QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR
ANO B
02 de abril de 2015
Leituras
Êxodo 12,1-8.11-14. E comerão às
pressas, pois é a Páscoa do Senhor.
Salmo 115/116,12-13.15-116bc.17-18.
Elevo o cálice da minha salvação.
1Coríntios 11,23-26. Fazei isto em
memória de mim.
João 13,1-15. Dei-vos o exemplo, para
que façais a mesma coisa que eu fiz.
1.
PONTO DE
PARTIDA
Quinta-Feira
Santa da Ceia do Senhor. Com esta celebração, iniciamos o Tríduo Pascal, no
qual fazemos memória do nucleio central de nossa fé: a paixão, morte e
ressurreição de Jesus. No Tríduo Pascal, celebramos a Páscoa de Jesus em três
dimensões. Hoje celebramos a Páscoa da ceia. Amanhã, celebraremos a Páscoa da
paixão. Na Vigília Pascal e no domingo de Páscoa, celebraremos a Páscoa da
ressurreição.
Na Páscoa da
ceia, celebramos o mandato novo de Jesus na ceia que realizou com seus
apóstolos: “Fazei isto em memória de mim”. Naquela celebração pascal, Jesus dá
uma prova concreta de amor por seu povo, pois Ele se doa totalmente a nós. O
centro do rito é uma ceia, com a família reunida, com a comunidade reunida.
E essa doação
e entrega se concretiza no serviço que Jesus presta, simbolizado no gesto do
lava-pés. Isso nos sugere que a partilha di banquete eucarístico deve ser
continuada no serviço fraterno da caridade e na busca da inclusão social.
2. REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA
Contemplando os textos
Primeira leitura – Êxodo 12,1-8.11-14.
É a narrativa de como os judeus deviam celebrar a Páscoa, ao deixar o Egito. A
origem da está na tradição mais antiga de Israel como povo de pastores.
Imolava-se um cordeiro e tingia-se com seu sangue a porta da tenda para
afugentar o mal, as pragas que poderia acontecer ao rebanho. Com a libertação
do Egito, tornou-se a festa central do Povo de Deus, o dia nacional da
libertação, quando o Senhor, com mão forte e braço estendido, libertou seu povo
da escravidão. “Esse dia será para vocês um memorial permanente” (Êxodo 12,14). Portanto o ritual da Páscoa do Primeiro
Testamento é a transformação de um rito celebrado por nômades por ocasião de
uma festa pastoril da primavera.
A citação
abreviada da fórmula que fala da atuação de Deus “Eu sou o Senhor teu Deus, que
te fez sair do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 12,12; cf. Êxodo 20,2),
transforma a celebração da Páscoa em uma revelação atual do Deus de Israel, que
envolve o passado e o futuro de Israel. Por isso, cada celebração nova da ação
libertadora de Deus no passado encerra uma confissão de fé na atuação presente
e um ato de esperança na atuação futura de Deus.
Com relação
ao rito da ceia pascal, o texto nos dá algumas indicações importantes:
- a Páscoa
marca o início de uma nova era, o tempo da libertação. É a vitória do povo
sobre as forças opressoras;
- para que
esta nova era aconteça é preciso que haja partilha (versículo 4);
- é uma festa
que visa a preservação da vida: servirá de sinal para a preservação de Israel
como povo, pois estava ameaçado de desaparecer pela política do Faraó;
- é uma festa
de memória histórica. É celebrada às pressas. Os que dela participam devem
estar preparados para uma longa viagem que os levará para fora do sistema
opressor e os conduzirá a uma nova sociedade baseada na justiça e na liberdade.
Descobrindo em Jesus o verdadeiro Cordeiro
(João 13,1; 18,28) e fazendo coincidir a imolação dos cordeiros no Templo de
Jerusalém com a morte de Cristo (João 9,14.31.42; 1Coríntios 5,6-8), João
convida os cristãos a compreenderem que toda doutrina do rito pascal se consuma
no sacrifício de Cristo que, de fato, constitui o povo definitivo, obtém-lhe
verdadeiramente a libertação total do domínio do mal, e situa o cristão como um
peregrino em marcha para a terra prometida (1Pedro 1,17) onde o Cordeiro reinará
cercado de todo o povo resgatado por Ele (Apocalipse 5,6-13; 7,2-17; 12,11;
19,1-9).
