terça-feira, 31 de março de 2015

“E TENDO AMADO OS SEUS QUE ESTAVAM NO MUNDO AMOU-OS ATÉ O FIM”

QUINTA-FEIRA DA CEIA DO SENHOR
ANO B
02 de abril de 2015

Leituras

     Êxodo 12,1-8.11-14. E comerão às pressas, pois é a Páscoa do Senhor.
     Salmo 115/116,12-13.15-116bc.17-18. Elevo o cálice da minha salvação.
     1Coríntios 11,23-26. Fazei isto em memória de mim.
     João 13,1-15. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.



            1.    PONTO DE PARTIDA

Quinta-Feira Santa da Ceia do Senhor. Com esta celebração, iniciamos o Tríduo Pascal, no qual fazemos memória do nucleio central de nossa fé: a paixão, morte e ressurreição de Jesus. No Tríduo Pascal, celebramos a Páscoa de Jesus em três dimensões. Hoje celebramos a Páscoa da ceia. Amanhã, celebraremos a Páscoa da paixão. Na Vigília Pascal e no domingo de Páscoa, celebraremos a Páscoa da ressurreição.
Na Páscoa da ceia, celebramos o mandato novo de Jesus na ceia que realizou com seus apóstolos: “Fazei isto em memória de mim”. Naquela celebração pascal, Jesus dá uma prova concreta de amor por seu povo, pois Ele se doa totalmente a nós. O centro do rito é uma ceia, com a família reunida, com a comunidade reunida.
E essa doação e entrega se concretiza no serviço que Jesus presta, simbolizado no gesto do lava-pés. Isso nos sugere que a partilha di banquete eucarístico deve ser continuada no serviço fraterno da caridade e na busca da inclusão social.

             2.    REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Contemplando os textos
Primeira leitura – Êxodo 12,1-8.11-14. É a narrativa de como os judeus deviam celebrar a Páscoa, ao deixar o Egito. A origem da está na tradição mais antiga de Israel como povo de pastores. Imolava-se um cordeiro e tingia-se com seu sangue a porta da tenda para afugentar o mal, as pragas que poderia acontecer ao rebanho. Com a libertação do Egito, tornou-se a festa central do Povo de Deus, o dia nacional da libertação, quando o Senhor, com mão forte e braço estendido, libertou seu povo da escravidão. “Esse dia será para vocês um memorial permanente” (Êxodo 12,14).  Portanto o ritual da Páscoa do Primeiro Testamento é a transformação de um rito celebrado por nômades por ocasião de uma festa pastoril da primavera.

A citação abreviada da fórmula que fala da atuação de Deus “Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão” (Êxodo 12,12; cf. Êxodo 20,2), transforma a celebração da Páscoa em uma revelação atual do Deus de Israel, que envolve o passado e o futuro de Israel. Por isso, cada celebração nova da ação libertadora de Deus no passado encerra uma confissão de fé na atuação presente e um ato de esperança na atuação futura de Deus.
Com relação ao rito da ceia pascal, o texto nos dá algumas indicações importantes:
- a Páscoa marca o início de uma nova era, o tempo da libertação. É a vitória do povo sobre as forças opressoras;
- para que esta nova era aconteça é preciso que haja partilha (versículo 4);
- é uma festa que visa a preservação da vida: servirá de sinal para a preservação de Israel como povo, pois estava ameaçado de desaparecer pela política do Faraó;
- é uma festa de memória histórica. É celebrada às pressas. Os que dela participam devem estar preparados para uma longa viagem que os levará para fora do sistema opressor e os conduzirá a uma nova sociedade baseada na justiça e na liberdade.
 Descobrindo em Jesus o verdadeiro Cordeiro (João 13,1; 18,28) e fazendo coincidir a imolação dos cordeiros no Templo de Jerusalém com a morte de Cristo (João 9,14.31.42; 1Coríntios 5,6-8), João convida os cristãos a compreenderem que toda doutrina do rito pascal se consuma no sacrifício de Cristo que, de fato, constitui o povo definitivo, obtém-lhe verdadeiramente a libertação total do domínio do mal, e situa o cristão como um peregrino em marcha para a terra prometida (1Pedro 1,17) onde o Cordeiro reinará cercado de todo o povo resgatado por Ele (Apocalipse 5,6-13; 7,2-17; 12,11; 19,1-9).

