquela celebração pascal, Jesus dá uma prova concreta de amor por seu povo, pois Ele se doa totalmente a nós. O centro do rito é uma ceia, com a família reunida, com a comunidade reunida.
E essa doação e entrega se concretiza no serviço que Jesus presta, simbolizado no gesto do lava-pés. Isso nos sugere que a partilha di banquete eucarístico deve ser continuada no serviço fraterno da caridade e na busca da inclusão social.

             2.    REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos
Primeira leitura – Êxodo 12,1-8.11-14. É a narrativa de como os judeus deviam celebrar a Páscoa, ao deixar o Egito. A origem da está na tradição mais antiga de Israel como povo de pastores. Imolava-se um cordeiro e tingia-se com seu sangue a porta da tenda para afugentar o mal, as pragas que poderia acontecer ao rebanho. Com a libertação do Egito, tornou-se a festa central do Povo de Deus, o dia nacional da libertação, quando o Senhor, com mão forte e braço estendido, libertou seu povo da escravidão. “Esse dia será para vocês um memorial permanente” (Êxodo 12,14).  Portanto o ritual da Páscoa do Primeiro Testamento é a transformação de um rito celebrado por nômades por ocasião de uma festa pastoril da primavera.

A citação abreviada da fórmula que fala da atuação de Deus “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 12,12; cf. Êxodo 20,2), transforma a celebração da Páscoa em uma revelação atual do Deus de Israel, que envolve o passado e o futuro de Israel. Por isso, cada celebração nova da ação libertadora de Deus no passado encerra uma confissão de fé na atuação presente e um ato de esperança na atuação futura de Deus.
Com relação ao rito da ceia pascal, o texto nos dá algumas indicações importantes:
- a Páscoa marca o início de uma nova era, o tempo da libertação. É a vitória do povo sobre as forças opressoras;
- para que esta nova era aconteça é preciso que haja partilha (versículo 4);
- é uma festa que visa a preservação da vida: servirá de sinal para a preservação de Israel como povo, pois estava ameaçado de desaparecer pela política do Faraó;
- é uma festa de memória histórica. É celebrada às pressas. Os que dela participam devem estar preparados para uma longa viagem que os levará para fora do sistema opressor e os conduzirá a uma nova sociedade baseada na justiça e na liberdade.
 Descobrindo em Jesus o verdadeiro Cordeiro (João 13,1; 18,28) e fazendo coincidir a imolação dos cordeiros no Templo de Jerusalém com a morte de Cristo (João 9,14.31.42; 1Coríntios 5,6-8), João convida os cristãos a compreenderem que toda doutrina do rito pascal se consuma no sacrifício de Cristo que, de fato, constitui o povo definitivo, obtém-lhe verdadeiramente a libertação total do domínio do mal, e situa o cristão como um peregrino em marcha para a terra prometida (1Pedro 1,17) onde o Cordeiro reinará cercado de todo o povo resgatado por Ele (Apocalipse 5,6-13; 7,2-17; 12,11; 19,1-9).

Salmo responsorial 116/115,12-13.15-16bc.17-18. O Salmo 116/115 é um canto Eucarístico, ou de ação de graças. A ação de graças incluiu vários ritos: invocação do Senhor para o louvor, cumprimento dos votos, testemunho público diante da assembléia; e um rito com um “cálice de salvação”, talvez para beber. Nos versículos de 15 a 16, aparece o tema da libertação: a libertação pode ser imagem, pois está unida com a salvação no perigo de morte.
Mostra de maneira clara no Salmo um agradecimento de alguém que recebeu de Deus uma grande graça, a graça da vida, a libertação de alguma doença (versículo 8). Por isso o salmista, com muita confiança, faz um gesto público de louvor, “erguendo o cálice da salvação”. Essa pessoa que partilhar com o povo a ação de Deus na sua vida.
Nossa liturgia eucarística retomou dois versículos deste Salmo: ma missa oferecemos ao Pai o sacrifício do seu Filho: é a nossa suprema ação de graças, que Ele aceita; é o cumprimento dos nossos votos na presença de toda a assembléia eucarística. Depois participamos deste “cálice da salvação”, invocando o nome do Senhor.
O rosto de Deus neste Salmo é de um Deus que inclina o ouvido, salva e liberta. É o mesmo esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o Deus deste Salmo é o mesmo do êxodo e da Aliança.
Uma frase importante do Salmo é: “É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos, seus amigos”. Custa para Deus aceitar que a vida de seus fiéis desapareça prematuramente. Deus sofre quando um de seus servos morre de uma enfermidade fatal, isto é, sente muito quando a doença acaba com a vida de uma servo seu. Porque Ele é o Deus da vida.
Foi por isso que Jesus curou todos os doentes que encontrou em suas viagens missionárias, vencendo até a própria morte. E por causa disso muitos aprenderam a amar Deus Pai em Deus Filho.
Com o salmista, vamos erguer o cálice da libertação, porque, mesmo vivendo no meio dos conflitos e sofrimentos, experimentamos a alegria da sua presença amorosa no meio de nós:

O CÁLICE POR NÓS ABENÇOADO
É ANOSSA COMUNHÃO COM O SANGUE DO SENHOR.

Segunda leitura – 1Coríntios 11,23-26.  De início, o Apóstolo indica as circunstâncias precisas do acontecimento: “Na noite em que foi entregue o Senhor Jesus tomou o pão...” (11,23). Ele se refere não à última ceia, mas  à noite em que o Cristo foi entregue, noite que veio à tona a maldade humana, a traição de Judas Iscariotes, a dispersão dos discípulos, a negação de Pedro, mas, ao mesmo tempo, deu origem ao supremo gesto de amor de Cristo, a Eucaristia, que sintetiza o todo o sentido de sua vida e de sua morte.

A mais antiga narrativa da Ceia do Senhor vem do Apóstolo Paulo. Ele escreveu a uma comunidade dividida e que não estava ligando a celebração da Ceia à repartição dos bens e a solidariedade. As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia como memorial da Páscoa de Jesus. O contexto dessa narração nos mostra como Paulo insiste que não se trata apenas de um rito, mas de uma prática profunda de comunhão fraterna.
A Ceia do Senhor é comemoração da morte do Senhor e proclamação de Sua volta. Participar nesta Ceia pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo é confessar que a nossa vida repousa sobre novos eixos. Os eixos do pecado e da morte, que marcaram a existência anterior, foram substituídos pelos eixos do perdão e da vida, fundamentados na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na morte, Jesus revelou que toda a razão de ser de sua vida neste mundo era existir para os outros, colocar-se a serviço dos outros e entregar-se em favor dos outros, isto é, lavar os pés uns dos outros. Na ressurreição, Deus revelou que este modo de ser-homem é o modo de existir autentico de toda pessoa humana. Crer nesta morte e ressurreição e participar nelas pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo morto e ressuscitado, é reconhecer e abraçar uma mudança radical de existir neste mundo. A razão de nossa existência será de agora em diante lavar os pés uns dos outros, isto é, dar a vida pelos outros para assim recebê-la de volta de Deus. Comungar o Corpo e Sangue de Cristo sem esta mudança é recebê-los indignamente e “comer e beber a sua própria condenação” (versículo 29).
Evangelho – João 13,1-15. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória...”. Em todo o ministério público de Jesus (João 2,11: “Este início dos sinais, Jesus o fez em Cana da Galiléia e manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele”) e o que é mais surpreendente, esta glória se manifesta na cruz (João 17,1: “Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho para que o teu Filho glorifique a ti”).
Esta glorificação acontece mediante a morte, João se refere logo de início em 13,1 (“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegou a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”).
O termo “hora” para João não indica um momento determinado do dia, mas possui uma significação simbólica e teológica e engloba a morte e glorificação do Cristo (João 7,30; 8,20; 17,1).
Na Quinta-Feira Santa a Igreja une numa mesma celebração litúrgica, a memória do Lava-pés, da Instituição da Eucaristia e da “primeira ordenação sacerdotal”. Comparando com as narrações da Última Ceia em Mateus, Marcos e Lucas com a de João, constata-se que nesta última a memória da Instituição da Última Ceia e da Nova Aliança no sangue de Jesus foi substituída pela memória do Lava-pés e do Novo Mandamento. “Como eu lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros (versículo 14), ou em um termo menos figurativo: Como eu os amei, assim também vocês devem amar uns aos outros” (versículo 34).
Através do Lava-pés, os apóstolos se tornam participantes da obra salvadora de Cristo: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (13,8), esta participação se realiza em primeiro lugar pelo batismo a que refere 13,10: “Quem se banhou não tem necessidade de se lavar, porque está inteiramente puro”. Com efeito, através do batismo, como diz Paulo, o cristão é “sepultado com o Cristo na morte para que, como o Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Romanos 6,4).
As duas referências de Judas (versículos 2 e 10) parece, pelo contrário, bastante importante para a compreensão do texto. Cristo não exclui o traidor do benefício do rito do Lava-pés; Judas, porém, é um “impuro” e o rito não terá para ele nenhuma utilidade. Ainda assim essa referência faz surgir o sentido da leitura: mesmo diante daquele que o trairá, o Senhor se abaixa.
O Evangelho de João capítulo 13 não fala da Eucaristia, como fazem Mateus, Marcos e Lucas. Em seu lugar, aparece a cena da narração do Lava-pés, durante a Última Ceia, quando Jesus celebrou a Páscoa com seus discípulos. Observando bem, João trabalhou o mistério da Eucaristia de maneira completa no capítulo 6 quando afirma que Jesus é o “Pão da vida” (João 6,35); “Eu sou o pão que desceu do céu” (João 6,41); “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (João 6,51). O Evangelho de João, escrito no final do século I da era cristã, não inclui o rito da instituição da Eucaristia (já era vivência comum nas comunidades cristãs), mas inclui a prática dela decorrente: o modo como os cristãos deviam relacionar-se uns com os outros – no serviço, no amor e na gratuidade. O exemplo fantástico é o próprio Jesus que lava os pés dos discípulos. “Se que eu sou o Mestre e Senhor lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo (...)” versículos 14-15).
Consciente de estar realizando o projeto do Pai, Jesus mostra como esse projeto se traduz em ações concretas que serão a norma da comunidade: despoja-se do manto (sinal da dignidade do senhor) e pega o avental (toalha: ferramenta do servo). É o Senhor que se torna servo. De fato, quem devia lavar os pés eram os escravos. Jesus faz tudo sozinho: derrama água, lava, enxuga. Ao retomar o manto não se diz que Ele pôs o avental e sim que vestiu o manto por cima. Isso significa que seu serviço continuará. O Lava-pés de Jesus se prolonga até a cruz e nela tem seu ponto alto.
Jesus se entrega, oferece sua vida por nossa libertação. Fazendo a refeição com os seus discípulos, ensina-nos a abrir o coração no gesto de partilha e comunhão. Comer do mesmo prato e beber do mesmo copo é exigência para vivermos a irmandade e a fraternidade. Jesus, porém, vai além do comer juntos. Ao lavar os pés dos discípulos, repete o gesto dos escravos da época. Rompe assim com o esquema dominante do seu tempo. Pedro, que acha normal o sistema de dominação, resiste ao gesto de Jesus, não compreendendo e não aceitando que o Mestre lave os pés dos discípulos. Lavar os pés é colocar-se a serviço, especialmente na construção da paz. É sermos solidários com as vítimas das guerras, dos terremotos, da dengue, da fome e da desigualdade social. É um ato de amor.