Salmo responsorial
116/115,12-13.15-16bc.17-18. O Salmo 116/115 é um canto Eucarístico, ou de
ação de graças. A ação de graças incluiu vários ritos: invocação do Senhor para
o louvor, cumprimento dos votos, testemunho público diante da assembléia; e um
rito com um “cálice de salvação”, talvez para beber. Nos versículos de 15 a 16, aparece o tema da
libertação: a libertação pode ser imagem, pois está unida com a salvação no
perigo de morte.
Mostra de
maneira clara no Salmo um agradecimento de alguém que recebeu de Deus uma
grande graça, a graça da vida, a libertação de alguma doença (versículo 8). Por
isso o salmista, com muita confiança, faz um gesto público de louvor, “erguendo
o cálice da salvação”. Essa pessoa que partilhar com o povo a ação de Deus na
sua vida.
Nossa
liturgia eucarística retomou dois versículos deste Salmo: ma missa oferecemos
ao Pai o sacrifício do seu Filho: é a nossa suprema ação de graças, que Ele
aceita; é o cumprimento dos nossos votos na presença de toda a assembléia
eucarística. Depois participamos deste “cálice da salvação”, invocando o nome
do Senhor.
O rosto de
Deus neste Salmo é de um Deus que inclina o ouvido, salva e liberta. É o mesmo
esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o Deus deste Salmo é o
mesmo do êxodo e da Aliança.
Uma frase
importante do Salmo é: “É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus
santos, seus amigos”. Custa para Deus aceitar que a vida de seus fiéis
desapareça prematuramente. Deus sofre quando um de seus servos morre de uma
enfermidade fatal, isto é, sente muito quando a doença acaba com a vida de uma
servo seu. Porque Ele é o Deus da vida.
Foi por isso
que Jesus curou todos os doentes que encontrou em suas viagens missionárias,
vencendo até a própria morte. E por causa disso muitos aprenderam a amar Deus
Pai em Deus Filho.
Com o
salmista, vamos erguer o cálice da libertação, porque, mesmo vivendo no meio
dos conflitos e sofrimentos, experimentamos a alegria da sua presença amorosa
no meio de nós:
O CÁLICE POR
NÓS ABENÇOADO
É ANOSSA
COMUNHÃO COM O SANGUE DO SENHOR.
Segunda leitura – 1Coríntios 11,23-26. De início, o Apóstolo indica as
circunstâncias precisas do acontecimento: “Na noite em que foi entregue o
Senhor Jesus tomou o pão...” (11,23). Ele se refere não à última ceia, mas à noite em que o Cristo foi entregue, noite
que veio à tona a maldade humana, a traição de Judas Iscariotes, a dispersão
dos discípulos, a negação de Pedro, mas, ao mesmo tempo, deu origem ao supremo
gesto de amor de Cristo, a Eucaristia, que sintetiza o todo o sentido de sua
vida e de sua morte.
A mais antiga
narrativa da Ceia do Senhor vem do Apóstolo Paulo. Ele escreveu a uma
comunidade dividida e que não estava ligando a celebração da Ceia à repartição
dos bens e a solidariedade. As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia como
memorial da Páscoa de Jesus. O contexto dessa narração nos mostra como Paulo
insiste que não se trata apenas de um rito, mas de uma prática profunda de
comunhão fraterna.