            3.    DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

A liturgia de hoje lembra três momentos fundamentais da história da salvação.
Primeiro momento: a Páscoa dos judeus – jantar comemorativo da libertação do Egito. Eles comiam o cordeiro pascal, lembrando a mão forte de Javé que os havia libertado (primeira leitura).
Segundo momento: a Páscoa de Jesus – foi a última ceia de Jesus. Marca o início da celebração da Páscoa Cristã. A missa vespertina da Quinta-Feira Santa atualiza para nós o gesto prático que Jesus fez no cenáculo com seus apóstolos. Primeiro, Jesus fez o rito do jantar dos judeus, recordando a Páscoa judaica: a libertação do Egito, a passagem do mar Vermelho e a Primeira Aliança ao pé do monte Sinai. Em segundo lugar, nessa mesma ceia, Jesus fez a passagem para a nova Páscoa, a Nova Aliança, agora selada no seu sangue derramado e no pão compartilhado, memória que os cristãos celebram sempre em cada missa. João expressa essa realidade com o rito simbólico do lava-pés. A Eucaristia leva necessariamente para a prática, parta o serviço. Todo o contexto da última ceia, conforme Leonardo Boff, aponta para o martírio: corpo doado, sangue derramado. A instituição da Eucaristia não é um rito simbólico: nela, Jesus faz a entrega de si mesmo. É um gesto definitivo, um só (por isso, a missa não renova o sacrifício, mas o traz presente, tornando-o visível de novo no sacramento).
Terceiro momento: a Páscoa dos cristãos – na segunda leitura, São Paulo narra a prática dos primeiros cristãos: reuniam-se nas casas para fazer a memória de Jesus. O grande ensinamento dessa tradição judeu-cristã é que nós somos chamados para a caminhada da libertação. Marcados pelo amor de Deus para construirmos um povo novo, nossa vocação é viver em comunidade, promover a paz, a justiça, a solidariedade: viver a Páscoa de Jesus, não conformar-se com os valores deste mundo.
O centro da Quinta-Feira Santa é a instituição da Eucaristia, do sacerdócio cristão a serviço e o novo mandamento do amor, fundado na não-violência. Nesse tripé está nosso ideal cristão, nosso sonho de um novo mundo:
·      A instituição da Eucaristia nos lembra a partilha dos bens. Se todos somos filhos e filhas do mesmo Pai, se todos somos irmãos, a mesa do mundo deve ser para todos, sem fome, sem miséria, sem exclusões. Por que o mundo não coloca as potencialidades enormes de riqueza que tem a serviço da vida? Eis o convite da Eucaristia. Quem comunga sinceramente deve querer um mundo mais partilhado.
·      O sacerdócio cristão colocado a serviço do povo nos lembra que o poder deve ser partilhado. Que o maior é aquele que serve. Que nossa atitude fundamental deve ser a do lava-pés, e não a busca desenfreada das honras, do prestígio, que acaba dominando os mais fracos. “Se eu que sou Mestre e Senhor vos lavei os pés...” Esse gesto de Jesus nos mostra como a tão apregoada democracia, da qual o mundo ocidental tanto fala, não é eucarística, porque não se põe a serviço, mas concentra sempre mais.
·      O mandamento do amor nos lembra que a atitude suprema do ser humano, a exemplo de Cristo, é o perdão, a acolhida, a solidariedade, o empenho pela justiça, da qual vem a paz. Nunca o ódio, o revide, a violência, a guerra.
“Ao entrar neste mundo, tão marcado pelas injustiças e pelo ódio, pela segregação e perda de sentido da vida, Jesus Cristo vem nos ensinar a amar com o amor de Deus e a sermos felizes”.
O Mestre toma nas mãos o jarro com água e lava os pés dos discípulos. Veio para servir e faz questão de nos ensinar a fazer como ele. Ser discípulo é assumir como lema de cada dia o serviço gratuito aos irmãos e irmãs, a começar pelos mais necessitados.
A beleza do amor gratuito está em viver a generosidade e a alegria de Deus que “nos amou primeiro” e quer o nosso bem antes que nós possamos amá-lo e agradecer-lhe. Os gestos de amor gratuito não pesam, pois nascem da bondade do coração e alegram a pessoa que ama no mais profundo de seu ser. A felicidade está em dar (At 20,35), isto é, em experimentar, como fruto da bondade, a beleza de fazer o bem, de ajudar os outros, a exemplo do próprio Deus. Ao lavar os pés, Jesus acrescenta: “Sereis felizes, se fizerdes assim” (João 13,17). Para ser feliz assim, é preciso amar gratuitamente.

            4.    A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO

A glória da Cruz de Cristo Jesus
A antífona de entrada cantada pela assembléia põe em relevo a Cruz afirmando-a como a única glória dom povo cristão (cf. Gálatas 6,14). Numa feliz versão para essa antífona, o compositor Pe. Campos articula a Cruz e o mandamento do amor, muito importante para compreender em que consiste exatamente a glória da cruz: “Nós nos gloriamos na cruz de nosso Senhor, que hoje resplandece com novo mandamento do amor”. O amor extremo com o qual Deus, em Jesus, nos ama é o “fundamento” da cruz e do sacramento que, ritualmente, nos faz dela participantes. Conforme a Oração do Dia é “banquete do seu amor” que gera a “caridade e a vida”. é neste sentido que as Constituições Apostólicas (século IV) nos trazem, no texto mais antigo de uma Anáfora siríaca, o sentido da Cruz de Jesus: “O Juiz foi julgado, o Salvador foi condenado, o Impassível foi cravado numa cruz e o Imortal, por natureza, morreu. Ele que faz viver foi sepultado, para libertar do sofrimento e arrancar da morte aqueles por quem viera, e para quebrar os laços do diabo e libertar os homens de seus enganos.” A experiência salvadora da Cruz fundada no amor de Deus, em Jesus, tem por objetivo retirar o Antigo Adão da morte, recriando-o como nova criatura à imagem do Novo Adão, o Ressuscitado. Para isso o caminho da Cruz tornou-se para Jesus, uma rota exigente: mergulhou na morte para dela retirar os que tinham sido por ela encarcerados.
A ação ritual do Lava-Pés é a demonstração mais silenciosa desta verdade, à qual os cristãos subordinam sua existência. O primado do amor que se desdobra em caridade, em auxílio mútuo. Através do serviço que os cristãos e cristãs prestam aos seus irmãos e irmãs, o bom odor de Cristo se vê espalhado e isso como fruto da renovação experimentada pelos sacramentos... e estes, sobretudo a Eucaristia, não podem ser celebrados desconectados deste desdobramento ético vital.