A Ceia do
Senhor é comemoração da morte do Senhor e proclamação de Sua volta. Participar
nesta Ceia pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo é confessar que a nossa
vida repousa sobre novos eixos. Os eixos do pecado e da morte, que marcaram a
existência anterior, foram substituídos pelos eixos do perdão e da vida, fundamentados na morte e ressurreição de Jesus
Cristo. Na morte, Jesus revelou que toda a razão de ser de sua vida neste mundo
era existir para os outros, colocar-se a serviço dos outros e entregar-se em
favor dos outros, isto é, lavar os pés uns dos outros. Na ressurreição, Deus
revelou que este modo de ser-homem é o modo de existir autentico de toda pessoa
humana. Crer nesta morte e ressurreição e participar nelas pela comunhão do
Corpo e Sangue de Cristo morto e ressuscitado, é reconhecer e abraçar uma
mudança radical de existir neste mundo. A razão de nossa existência será de
agora em diante lavar os pés uns dos outros, isto é, dar a vida pelos outros
para assim recebê-la de volta de Deus. Comungar o Corpo e Sangue de Cristo sem
esta mudança é recebê-los indignamente e “comer e beber a sua própria
condenação” (versículo 29).
Evangelho – João 13,1-15. “E o Verbo se
fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória...”. Em todo o
ministério público de Jesus (João 2,11: “Este início dos sinais, Jesus o fez em
Cana da Galiléia e manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele”) e
o que é mais surpreendente, esta glória se manifesta na cruz (João 17,1: “Pai,
chegou a hora, glorifica o teu Filho para que o teu Filho glorifique a ti”).
Esta
glorificação acontece mediante a morte, João se refere logo de início em 13,1
(“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegou a sua hora de passar deste
mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o
fim”).
O termo
“hora” para João não indica um momento determinado do dia, mas possui uma
significação simbólica e teológica e engloba a morte e glorificação do Cristo (João
7,30; 8,20; 17,1).
Na
Quinta-Feira Santa a Igreja une numa mesma celebração litúrgica, a memória do
Lava-pés, da Instituição da Eucaristia e da “primeira ordenação sacerdotal”.
Comparando com as narrações da Última Ceia em Mateus, Marcos e Lucas com a de
João, constata-se que nesta última a memória da Instituição da Última Ceia e da
Nova Aliança no sangue de Jesus foi substituída pela memória do Lava-pés e do
Novo Mandamento. “Como eu lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os
pés uns dos outros (versículo 14), ou em um termo menos figurativo: Como eu os
amei, assim também vocês devem amar uns aos outros” (versículo 34).
Através do
Lava-pés, os apóstolos se tornam participantes da obra salvadora de Cristo: “Se
eu não te lavar, não terás parte comigo” (13,8), esta participação se realiza
em primeiro lugar pelo batismo a que refere 13,10: “Quem se banhou não tem
necessidade de se lavar, porque está inteiramente puro”. Com efeito, através do
batismo, como diz Paulo, o cristão é “sepultado com o Cristo na morte para que,
como o Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim
também nós vivamos vida nova” (Romanos 6,4).
As duas
referências de Judas (versículos 2 e 10) parece, pelo contrário, bastante
importante para a compreensão do texto. Cristo não exclui o traidor do
benefício do rito do Lava-pés; Judas, porém, é um “impuro” e o rito não terá
para ele nenhuma utilidade. Ainda assim essa referência faz surgir o sentido da
leitura: mesmo diante daquele que o trairá, o Senhor se abaixa.
O Evangelho
de João capítulo 13 não fala da Eucaristia, como fazem Mateus, Marcos e Lucas.
Em seu lugar, aparece a cena da narração do Lava-pés, durante a Última Ceia,
quando Jesus celebrou a Páscoa com seus discípulos. Observando bem, João
trabalhou o mistério da Eucaristia de maneira completa no capítulo 6 quando
afirma que Jesus é o “Pão da vida” (João 6,35); “Eu sou o pão que desceu do
céu” (João 6,41); “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão
viverá eternamente” (João 6,51). O Evangelho de João, escrito no final do
século I da era cristã, não inclui o rito da instituição da Eucaristia (já era
vivência comum nas comunidades cristãs), mas inclui a prática dela decorrente:
o modo como os cristãos deviam relacionar-se uns com os outros – no serviço, no
amor e na gratuidade. O exemplo fantástico é o próprio Jesus que lava os pés
dos discípulos. “Se que eu sou o Mestre e Senhor lavei os seus pés, vocês
também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo (...)”
versículos 14-15).
Consciente de
estar realizando o projeto do Pai, Jesus mostra como esse projeto se traduz em
ações concretas que serão a norma da comunidade: despoja-se do manto (sinal da
dignidade do senhor) e pega o avental (toalha: ferramenta do servo). É o Senhor
que se torna servo. De fato, quem devia lavar os pés eram os escravos. Jesus
faz tudo sozinho: derrama água, lava, enxuga. Ao retomar o manto não se diz que
Ele pôs o avental e sim que vestiu o manto por cima. Isso significa que seu
serviço continuará. O Lava-pés de Jesus se prolonga até a cruz e nela tem seu
ponto alto.
Jesus se
entrega, oferece sua vida por nossa libertação. Fazendo a refeição com os seus
discípulos, ensina-nos a abrir o coração no gesto de partilha e comunhão. Comer
do mesmo prato e beber do mesmo copo é exigência para vivermos a irmandade e a
fraternidade. Jesus, porém, vai além do comer juntos. Ao lavar os pés dos
discípulos, repete o gesto dos escravos da época. Rompe assim com o esquema
dominante do seu tempo. Pedro, que acha normal o sistema de dominação, resiste
ao gesto de Jesus, não compreendendo e não aceitando que o Mestre lave os pés
dos discípulos. Lavar os pés é colocar-se a serviço, especialmente na
construção da paz. É sermos solidários com as vítimas das guerras, dos terremotos,
da dengue, da fome e da desigualdade social. É um ato de amor.
3. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
A liturgia de
hoje lembra três momentos fundamentais da história da salvação.
Primeiro momento: a Páscoa dos judeus –
jantar comemorativo da libertação do Egito. Eles comiam o cordeiro pascal,
lembrando a mão forte de Javé que os havia libertado (primeira leitura).
Segundo momento: a Páscoa de Jesus –
foi a última ceia de Jesus. Marca o início da celebração da Páscoa Cristã. A
missa vespertina da Quinta-Feira Santa atualiza para nós o gesto prático que
Jesus fez no cenáculo com seus apóstolos. Primeiro, Jesus fez o rito do jantar
dos judeus, recordando a Páscoa judaica: a libertação do Egito, a passagem do
mar Vermelho e a Primeira Aliança ao pé do monte Sinai. Em segundo lugar, nessa
mesma ceia, Jesus fez a passagem para a nova Páscoa, a Nova Aliança, agora
selada no seu sangue derramado e no pão compartilhado, memória que os cristãos
celebram sempre em cada missa. João expressa essa realidade com o rito
simbólico do lava-pés. A Eucaristia leva necessariamente para a prática, parta
o serviço. Todo o contexto da última ceia, conforme Leonardo Boff, aponta para
o martírio: corpo doado, sangue derramado. A instituição da Eucaristia não é um
rito simbólico: nela, Jesus faz a entrega de si mesmo. É um gesto definitivo,
um só (por isso, a missa não renova o sacrifício, mas o traz presente,
tornando-o visível de novo no sacramento).
Terceiro momento: a Páscoa dos cristãos
– na segunda leitura, São Paulo narra a prática dos primeiros cristãos:
reuniam-se nas casas para fazer a memória de Jesus. O grande ensinamento dessa
tradição judeu-cristã é que nós somos chamados para a caminhada da libertação.
Marcados pelo amor de Deus para construirmos um povo novo, nossa vocação é
viver em comunidade, promover a paz, a justiça, a solidariedade: viver a Páscoa
de Jesus, não conformar-se com os valores deste mundo.