            5.    LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

No centro da liturgia eucarística, repetimos e atualizamos as palavras do Apóstolo Paulo: “Todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice estão anunciando a morte do Senhor até que ele venha”.
O mistério da fé que celebramos na Eucaristia é o mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor Jesus, atuante nas realidades pessoal, comunitária e social. É a celebração do mistério pascal de Jesus Cristo representado na ação simbólico-ritual com o pão e o vinho.
Anunciar a morte do Senhor “até que ele venha” implica para todos nós o compromisso de transformar nossa vida, de tal forma que se torne eucaristia, sinal de comunhão.
Como “cume e fonte”, a celebração eucarística deve nos ajudar a discernir e expressar, na liturgia, a presença pascal de Cristo em nossa vida pessoal, comunitária e social; deve nos levar a fazer de toda a nossa vida uma caminhada pascal e a nos comprometermos com a transformação do mundo.
Quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia, estamos vindo das nossas tribulações e angústias do dia-a-dia para buscarmos em Cristo força e sustento para nossa caminhada. Na missa, a Palavra de Deus nos educa e o mistério pascal de Cristo nos convoca para ofertarmos nossa vida e transformá-la numa oferta agradável a deus, completando assim o que falta à Paixão de Cristo. Na última ceia, antecipando sua Paixão, Cristo renovou, no seu sangue, a Primeira Aliança. Celebrando agora sua memória na missa, estamos nos oferecendo com Cristo, entrando em comunhão com ele e proclamando sua ressurreição “até que ele venha”.

            6.    O LAVA-PÉS

Tradicionalmente a “ação ritual do lava-pés” evoca o significado profundo da entrega de Jesus, antecipada e anunciada profeticamente, no sacramento da Eucaristia. Embora opcional essa ação ritual, costuma ser celebrada em todas as paróquias e comunidades, é de grande valor e estima por parte dos fiéis. Ele tem duplo significado: primeiro, é gesto profético que anuncia a morte de Jesus como Servo Sofredor; Ele realiza um trabalho de escravo, antecipando sua morte na cruz, que era uma condenação reservada aos escravos. Segundo, é sinal de sua doação total, de seu amor. E este amor deverá ser vivido por nós, seus discípulos e discípulas, na continuação da missão do Servo do Senhor: “eu dei o exemplo para que vocês façam a mesma coisa que eu fiz” (João 13,15).
Infelizmente, em não poucas partes, ganhou aspecto bastante teatral, sobretudo quando a comunidade não é envolvida e assiste como expectadora a um grupo que se veste como apóstolos. Não é preciso que as pessoas se vistam com figurino da época, mas assumam a “psicologia” dos personagens.
Escolher pessoas engajadas na pastoral, ou outras que prestam um serviço significativo, ou, ainda, pessoas ligadas com o tema da CF deste ano; não é necessário que os “apóstolos” sejam homens, nem que sejam em número de doze (é preciso evitar que o Lava-pés se pareça com teatro ou folclore).

Pe. Benedito Mazeti
Assessor diocesano de Liturgia - Diocese de São José do Rio Preto - SP.

sexta-feira, 27 de março de 2015

DO LADO ABERTO DE JESUS NASCE A REDENÇÃO



DO LADO ABERTO DE JESUS NASCE A REDENÇÃO*

Edemilton dos Santos[1]

Uma vida suspensa entre o céu e a terra. Um homem que só soube servir agora está desfalecido. No entanto, do alto da cruz, brota uma missão: ser Igreja viva em missão. É do lado aberto do homem Jesus que se derrama a totalidade do sangue para que se converta em fertilidade a fé no terreno do coração humano.
Para chegar a esse momento crucial de sua vida terrena Jesus passou pela Encarnação (Lc 1,26-38), pelo nascimento (Lc 2,1-20), pela vida pública, anunciando o Reino de Deus (Mc 1,14-15) e pela condenação (Jo 18,1-19,42). O propósito de Deus, quando enviou seu Filho ao mundo era claro: “pois Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).
Os passos de Jesus foram tecendo uma relação de amor e ódio com a sociedade do seu tempo. Os marginalizados e esquecidos, aos poucos, aderiram aos seus ensinamentos, pois, viram Nele o Libertador. Os doutores da lei, fariseus e saduceus, bem como os reis, viam em Jesus uma ameaça ao seu poder opressor. No entanto, Jesus não se intimida diante desta realidade e continua a mostrar a Misericórdia e o Amor de Deus para com seu povo. Situação que o fez chegar até a cruz, derramando a última gota de sangue para a redenção da humanidade. “Um dos soldados transpassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34).
Este despojamento total de Jesus rega os primeiros passos da comunidade cristã que irá receber o nome de cristãos em Antioquia, pela primeira vez (cf At 11,26). O seguimento a Jesus Cristo se espalhou pelos séculos até chegar aos dias atuais sempre regados no seu sangue derramado. Muitos homens e mulheres morreram e continuam a morrer por defender a causa dos pequenos e fracos seguindo os passos do Mestre.
De muitas maneiras a Igreja continua a fazer esta memória dos profetas e profetizas de ontem e de hoje que seguem os ensinamentos de Jesus Cristo na radicalidade do Evangelho. Pela oração e vivência da Palavra de Deus, seja nos círculos bíblicos ou na Celebração Eucarística ou da Palavra, a memória de Deus construindo história com seu povo é presença transformada. Outro elemento que ajuda a olhar os passos da Igreja, principalmente no Brasil, durante a Quaresma, é a Campanha da Fraternidade que traz um tema e um lema. Este ano o tema é um convite para refletir e rezar a relação existente entre Igreja e Sociedade, tendo como fio condutor o lema: “eu vim para servir” (Mc 10,45).
Diante destes desafios podemos nos perguntar: queremos uma Igreja conivente com a opressão ou queremos uma Igreja que abrace a causa e a defesa dos oprimidos? Isso não é ser da Teologia da Libertação ou de movimentos sociais, mas é seguir os passos de Jesus Cristo. Se somos capazes de dizer que seguimos a Cristo precisamos honrar este seguimento não só com palavras, mas com ações concretas.
A morte de Jesus na Cruz nos convida a olhar para a sociedade com os olhos da compaixão. A entrega da sua vida é um modelo de misericórdia a ser gerado no coração humano. A redenção provoca o esvaziamento de si, para que o Amor de Deus seja a luz a irradiar de cada pessoa que se coloca a serviço do Reino de Deus na missionaridade da vida. A ação missionária pode ser na família, na sociedade, na comunidade ou espalhados pelos mais diversos setores da sociedade. Cabe a nós cristãos, sermos sinal profético do amor incondicional de Deus para com a humanidade, pois “deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade” (EG 186).
Ser Igreja viva em missão é contemplar Cristo na Cruz como ícone da nossa salvação. É realizar a desintoxicação do coração para que cada ser humano, lavado no sangue derramado de Jesus, tenha no coração de Deus o seu lugar. Este lugar é marcado pela experiência da Ressurreição de Jesus que é o cume da Revelação plena de Deus à humanidade. Nela está a Nova Criação e a Nova Aliança. Nela está o broto da fé que nasce pelo lado aberto e se espalha pelo povo de Deus que constitui a Igreja, Corpo de Cristo.
Portanto, ser sinal do Ressuscitado é ser também sinal do Crucificado. É estar em movimento como Igreja Peregrina que reza e canta o Amor do seu Deus presente no Filho e na ação do Espírito Santo, para que todos sejam um na unidade e no amor de filhos e irmãos na construção do Reino de Deus.



* Texto publicado na Revista Bertheriano Ano 37, nº 110, jan/Abril. 2015. Revista dos Missionários da Sagrada Família.
[1] Postulante dos Missionários da Sagrada Família. 

“BENDITO O QUE VEM EM NOME DO SENHOR”

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR
ANO B
29 de março de 2015

Leituras


     Marcos 11,1-10 (Evangelho da bênção). Hosana no mais alto do céu.
     Isaias 50,4-7. O Senhor Deus me presta socorro.
     Salmo 21/22,8-9.17-18a.19-20.23.24. Anunciarei vosso nome a meus irmãos.
     Filipenses 2,6-11. Foi obediente até à morte, e morte de cruz!
     Marcos 14,1-15,47 ou 15,1-39. Ele era mesmo o Filho de Deus. 