O centro da
Quinta-Feira Santa é a instituição da Eucaristia, do sacerdócio cristão a
serviço e o novo mandamento do amor, fundado na não-violência. Nesse tripé está
nosso ideal cristão, nosso sonho de um novo mundo:
·
A instituição da Eucaristia nos lembra a
partilha dos bens. Se todos somos filhos e filhas do mesmo Pai, se todos somos
irmãos, a mesa do mundo deve ser para todos, sem fome, sem miséria, sem
exclusões. Por que o mundo não coloca as potencialidades enormes de riqueza que
tem a serviço da vida? Eis o convite da Eucaristia. Quem comunga sinceramente
deve querer um mundo mais partilhado.
·
O sacerdócio cristão colocado a serviço do povo
nos lembra que o poder deve ser partilhado. Que o maior é aquele que serve. Que
nossa atitude fundamental deve ser a do lava-pés, e não a busca desenfreada das
honras, do prestígio, que acaba dominando os mais fracos. “Se eu que sou Mestre
e Senhor vos lavei os pés...” Esse gesto de Jesus nos mostra como a tão
apregoada democracia, da qual o mundo ocidental tanto fala, não é eucarística,
porque não se põe a serviço, mas concentra sempre mais.
·
O mandamento do amor nos lembra que a atitude
suprema do ser humano, a exemplo de Cristo, é o perdão, a acolhida, a
solidariedade, o empenho pela justiça, da qual vem a paz. Nunca o ódio, o
revide, a violência, a guerra.
“Ao entrar neste mundo, tão marcado pelas injustiças
e pelo ódio, pela segregação e perda de sentido da vida, Jesus Cristo vem nos
ensinar a amar com o amor de Deus e a sermos felizes”.
O Mestre toma
nas mãos o jarro com água e lava os pés dos discípulos. Veio para servir e faz
questão de nos ensinar a fazer como ele. Ser discípulo é assumir como lema de
cada dia o serviço gratuito aos irmãos e irmãs, a começar pelos mais
necessitados.
A beleza do
amor gratuito está em viver a generosidade e a alegria de Deus que “nos amou
primeiro” e quer o nosso bem antes que nós possamos amá-lo e agradecer-lhe. Os
gestos de amor gratuito não pesam, pois nascem da bondade do coração e alegram
a pessoa que ama no mais profundo de seu ser. A felicidade está em dar (At
20,35), isto é, em experimentar, como fruto da bondade, a beleza de fazer o
bem, de ajudar os outros, a exemplo do próprio Deus. Ao lavar os pés, Jesus
acrescenta: “Sereis felizes, se fizerdes assim” (João 13,17). Para ser feliz
assim, é preciso amar gratuitamente.
4. A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO
A glória da Cruz de Cristo Jesus
A antífona de
entrada cantada pela assembléia põe em relevo a Cruz afirmando-a como a única
glória dom povo cristão (cf. Gálatas 6,14). Numa feliz versão para essa
antífona, o compositor Pe. Campos articula a Cruz e o mandamento do amor, muito
importante para compreender em que consiste exatamente a glória da cruz: “Nós
nos gloriamos na cruz de nosso Senhor, que hoje resplandece com novo mandamento
do amor”. O amor extremo com o qual Deus, em Jesus, nos ama é o “fundamento” da
cruz e do sacramento que, ritualmente, nos faz dela participantes. Conforme a
Oração do Dia é “banquete do seu amor” que gera a “caridade e a vida”. é neste
sentido que as Constituições Apostólicas (século IV) nos trazem, no texto mais
antigo de uma Anáfora siríaca, o sentido da Cruz de Jesus: “O Juiz foi julgado,
o Salvador foi condenado, o Impassível foi cravado numa cruz e o Imortal, por
natureza, morreu. Ele que faz viver foi sepultado, para libertar do sofrimento
e arrancar da morte aqueles por quem viera, e para quebrar os laços do diabo e
libertar os homens de seus enganos.” A experiência salvadora da Cruz fundada no
amor de Deus, em Jesus, tem por objetivo retirar o Antigo Adão da morte,
recriando-o como nova criatura à imagem do Novo Adão, o Ressuscitado. Para isso
o caminho da Cruz tornou-se para Jesus, uma rota exigente: mergulhou na morte
para dela retirar os que tinham sido por ela encarcerados.