            1.    DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
 
A partir da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, os acontecimentos vão afunilando. Depois de três anos de missão, de anúncio do Reino de Deus, de muitos contatos, curas, milagres e pregações, o projeto de Jesus entra num confronto decisivo.
Por um lado, o povo que foi tantas vezes por ele ajudado, que percebeu nele uma saída de vida, aclama-O, cheio de profunda esperança, como aquele que haveria de cumprir as promessas de Deus, como aquele que seria o “vingador dos pobres”.
Por outro lado, as elites dominantes, em parceria com o Império Romano, cheias de privilégios, detentoras de altos rendimentos, donas de todo o poder político, econômico e religioso, não aceitam essa liderança e tramam a morte do Justo.
É o que percebemos no Domingos de Ramos da Paixão do Senhor, portal da Semana Santa: um processo rapidíssimo, uma traição, um beijo falso, um julgamento sob pressão, um juiz covarde, a condenação de Jesus à morte. O povo se frustra, desanima. Parece que não adianta lutar, que as coisas têm de ser assim mesmo. Parece que tudo termina por aí: os pobres sempre mais pobres, as violências crescendo, a injustiça aumentando e tirando a paz do mundo e os inocentes morrendo.
Mas não é bem assim. Com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, o Bom Deus nos mostra o caminho da salvação, que passa pela cruz, porque Ele respeita a liberdade humana, gananciosa e cheia de pecados. Foi o caminho que Deus escolheu com a Encarnação de Jesus. Realizou um esvaziamento (kenose) de si mesmo no serviço, no lava-pés. Assumiu sobre si nossas dores. Enfrentou o sofrimento e a perseguição dos poderosos. Historicamente, essa opção de Deus também resultou em violência: a morte do Filho de Deus, o Justo e santo, numa cruz.
Contraditoriamente, porém, dessa cruz, instrumento de morte, brotou a vida, a ressurreição, a semente do novo, a proposta da Igreja das comunidades fraternas. No mundo em que vivemos, afundado na ganância e no pecado, a salvação passa por esse processo de morte-vida. O mistério do mal (do sofrimento do justo, do inocente; das traições das infidelidades e violências) só começa a ter um princípio de explicação quando se olha para a cruz de Jesus. Parece que até Deus fica impotente diante do grito do Justo, diante do sofrimento de Jó, diante do Cristo pendente da cruz (“Não é possível que passe de mim este cálice?”; “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”).

      2. A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

Palmas: Sinais da Vitória
A tradição ortodoxa conhece, segundo a liturgia de São João Crisóstomo um tropário chamado de apolitikion, rezado logo após um pequeno refrão de abertura. Trata-se da Oração Principal da Festa. Para o Domingo de Ramos o tropário diz: ó Deus, antes da tua paixão, dando-nos uma garantia da ressurreição geral, ressuscitaste Lázaro dos mortos. Por isso, nós também, como filhos dos hebreus, levamos os símbolos da vitória, clamando: Ó vencedor da morte, Hosana nas alturas! Bendito o que vem em nome do Senhor!” Em nossa liturgia ocidental, o rito de Ramos começa com uma antífona que coincide com o final desse tropário oriental: Saudemos com hosanas o Filho de Davi! Bendito o que nos vem em nome do Senhor! Jesus, rei de Israel, Hosana nas alturas! A exortação que se segue, preparando a bênção dos ramos, articula a rememoração da entrada em Jerusalém com a nossa participação na ressurreição.
O tropário oriental, porém, nos apresenta este nexo de maneira mais clara e além disso nos dá a chave para celebrarmos os mistérios da Semana Santa, cujo Domingo de Ramos é abertura: “ó vencedor morte, Hosana nas alturas!” Com os olhos pascais é que a liturgia nos convida a adentrar nos ritos que se seguem durante esta semana. Nosso olhar atravessa o sofrimento e foca a atenção na Páscoa.
O sentido das palmas nas mãos, segundo, segundo este tropário, vai na mesma direção: “Levamos os símbolos da vitória”. A liturgia, portanto, já nos ritos iniciais, interpreta a paixão e ressurreição do Senhor e nela nos envolve como participantes desse mistério central da nossa fé. Um outro tropário, que vem logo em seguida diz: “Fomos sepultados contigo pelo batismo, ó Cristo Deus, e pela tua Ressurreição, merecemos a vida eterna. Por isso a ti cantamos em alta voz: Hosana nas alturas”.  Esta referencia ao batismo é interessantíssima se entendermos que a Quaresma tem forte conotação batismal e que a Vigília Pascal renova os iniciados as suas promessas de ser seguidores e seguidoras (e fiéis missionários e missionárias) do Servo Sofredor, recebido e proclamado hoje pelas multidões Rei e, ainda, segundo a liturgia Oriental manifestação de Deus que a nós se revelou.

            3.    LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Seguindo os passos de Jesus, fazemos memória de sua entrada em Jerusalém para realizar o mistério de sua morte e ressurreição e que chamamos de “mistério pascal”. Com os ramos nas mãos, aclamamos Jesus como o verdadeiro Messias, nos associamos à sua cruz para podermos participar de sua ressurreição e vida (exortação inicial). Demos graças, porque só assim nosso sofrimento e nossa morte têm sentido, e na comunhão do seu corpo glorioso já participamos da vida nova, ultrapassando a morte.
Damos graças ao Pai que hoje nos apresenta, em Jesus, o sentido que buscamos para nosso sofrimento e morte. Ao comungar seu corpo glorioso, participamos desde já da vida que vence definitivamente a morte.

            4.    O SIMBOLISMO DOS RAMOS

O simbolismo da “arvore” é muito forte na Bíblia: as árvores do paraíso, especialmente a “árvore do conhecimento do bem e do mal” e a “árvore da vida” (Gênesis 2,9; Apocalipse 2,7; 22,14) são símbolos da Torá. O cedro do Líbano, a figueira, o carvalho e principalmente a videira, entre outras, muitas vezes simbolizam o povo de Israel. Valor simbólico especial tem a oliveira: um ramo seu é o sinal de que acabou o dilúvio e a vida voltou à terra (Gênesis 8,11;9,1.7-11) É de seu fruto que se extrai o azeite, óleo fundamental para a alimentação e a saúde, carregado também de um rico valor simbólico, como na unção de reis, profetas e sacerdotes. Paulo fala da salvação dos pagãos comparando-os a uma “oliveira selvagem” que foi enxertada na oliveira boa, Israel (Romanos 11,16-24).
Os ramos desta procissão são uma metáfora da própria paixão, morte e ressurreição, na relação vida-morte-vida. As árvores têm seus ramos verdes arrancados, o que simboliza a morte, pois esses ramos secarão; mas elas também os “doam” para servir ao Senhor da Vida. Os vegetais, representados pelas árvores, foram dados a nós como alimento, são o nosso sustento, como tão bem nos diz o Gênesis. De certa forma, então, eles “morrem” para que nós tenhamos vida!

Pe Benedito Mazetti
Assessor de Liturgia da Diocese de São Jose do Rio Preto - SP. 

sábado, 7 de março de 2015

“NÃO FAÇAIS DA CASA DE MEU PAI UMA CASA DE COMÉRCIO” - 3º DOMINGO DA QUARESMA ANO B 08 de março de 2015

         Êxodo 20,1-17. Não terá outros deuses além de mim.
         Salmo 18/19,8-11. A lei do Senhor Deus é perfeita.
         1Coríntios 1,22-25. A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

         João 2,13-25. Tirai isso daqui.

1- PONTO DE PARTIDA

Hoje é o domingo da expulsão dos vendilhões do templo. O tema central da celebração deste Domingo da Quaresma é a adoração de Deus. Cristo é o templo da Nova Aliança. Neste terceiro domingo de nossa caminhada, rumo à Páscoa do Senhor, encontramos Jesus em Jerusalém, testemunhando o seu gesto profético da purificação do Templo e o anúncio da ressurreição. Em Jesus Cristo, templo vivo de Deus contemplamos a glória do Pai. A partir deste Domingo é bem evidente o tema da Aliança.

Nosso mundo é regido pelo pensamento único do mercado global. Tudo se submete a ele. As próprias leis, bonitas no papel (como a Declaração dos Direitos Humanos e tantas outras iniciativas), cedem diante desta “lei maior”, deste novo “deus” ou diante deste imperativo do dogma do pensamento único do mercado.

Estamos na Quaresma e Campanha da Fraternidade. Ela tem como tema: “Fraternidade: Igreja e sociedade”, e o lema: “Eu vim para servir” (cf. Marcos 10,45). Percebe-se que algumas pessoas dentro da Igreja se manifestam contra a Campanha da Fraternidade. Se ela incomoda, é bom sinal. Sempre teve aprovação da Santa Sé. A Igreja não pode ficar indiferente em relação a tudo o que se passa com as pessoas, senão ela está traindo a sua missão evangelizadora na sociedade. O objetivo da Campanha da Fraternidade é para mostrar que a Igreja é solidária com o ser humano como Cristo foi.

O que nos tem a dizer sobre isso a liturgia deste terceiro domingo da Quaresma?

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos

Primeira leitura – Êxodo 20,1-17. Moisés deu a lei que passou; em Cristo, a Aliança é definitiva. Esta leitura nos relata a promulgação solene dos Dez Mandamentos, que selou a primeira Aliança de Deus com seu povo, logo depois da libertação da escravidão do Egito, no deserto do Sinai. Os três primeiros mandamentos referem-se a Deus; os outros sete, ao próximo. O tema central deles é a “proteção da vida humana”, porque no Egito se matava muito, a começar pelas crianças recém-nascidas. O versículo 13 garante o direito à vida. “Não matar” não significa só deixar viver, mas também não deixar morrer. Não criar ou não permitir condições tais que levem o próximo à morte.

A imagem com a qual Javé se revela a Israel é a do libertador do seu Povo da escravidão (cf. versículo 2a). A presença do Senhor reconhece-se por esta sua contínua atividade libertadora. Só nesta perspectiva se podem compreender os Mandamentos, que são todos um convite a respeitar a dignidade de cada pessoa, libertando-o de qualquer forma de idolatria (versículos 3-4) e de escravidão (versículos 8-11).

Os Mandamentos podem ser lidos e interpretados a partir do mandamento do repouso do sábado (versículos 8-11). Este mandamento é exclusivo de Israel, desconhecido das outras culturas, e por isso distintivo do Povo do Senhor. Com este mandamento é reconhecida a grande dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do seu Criador (cf. Gênesis 1,26).

Desta grande consideração pela dignidade do ser humano derivam depois todos os outros Mandamentos, quer os que dizem respeito ao relacionamento com Deus (cf. versículo 2b-7), que os que se relacionam com o comportamento com as outras pessoas (cf. versículos 12-17). Precisamente porque chamado a ser imagem e semelhança do seu Deus, o ser humano só se degradará ao adorar outras divindades. Chamado a colaborar com o seu Senhor na Criação, a relação que instaurará com as outras pessoas consistirá em ter somente comportamentos que transmitam vida.

O mandamento de não cometer adultério, versículo 14, está ordenada à defesa da vida e da família. Para que o matrimônio possa cumprir sua finalidade, exige-se a fidelidade entre os esposos. A Bíblia leva a sério “o amor, o matrimônio, a vida e a fecundidade”. O mandamento dirige-se tanto à mulher, como ao homem.

O mandamento de não furtar, do versículo 15, não visa só os bens do próximo. Trata-se, antes de tudo, da própria pessoa, de sua liberdade. O rapto de pessoas e sua escravização são considerados gravíssimos pecados de furto (Êxodo 21,16; Deuteronômio 24,7). Reter o salário de um operário também é um furto (Deuteronômio 24,15; Lv 19,13).

Muito pelo contrário do que se pensa, o Primeiro Testamento não visa só os atos externos. O 10º mandamento (versículo 17) tem como objeto o desejo, a cobiça das coisas do próximo. Tem em mira a raiz do pecado, o desejo desregrado que nasce no coração do homem (Mateus 15,19). O mandamento aponta essa cobiça como um pecado que se opõe à Aliança.

No Salmo responsorial 18/19,8-11. O Salmo 18/19 mistura dois tipos, e isso levou muita gente a dividi-lo em dois. De fato, dos versículos 2 a 7 temos um hino de louvor, sem nenhuma introdução. Nele o céu e o firmamento, o dia e a noite, em silêncio, cantam os louvores de quem os criou. É portanto, um hino de louvor ao Deus criador. Mas na segunda parte (versículos 8-15) o estilo é sapiencial, apresentando uma reflexão sobre a Lei de Deus, também chamada de “testemunho” (versículo 8b), “preceitos” (versículo 9a), “mandamento” (versículo 9b), “temor” (versículo 10a) e “decisões”. São seis palavras para dizer basicamente a mesma coisa. Ao lado de cada uma dessas palavras repete-se sempre o nome “Javé”.

Este salmo fala que a lei do Senhor é fonte de energia, luz e conforto, sabedoria para os simples, alegria para o coração e carregada de justiça. Obedecer a lei do Senhor nos livra dos grandes pecados. O “jugo” do Senhor “é suave e o seu peso leve”, e quem o acolhe encontra descanso para a sua vida (cf. Mateus 11,29-30). O acolhimento da vontade de Deus não mortifica as pessoas mas torna-as uma pessoa esplêndida: “Os preceitos do Senhor são claros e iluminam os olhos” (versículo 9).

O rosto de Deus no Salmo 18/19 é muito interessante. Duas imagens de Deus são muito fortes neste Salmo: o Deus da Aliança (versículos 8-15), que entrega a Lei a seu Povo, e o Deus Criador, reconhecido como tal e por suas criaturas em todo o mundo (versículos 2-7). Portanto, o rosto de Deus como Aliança, significa “acordo” com o Povo e Criador que ama as suas criaturas.

O Novo Testamento viu em Jesus Cristo o cumprimento perfeito da Nova Aliança, aquele que fez ver de forma perfeita o Pai (João 1,18; 14,9). Sua Lei é o amor (João 13,34). Jesus louva o Pai por ter revelado seu projeto aos pequeninos (Mateus 11,25) e mandou aprender com os lírios do campo e as aves do céu o amor que o Pai tem por nós Mateus (6,25-30).

Agradeçamos ao Senhor pela garantia de liberdade que Ele nos dá através de sua Aliança em Jesus Cristo.

Segunda leitura – 1Cor 1,22-25. No tempo de Paulo, muitos queriam chegar a Deus usando somente a inteligência. Mas a sabedoria de Deus, que atua a reconstituição da Aliança na crucifixão do Filho, não é compreendida como sabedoria, mas é escândalo para aqueles que não são chamados. O apóstolo Paulo lembra à comunidade de Corinto que a vida cristã é escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Mas, para os eleitos das comunidades cristãs, é poder e sabedoria de Deus, que confunde os sábios deste mundo.

“A Lei nos diz que o Messias vai permanecer aqui para sempre. Como podes dizer que é preciso que o Filho do Homem seja levantado?” (cf. João 12,34). Como acreditar num Messias que não sé é morto, mas que morre da morte dos malditos, “como está escrito: Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro”? (Gálatas 3,13; cf. Deuteronômio 21,23). A morte ignominiosa da cruz era considerada o sinal mais evidente de que Jesus não podia ser o libertador esperado (cf. Lucas 24,21). Ao contrário, Paulo exorta os cristãos a não pensarem segundo a mentalidade das pessoas, mas segundo Deus (cf. Mateus 16,23).

Um Deus crucificado num patíbulo será sempre impossível de acreditar por todos aqueles que, como os judeus, constantemente procuram manifestações do poder de Deus e esperam sinais e prodígios. Um Deus que Se faz servo das pessoas Se tornará incompreensível da parte de todos os que, como os gregos, fazem da própria sabedoria um pedestal para exercer o seu poder sobre as pessoas (cf. versículos 22-23) Mas é na Cruz, onde um homem morre por amor, que se encontra o verdadeiro “poder de Deus” e a verdadeira “sabedoria de Deus” (versículo 24), e Jesus Crucificado é o único sinal do Senhor para toda a Humanidade.
A doutrina anunciada por Paulo, então, apresenta-se como oposta às pretensões dos judeus e gregos. Na contradição da cruz está a grandeza-triunfo de Deus. Sua ação parece fraca e louca, mas nela manifesta-se a grandeza-força e sabedoria de Deus que confunde os fortes e sábios deste mundo (1Coríntios 1,27s). No entanto, os que têm fé, vêem na “fraqueza e loucura” (Gálatas 5,11) do agir divino o sinal de sua misericórdia. O anúncio da cruz, que parecia contradizer a esperança das pessoas, pela luz da fé é visto como vitória (João 12,34). O instrumento de maldição, usado no suplício dos condenados, tornou-se instrumento de salvação. Mais uma vez a sabedoria de Deus trilhou caminhos que não são os da sabedoria dos seres humanos.  

Evangelho – Jo 2,13-25). O tema central de hoje é a adoração de Deus. É o que o Primeiro Testamento entende por “temor de Deus”. Este termo não aponta um medo infantil diante de um Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do Mistério. Israel não pode “temer” outros deuses (2Reis 17,7.35 etc.). Este temor de Deus se expressa, antes de tudo na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos. Inicia com o mandamento do temor de Deus: só a Deus se deve adorar, pois Ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também no relacionamento com o próximo (o co-esraelita, em primeira instância). Pois Deus não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o “culto” (adoração de Deus) implicar imediatamente num “etos” (critérios de comportamento).

As leituras dos domingos da Quaresma estão todas centradas no rosto do Pai, na tentativa de eliminar as crenças que ofuscam o seu esplendor. No primeiro domingo o Livro do Gênesis apresenta um Deus desarmado: “Colocarei o meu arco nas nuvens” (Gênesis 9,13), que não castiga o ser humano pelos seus pecados mas que é fiel à sua Aliança com a Humanidade (cf. Gênesis 9,8-15). No segundo domingo a leitura, extraída também do Livro do Gênesis, era centrada sobre um Deus que rejeita os sacrifícios humanos (cf. Gênesis 22,1-2.9a.10-13.15-18). Nesta evolução da purificação, o Evangelho de hoje revela a imagem que Jesus não quer sacrifícios de animais ou coisas. Em todas as religiões as pessoas projetaram freqüentemente sobre a divindade o tipo de relacionamento experimentado com os poderosos da terra. Habituados a ter que oferecer os seus bens melhores aos patrões, pensaram obter de maneira parecida a bondade da divindade oferecendo-lhe o que de melhor tinham na sua vida. Com Jesus, tudo isto acaba. Expulsando os vendedores do Templo de Jerusalém, o Filho de Deus não pretende purificar o lugar santo corrompido pelo comércio, mas impedir um culto que na realidade era só fachada e o pretexto da casta sacerdotal para desfrutar do povo e impor o seu domínio sobre ele.