A ação ritual
do Lava-Pés é a demonstração mais silenciosa desta verdade, à qual os cristãos
subordinam sua existência. O primado do amor que se desdobra em caridade, em
auxílio mútuo. Através do serviço que os cristãos e cristãs prestam aos seus
irmãos e irmãs, o bom odor de Cristo se vê espalhado e isso como fruto da
renovação experimentada pelos sacramentos... e estes, sobretudo a Eucaristia,
não podem ser celebrados desconectados deste desdobramento ético vital.
5. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA
No centro da
liturgia eucarística, repetimos e atualizamos as palavras do Apóstolo Paulo:
“Todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice estão anunciando
a morte do Senhor até que ele venha”.
O mistério da
fé que celebramos na Eucaristia é o mistério pascal da morte e ressurreição do
Senhor Jesus, atuante nas realidades pessoal, comunitária e social. É a
celebração do mistério pascal de Jesus Cristo representado na ação simbólico-ritual com o pão e o
vinho.
Anunciar a
morte do Senhor “até que ele venha” implica para todos nós o compromisso de
transformar nossa vida, de tal forma que se torne eucaristia, sinal de
comunhão.
Como “cume e
fonte”, a celebração eucarística deve nos ajudar a discernir e expressar, na
liturgia, a presença pascal de Cristo em nossa vida pessoal, comunitária e
social; deve nos levar a fazer de toda a nossa vida uma caminhada pascal e a
nos comprometermos com a transformação do mundo.
Quando nos
reunimos para celebrar a Eucaristia, estamos vindo das nossas tribulações e
angústias do dia-a-dia para buscarmos em Cristo força e sustento para nossa
caminhada. Na missa, a Palavra de Deus nos educa e o mistério pascal de Cristo
nos convoca para ofertarmos nossa vida e transformá-la numa oferta agradável a
deus, completando assim o que falta à Paixão de Cristo. Na última ceia,
antecipando sua Paixão, Cristo renovou, no seu sangue, a Primeira Aliança.
Celebrando agora sua memória na missa, estamos nos oferecendo com Cristo,
entrando em comunhão com ele e proclamando sua ressurreição “até que ele
venha”.
6. O LAVA-PÉS
Tradicionalmente
a “ação ritual do lava-pés” evoca o significado profundo da entrega de Jesus,
antecipada e anunciada profeticamente, no sacramento da Eucaristia. Embora
opcional essa ação ritual, costuma ser celebrada em todas as paróquias e
comunidades, é de grande valor e estima por parte dos fiéis. Ele tem duplo significado:
primeiro, é gesto profético que
anuncia a morte de Jesus como Servo Sofredor; Ele realiza um trabalho de
escravo, antecipando sua morte na cruz, que era uma condenação reservada aos
escravos. Segundo, é sinal de sua
doação total, de seu amor. E este amor deverá ser vivido por nós, seus
discípulos e discípulas, na continuação da missão do Servo do Senhor: “eu dei o
exemplo para que vocês façam a mesma coisa que eu fiz” (João 13,15).
Infelizmente,
em não poucas partes, ganhou aspecto bastante teatral, sobretudo quando a
comunidade não é envolvida e assiste como expectadora a um grupo que se veste
como apóstolos. Não é preciso que as pessoas se vistam com figurino da época,
mas assumam a “psicologia” dos personagens.
Escolher
pessoas engajadas na pastoral, ou outras que prestam um serviço significativo,
ou, ainda, pessoas ligadas com o tema da CF deste ano; não é necessário que os
“apóstolos” sejam homens, nem que sejam em número de doze (é preciso evitar que
o Lava-pés se pareça com teatro ou folclore).
Pe. Benedito
Mazeti
Assessor
diocesano de Liturgia - Diocese de São José do Rio Preto - SP.

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