Jesus anuncia o sacrifício que vai restabelecer a Aliança e a ressurreição que é garantia maior da “nova Aliança”. Na sociedade judaica do tempo de Jesus o Templo havia se transformado no centro do poder religioso, político e econômico, onde agia a cúpula governamental (o Sinédrio) e onde se guardavam também imensas riquezas. De lugar de culto ao verdadeiro Deus, o Templo havia se transformado em instrumento de opressão e exploração do povo. A lei de Deus não era mais para defender a vida. Por isso, Jesus é tomado por uma “ira profética”: pega um chicote e expulsa os negociantes que estavam transformando o templo de Deus num mercado. Contudo, Jesus não pensa em uma restauração do Templo de Jerusalém como casa de oração, “mas na sua substituição”. Para João, o sentido deste trecho lido neste terceiro domingo é anunciar Jesus como o Novo Templo, lugar da revelação e adoração do Pai, isto é, a pessoa de Jesus Cristo é o lugar onde se encontra Deus.

A Aliança entre Deus e o seu Povo era descrita pelos profetas com a metáfora esponsal. Mas nesse matrimônio entre Deus e Israel já não há amor. Eis a razão porque nas Bodas de Caná na Galiléia mudou a água em vinho, símbolo do amor dos esposos (cf. Cântico dos Cânticos 2,6), que veio a faltar. A nova relação com deus agora já não se baseia nos esforços das pessoas (figurados nas “talhas” que continham a água para a purificação: cf. João 2,6), mas no acolhimento do seu amor gratuito.

Portanto, uma vez entrando no Templo de Jerusalém, Jesus expulsa a todos dali, incluindo os animais destinados aos sacrifícios. O Pai não requer nenhum tipo de oferenda ou de sacrifício (cf. Mateus 8,13), mas é Ele que oferece tudo a todos (cf. Atos 17,25). Embora expulsando os vendedores de bois e de ovelhas, Cristo dirige a sua censura unicamente aos vendedores de pombas (cf. versículo 16), animal símbolo do Espírito, o amor do Pai que não pode ser vendido, mas apenas oferecido.

Aqui está também a importância da antiga Aliança. A síntese das leituras bíblicas deste domingo pode formular-se deste modo: “o novo templo espiritual” constrói-se sobre Cristo, morto e ressuscitado (evangelho e segunda leitura), e fundamenta a “nova Aliança” e a “nova religião em espírito e verdade”, que veio substituir a antiga Aliança, explanada na Lei de Moisés.

É importante ver a passagem da purificação do templo como auto-manifestação do mistério salvador de Cristo. Ele significa a importância da “antiga Aliança” e o fim do culto que encarnava no templo de Jerusalém. Cristo dá lugar a uma Aliança e Culto novos em espírito e verdade.

Trata-se da “Aliança e do culto novo” que Jesus prega na linha dos profetas do Antigo Testamento e frente á degeneração do culto do templo de Jerusalém que se tinha tornado ritualista, vazio e hipócrita, além de ser, já, desnecessário. Por isso o véu do templo rasga-se quando Jesus morre.

Os primeiros cristãos não tiveram templos, nem catedrais, nem basílicas, durante vários séculos. Estavam conscientes, tal como deveríamos estar nós, de que assembléia (= ekklesía, em grego) é a autêntica Igreja de Deus, o santuário espiritual, prolongamento do corpo de Cristo que é o “templo da nova Aliança”. Até mesmo cada cristão, cada batizado no Espírito de Jesus, é templo de Deus.

Jesus Cristo é o nosso modelo. Ele é o grande sacerdote e a vítima da nova Aliança e do culto que culmina na fórmula Cristológica e Trinitária que encerra a oração eucarística: Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a vós, Deus Pai todo poderoso...

O que significa para nós hoje esse gesto de Jesus usando o chicote? As práticas religiosas que usamos em nossos templos estão de acordo com o Evangelho?

3- FUNÇÃO NA LITURGIA

Não existe, nas leituras da Quaresma, nem a leitura contínua dos evangelhos, nem a coerência (ligação) entre a Primeira leitura e o Evangelho, que caracteriza a Liturgia da Palavra nos domingos comuns. Contudo, as leituras trazem presente, mediante seus temas diversos, um espírito comum: o espírito de conversão. É nesta pedagogia da conversão que se situa o presente Evangelho. Podemos aprofundar, neste sentido, os três momentos da narração: 1) a expulsão dos vendedores e dos animais de sacrifício (2,13-16): pôr fim a uma forma de religião que já não vale desde que Jesus nos mostra a vontade do Pai. 2) O Novo Templo, Jesus (versículo 17, transição, e versículos 18-22): procurar adorar e amar a Deus no Filho morto e ressuscitado. 3) a precariedade da fé (versículos 23-25): mesmo quando nós professamos a fé em Jesus Cristo, ainda não nos colocamos definitiva e seguramente ao seu lado; seja isto uma advertência  contra uma segurança temerária e uma exortação para uma conversão sempre renovada.

Em tudo isto aparece, naturalmente, o cristocentrismo radical do evangelista João. Converter-se, na linha de João, significa voltar-se para Jesus Cristo, confiar Nele, abandonar os templos provisórios ou degenerados. E trata-se do Cristo morto e ressuscitado, não do Cristo simpático, bacana, etc.

Podemos dizer que o Evangelho de hoje, como também do Quarto e Quinto Domingo, nos preparam para a conversão como encontro com o Senhor padecente e ressuscitado (cf. sobretudo o Quinto domingo da Quaresma, João 12,20-33).

4- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO VIDA

A caminhada quaresmal, já chegou a meio percurso, é um momento privilegiado para favorecer a “conversão” das pessoas e o conhecimento do rosto de Deus. É importante conhecer no que Deus acredita, para saber depois como comportar-se com o próximo.

O grande pecado do mundo globalizado é a sacralização do mercado. O culto ao mercado virou uma religião subliminar cheia de deuses nanicos, que cultuam a riqueza, o poder, justificando no mundo uma desigualdade terrível, corrompendo às vezes a própria religião com a mercantilização do sagrado (teologia da prosperidade).

Jesus condena essa prática e chama a nossa atenção para o projeto de Deus do Êxodo, a libertação. O Templo é a casa de Deus, lugar da memória histórica (ele guarda a Arca da Aliança, selada no Sinai). Não pode ser local de ostentação, de pode e de opressão do povo. O Templo é importante, mas não absoluto. Na travessia do deserto, Deus acampava numa tenda. Por muito tempo não quis templo. O verdadeiro templo de Deus é Jesus Cristo, que acampou entre nós (João 1,14). Nós mesmos somos o templo de Deus (1Coríntios 6,15).

É por isso que a segunda leitura fala do escândalo da cruz. A proposta do Evangelho está na contramão a sabedoria dos grandes e poderosos, na contramão do mercado.

            É também dentro desse contexto que devem ser colocados os mandamentos de Deus, a lei da vida, da libertação. Se as comunidades cristãs não tiverem clareza do projeto de Jesus Cristo (que é a contramão do projeto do mercado), não será possível observar os mandamentos. Não adianta sabê-los de cor. Eles foram exatamente promulgados para superar as opressões que aconteciam na “casa da escravidão” (no sistema do faraó).

            Ora, o deus-mercado de hoje repete exatamente as opressões do faraó: não observa nenhum dos mandamentos. Senão vejamos, mandamento por mandamento: o mercado adora o dinheiro e o poder (1º); usando de modo blasfemo o nome de Deus para justificar a guerra e tantas barbaridades (2º); não guarda o Dia do Senhor (3º); desmonta a família (4º); mata bastante e manda matar (5º) legaliza o adultério (6º); rouba legalmente (7º); usa do falso testemunho contra os pobres da terra (dentro e fora dos tribunais) (8º); e, finalmente, nos ensina todo o santo dia a cobiçar de tudo através da propaganda desenfreada dos meios de comunicação social (9º e 10º).

A Quaresma é um convite de conversão, para cada um de nós, para as comunidades. Sem sair da “casa da escravidão” não é possível de jeito nenhum observar os mandamentos. Sem termos um projeto de vida, não adiantam as leis. Sem um projeto de vida, nunca teremos o começo do mundo novo representado pela Páscoa, pela ressurreição de Jesus.

5- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

A Transfiguração do Senhor é sinal da vitória de Jesus, o Filho amado do Pai, sobre a morte que ainda impera no mundo. Somos chamados a escutar e seguir Jesus na entrega sem reservas ao Reino, para participarmos da plenitude de sua glória.

Nesta celebração damos graças a Deus, que nos chama a viver na intimidade com Ele, na escuta de Seu Filho amado. Iluminados pela Palavra e pela partilha do pão somos encorajados a perseverar no seguimento de Jesus, aprendendo com Ele a fazer a vontade de Deus, como Abraão, nosso pai na fé.

6- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Nossa fé cristã afirma que a Igreja, o povo de Deus convocado, faz a Eucaristia e que a Eucaristia faz a Igreja. Cada vez que celebramos a Eucaristia está se reconstituindo, se reconstruindo. Volta e encontrar seu centro, que é dar a vida. Dispõe-se a se entregar para os outros e, assim, se reconstitui como povo que tem uma missão no meio dos pobres. É a decisão renovada de dar a vida nas lutas humanas e nos projetos humanos que transforma este mundo. É povo que se transforma em presença real de Cristo que se entregou por amor. É a conseqüência do “Amém” proclamado ao comungar.

É impossível, portanto, celebrar autenticamente a Eucaristia sem adquirir consciência de ser povo enviado e povo que se renova para cumprir melhor a missão que Deus nos mostra na história.

Cada vez que nos reunimos para celebrar, renovamos a Aliança selada no sangue de Jesus, o Templo vivo do Pai. A comunidade reunida no amor de Cristo continua, com a presença do Ressuscitado e do seu Espírito, a tarefa de levar adiante a Aliança da salvação até que Deus seja tudo em todos.

7. ORIENTAÇÕES GERAIS
1. Para os cantos desse tempo quaresmal, sugerimos atenção ao material oferecido pelo Hinário Litúrgico II da CNBB. Muitas músicas estão gravadas na coleção de CD’s “Liturgia, à venda nas livrarias católicas. A Campanha da Fraternidade sempre oferece alguma opção nova para o repertório.

2. A preparação da mesa, feita com simplicidade, realce o essencial: o pão em um único prato (sem patena à parte para o padre); o vinho em um único cálice ou vários cálices (IGMR, 270).

8- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos “cantar a liturgia” e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com “cada domingo da Quaresma”, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são da Quaresma, “é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado”. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

A regra da reserva simbólica vale para todos. A liturgia nos ensina a reservar os elementos festivos para a festa da Páscoa. Assim, os grupos são chamados a serem mais moderados na execução dos instrumentos, evitando “solos instrumentais”, deixando de tocar algum instrumento, ou mesmo cantando algo “à capela” (sem acompanhamentos musicais). É tempo também de escutar, de ser “obediente”, de aguçar o discipulado: uma boa forma de manifestar isso seria assumir o repertório da CNBB para as celebrações.

1. Canto de abertura: Deus me livra da armadilha (Salmo 24/25,15-16) ou Lembra-te, Senhor, de tua misericórdia (Salmo 24/25,8-9) “Lembra, Senhor, o teu amor fiel para sempre!”, articulado com o Salmo 24: “Senhor, meu Deus, a ti elevo a minha alma”, CD: CF-2015, melodia da faixa 2, ou CD: CF-2012, melodia da faixa 3. A Igreja oferece outras opções: “João batista clamou no deserto”, CD: Liturgia XIV melodia da faixa 4.; “Clama em alta voz”, Hinário Litúrgico II da CNBB, pág. 116; “Reconciliai-vos com Deus”, Hinário Litúrgico II da CNBB, pág. 290. O canto de abertura deve nos introduzir no mistério celebrado.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia XIII, CD: Liturgia XIV e CD: CF-2012.

2. Ato penitencial. Nesse domingo seria oportuno rezar a invocação da Quaresma número 2 da página 396 do Missal Romano. Todos se coloquem de joelhos.

3. Salmo responsorial 18/19,8-11. A Lei do Senhor Deus é luz e conforto. “Senhor, tens palavras de vida eterna.”, CD: CF-2015, melodia da faixa 6 ou CD: Liturgia XIV, música igual à faixa 5.
A função do salmista é de suma importância. Sua função ministerial corresponde à função dos leitores e leitoras, pois o salmo é também Palavra de Deus posta em nossa boca para respondermos à sua revelação. Por isso, o salmo dever ser proclamado do Ambão e, se possível, cantado.

4. Aclamação ao Evangelho. “O dom do Filho de Deus e nossa vida na fé” (João 3,16). “Glória a vós, ó Cristo, Verbo de Deus! Tanto Deus amou o mundo”, CD: CF-2015, melodia da faixa 4.

Preserve-se a aclamação ao Evangelho cantando o texto proposto pelo Lecionário Dominical. Ele ajudará a manifestar o sentido litúrgico da celebração, conforme orientações da Igreja na sua caminhada litúrgica.

5. Canto após a homilia. Onde for oportuno, após a homilia e uns momentos de silêncio, entoar o Hino da CF-2015. “Em meio às angústias, vitórias e lidas”, Seria oportuno entoar este hino após a homilia, para facilitar a vinculação da Liturgia da Palavra com a vida e o tema da CF.

6. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração no Tempo da Quaresma. Podemos entoar, “Aceita, Senhor, com prazer o que viemos te oferecer”, CD: CF-2015. A Igreja oferece outras opções: “Eis o tempo de conversão”, CD: CF-2012, melodia da faixa 12; CD: Liturgia XIV, melodia da faixa 6, e Hinário Litúrgico da CNBB, II, pág. 217; “O vosso coração de pedra”, CD: Liturgia XIII, melodia da faixa 5. Outra opção é o hino da CF.

7. Canto de comunhão: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei”, (João 2,19). “Destruí este templo, disse Cristo, e em três dias haverei de reerguê-lo, Ele falava do templo do seu corpo”, articulado com o Salmo 137: “Ó Senhor, de coração eu vos dou graças, porque ouvistes as palavras dos meus lábios”, CD: CF-2015, melodia da faixa 14.

Chamamos a atenção para o Canto de Comunhão, a alegria de estar na morada de Deus, “con-templar”. O ativismo que invadiu a vivencia cristã e a caminhada das comunidades, ameaçam esta presença juntos de Deus, que, contudo, é condição indispensável para colocarmo-nos em sintonia com sua maneira de salvar, que é a Cruz. Nessa linha de pensamento a Quaresma nos oferece um templo de reflexão silenciosa.

O canto de comunhão deve retomar o Evangelho do 3º Domingo do Tempo Quaresma. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o Corpo e Sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. No 3º Domingo da Quaresma, estamos com Jesus no Templo de Jerusalém inaugurando o novo culto com Sua entrega. A exemplo do Divino Mestre, devemos ter uma nova compreensão da divina liturgia celebrada  em nossa igreja.

9. O ESPAÇO CELEBRATIVO


1. Colocar no espaço celebrativo galhos secos e um cacto saindo das pedras para lembrar que a Quaresma é tempo de deserto, tempo de contemplação.

2. Preparar o espaço celebrativo levando em conta o tempo quaresmal. O ambiente deve estar despojado a austero. Isso vale também para outros tempos litúrgicos. Devemos “fazer uma limpeza” de tudo o que é supérfluo no espaço celebrativo, como cartazes, folhagens, fitas, adornos, faixas, muitas imagens, etc. Os exageros de enfeites causam uma verdadeira “poluição visual”, e é preciso achar um lugar “para pousar o olhar e contemplar”. Por outro lado, devemos valorizar e destacar o que é realmente essencial para a celebração do Mistério de Cristo, isto é, o altar, a mesa da Palavra, a cadeira presidencial e a pia batismal. Durante a Quaresma outros símbolos fortes são importantes, como a cruz, a cor roxa e outros próprios para cada celebração.

3. A equipe também procure caracterizar o ambiente e organizar toda a celebração dentro de uma certa sobriedade (cor roxa, sem flores, sem glória, sem aleluia e sem o canto de louvor a Deus após a comunhão. Isso não quer dizer que o ambiente seja de tristeza. A fé cristã une numa mesma celebração “a dor e a alegria, a luta e a festa”. Na Quaresma se retoma o silêncio, as celebrações são mais silenciosas, sóbrias, simples, austera. Não se enfeita o espaço celebrativo com flores. Os instrumentos apenas acompanham o canto. Não deve ter baterias e instrumentos de percussão fazendo aquele barulho como se fosse uma boate. É o silêncio que predomina.

10. AÇÃO RITUAL

Fazer uma acolhida muito fraterna e pessoal a quem chega para a celebração, principalmente os visitantes. “Que todos possam sentir sua dignidade humana respeitada e sua identidade cristã reconhecida”. Não devemos esquecer que os ritos iniciais, com o sentido de formar o Corpo vivo do Senhor, sejam bem valorizados neste domingo e sempre. Breve conversa sobre o sentido da celebração: a conversa do coração e o convite de Jesus para que nossa atitude penitencial seja sinal de vida para todos. Criar o ambiente celebrativo ensaiando os refrões dos cantos da celebração. Deve-se evitar o domínio dos músicos fazendo apresentação de cantos fora do contexto da celebração.

Ritos Iniciais

1. Motivar para que a procissão de entrada na igreja seja sinal de nossa peregrinação quaresmal rumo à Páscoa. Vamos fazer com Jesus uma parada na igreja pra adorar a Deus em espírito e verdade.

2. Como saudação presidencial sugerimos a de Romanos 15,13 (opção d):

O Deus da esperança, que nos cumula de toda alegria e paz em nossa fé, pela ação do Espírito Santo, esteja convosco.

3. Após a saudação presidencial, as comunidades que já deixaram de fazer comentário antes do canto de abertura, porque entenderam o rito da Igreja e a primazia da saudação (Palavra de Deus que nos convoca), em seguida podem propor o sentido litúrgico:
Domingo da expulsão dos vendedores do Templo de Jerusalém. Cristo, templo da Nova Aliança, erguido da morte ao terceiro dia, reergue-nos em cada celebração que fazemos em sua memória das muitas prostrações e desfigurações que sofremos quando pecamos, ou quando impomos o pecado aos outros. Nesse tempo quaresmal, oportunidade e graça de nos prepararmos para a Páscoa do Senhor, revigoremos a vida nova que habita em nós e  denunciemos tudo o que desfigura o ser humano, templo de Deus.

4. Em seguida incentivar a recordação da vida: fatos, acontecimentos vividos durante a semana em casa, no trabalho, no bairro, na comunidade, no estado, no mundo etc. Se colocamos os acontecimentos na celebração é porque acreditamos que Deus age na história. Trazer os acontecimentos de forma orante e não como noticiário (Atos 4,23-31).

5. O Ato Penitencial poderia ser celebrado como preparação à escuta da Palavra. Quem preside convida a assembléia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus.  Pode ser feito por toda a assembléia, de joelhos, defronte a cruz do Senhor. Quem preside convida a assembléia a uma revisão de vida diante da Palavra de Deus. Usar uma das fórmulas próprias para o Tempo da Quaresma. Sugerimos o convite ao ato penitencial da fórmula 3 da página 392 do Missal Romano.

Em Jesus Cristo, o Justo, que intercede por nós e nos reconcilia com o Pai, abramos o nosso espírito ao arrependimento para sermos menos indignos de aproximar-nos da mesa do Senhor.

6. Sugerimos para o Ato Penitencial a invocação da Quaresma número 2 da página 396 do Missal Romano. Todos se coloquem de joelhos.

Senhor, que na água e no Espírito nos regenerastes à vossa imagem, tende piedade de nós.

7. Outra opção interessante seria substituir o Ato Penitencial pelo rito da aspersão, sobretudo nesse Domingo em que Jesus purifica o Templo do falso culto com seu gesto profético. Um bom convite de quem preside, pode confirmar que ao recordar o Batismo, firmamo-nos como “pedras vivas” edificadas em Cristo, o Templo puro e verdadeiro do culto da Nova Aliança. Ver a fórmula n. no Missal página 398, enquanto a assembleia canta um hino ou refrão apropriado, como: “Lavai-me, Senhor, lavai-me”, ou “Derramarei sobre vós uma água pura”.

8. Na oração do dia, contemplamos Deus como fonte de toda misericórdia e de toda bondade e peçamos a Deus que sejamos confortados pela Sua misericórdia.

Rito da Palavra

1. Na liturgia da Palavra, Deus chama e propõe as condições da Aliança, enquanto o povo as ouve e aceita. Na liturgia eucarística a Aliança é “selada” no sangue do Cordeiro que tira o pecado mundo. Agora o Cristo, em seu mistério pascal (Evangelho), é a chave da leitura da revelação bíblica (demais leituras) e dos acontecimentos dos dias de hoje (a vida que trazemos para a Eucaristia).
2. Seria bom recordar nas Preces onde o Templo-Cristo é profanado e aviltado pela sociedade: nos pobres, doentes, idosos, crianças, mulheres, moradores de rua... Recorde-se, também, a dignidade de todo batizado, como templo do Espírito Santo.

3. Fazer, durante a homilia, a ligação da Palavra com a celebração que se está realizando. Cada celebração é ação de graças ao Pai por seu Filho, Jesus Cristo. Ele não se apegou ciosamente à sua dignidade e nos entregou sua vida, obediente e fiel ao mandamento do Pai. Entrando em comunhão com este mistério, o Espírito Santo nos torna abertos e disponíveis à vontade do Pai.

4. Onde houver Batismo na Vigília Pascal, depois da homilia, os catecúmenos, junto com os padrinhos e madrinhas, colocam-se diante do presidente da celebração para o primeiro escrutínio (Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos, pág. 70). No decurso desta semana pode ser celebrado o rito da entrega do Símbolo.

5. Fazer uma prece especial pelas mulheres, no seu dia Internacional, dia 08 de março.

Rito da Eucaristia

1. O memorial do mistério pascal de Cristo, segundo a ordem do Senhor, se realiza “fazendo o que ele fez naquela ceia derradeira”: “Tomou o pão” (preparação dos dons), “pronunciou a bênção de ação de graças” (Oração Eucarística ou Anáfora), “partiu o pão” (fração do pão) “e deu a seus discípulos” (comunhão).

2. A preparação dos dons tem uma finalidade prática, expressa na procissão com que o pão e o vinho são trazidos ao altar. Segundo o costume das refeições judaicas, bendiz-se a Deus pelo alimento básico, o pão, e pela bebida mais significativa, o vinho. Evitar de chamar este momento de “ofertório”, pois ele acontece após a narrativa da ceia (consagração).

3. Na Oração sobre as Oferendas suplicamos a Deus que nos dê a maturidade de pedir perdão dos nossos pecados e também saber perdoar os nossos irmãos.

4. No centro desses gestos rituais, encontra-se a Oração Eucarística ou Anáfora, a grande e solene prece da Nova e Eterna Aliança, estruturada segundo o modelo das cláusulas de Aliança usado no Primeiro Testamento: recordamos celebrativamente a ação salvadora de Deus em Cristo no Espírito Santo e, confiados em tais maravilhas do Senhor, suplicamos que o Pai envie seu Espírito para que, transubstanciando o pão e o vinho no corpo sacramental de Cristo, transforme a nós, comungantes, no corpo eclesial do Ressuscitado.

5. A Oração Eucarística é a oração do povo sacerdotal chamado a celebrar a Aliança que Deus, seu parceiro, estabeleceu por meio da Páscoa de seu Filho. Fazem-se necessários o conhecimento e o aprofundamento de seu sentido e estrutura literário-teológica como a confissão da fidelidade de Deus e da fragilidade humana. A Oração Eucarística é um todo, cuja unidade de estrutura e gênero literário deve ser respeitada. Vale lembrar que apenas a oração eucarística I e a III não têm prefácio próprio e a oração eucarística II admite troca de prefácio. As demais orações eucarísticas são uma unidade inseparável.
6. Estar de pé é sinal da ressurreição de todo fiel em Cristo. Durante a Oração Eucarística, seria bom acolher expressões e posturas como estar de pé, tão enraizada na tradição mais antiga, sem, contudo entrar em conflito com os que preferem estar de joelhos. Que ambas as posturas sejam marcadas pela consciência do sentido teológico e espiritual da prece eucarística, sem “violentar” a consciência e piedade de cada um.

7. A participação da assembléia é fundamental e é facilitada pelo canto da aclamação memorial (“Anunciamos, Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição...” etc.), do “Santo”, do “Amém” final, do e das outras intervenções. Essa participação não se restringe a essas aclamações, hinos e intervenções. O povo santo e escolhido está unido ao ministro ordenado que o preside, elevando na voz dele a confissão e a súplica dos que foram remidos no Cristo, oferecendo-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o presidente, e não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada (cf. SC, 48).

8. Ao menos nos domingos e dias festivos, cante-se em tom de exultação a aclamação memorial. Evitem-se cantos e gestos devocionais e individualistas (“Bendito, louvado seja”, “Deus está aqui”, “Eu te adoro, hóstia divina” etc.).

Ritos Finais

1. Na Oração depois da Comunhão suplicamos a Deus que a Eucaristia que recebemos manifeste em nossa vida o fruto do sacramento.

2. Motivar os grupos que fazem os encontros da Campanha da Fraternidade nas casas para convidar mais pessoas para participar. É uma maneira muito concreta de sermos discípulos missionários, em nossa realidade – “a alegria de ser discípulo missionário”.

3. As palavras do envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: O zelo pela casa do Senhor vos consumirá. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

4. É comum além, de entrar em procissão no início da celebração guiados pela cruz, também retirar-se do espaço sagrado em procissão, igualmente guiados pela cruz.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Convencer-se da verdade que somos templos de Deus leva-nos a sermos possuídos pelo zelo: da raiz grega que significa “estar quente, entrar em ebulição e que traduz a palavra hebraica que indica o rubor que sobe às faces, quando a vergonha ou entusiasmo, ou a paixão, se apossam do ser humano”.

O objetivo da Igreja e da nossa equipe diocesana de liturgia é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos

Pe. Benedito Mazeti
Assessor diocesano de liturgia