Salmo responsorial 116/115,12-13.15-16bc.17-18. O Salmo 116/115 é um canto Eucarístico, ou de ação de graças. A ação de graças incluiu vários ritos: invocação do Senhor para o louvor, cumprimento dos votos, testemunho público diante da assembléia; e um rito com um “cálice de salvação”, talvez para beber. Nos versículos de 15 a 16, aparece o tema da libertação: a libertação pode ser imagem, pois está unida com a salvação no perigo de morte.
Mostra de maneira clara no Salmo um agradecimento de alguém que recebeu de Deus uma grande graça, a graça da vida, a libertação de alguma doença (versículo 8). Por isso o salmista, com muita confiança, faz um gesto público de louvor, “erguendo o cálice da salvação”. Essa pessoa que partilhar com o povo a ação de Deus na sua vida.
Nossa liturgia eucarística retomou dois versículos deste Salmo: ma missa oferecemos ao Pai o sacrifício do seu Filho: é a nossa suprema ação de graças, que Ele aceita; é o cumprimento dos nossos votos na presença de toda a assembléia eucarística. Depois participamos deste “cálice da salvação”, invocando o nome do Senhor.
O rosto de Deus neste Salmo é de um Deus que inclina o ouvido, salva e liberta. É o mesmo esquema do êxodo: o povo clama, Deus escuta e liberta. E o Deus deste Salmo é o mesmo do êxodo e da Aliança.
Uma frase importante do Salmo é: “É sentida por demais pelo Senhor a morte de seus santos, seus amigos”. Custa para Deus aceitar que a vida de seus fiéis desapareça prematuramente. Deus sofre quando um de seus servos morre de uma enfermidade fatal, isto é, sente muito quando a doença acaba com a vida de uma servo seu. Porque Ele é o Deus da vida.
Foi por isso que Jesus curou todos os doentes que encontrou em suas viagens missionárias, vencendo até a própria morte. E por causa disso muitos aprenderam a amar Deus Pai em Deus Filho.
Com o salmista, vamos erguer o cálice da libertação, porque, mesmo vivendo no meio dos conflitos e sofrimentos, experimentamos a alegria da sua presença amorosa no meio de nós:

O CÁLICE POR NÓS ABENÇOADO
É ANOSSA COMUNHÃO COM O SANGUE DO SENHOR.

Segunda leitura – 1Coríntios 11,23-26.  De início, o Apóstolo indica as circunstâncias precisas do acontecimento: “Na noite em que foi entregue o Senhor Jesus tomou o pão...” (11,23). Ele se refere não à última ceia, mas  à noite em que o Cristo foi entregue, noite que veio à tona a maldade humana, a traição de Judas Iscariotes, a dispersão dos discípulos, a negação de Pedro, mas, ao mesmo tempo, deu origem ao supremo gesto de amor de Cristo, a Eucaristia, que sintetiza o todo o sentido de sua vida e de sua morte.

A mais antiga narrativa da Ceia do Senhor vem do Apóstolo Paulo. Ele escreveu a uma comunidade dividida e que não estava ligando a celebração da Ceia à repartição dos bens e a solidariedade. As comunidades cristãs celebravam a Eucaristia como memorial da Páscoa de Jesus. O contexto dessa narração nos mostra como Paulo insiste que não se trata apenas de um rito, mas de uma prática profunda de comunhão fraterna.
A Ceia do Senhor é comemoração da morte do Senhor e proclamação de Sua volta. Participar nesta Ceia pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo é confessar que a nossa vida repousa sobre novos eixos. Os eixos do pecado e da morte, que marcaram a existência anterior, foram substituídos pelos eixos do perdão e da vida, fundamentados na morte e ressurreição de Jesus Cristo. Na morte, Jesus revelou que toda a razão de ser de sua vida neste mundo era existir para os outros, colocar-se a serviço dos outros e entregar-se em favor dos outros, isto é, lavar os pés uns dos outros. Na ressurreição, Deus revelou que este modo de ser-homem é o modo de existir autentico de toda pessoa humana. Crer nesta morte e ressurreição e participar nelas pela comunhão do Corpo e Sangue de Cristo morto e ressuscitado, é reconhecer e abraçar uma mudança radical de existir neste mundo. A razão de nossa existência será de agora em diante lavar os pés uns dos outros, isto é, dar a vida pelos outros para assim recebê-la de volta de Deus. Comungar o Corpo e Sangue de Cristo sem esta mudança é recebê-los indignamente e “comer e beber a sua própria condenação” (versículo 29).
Evangelho – João 13,1-15. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória...”. Em todo o ministério público de Jesus (João 2,11: “Este início dos sinais, Jesus o fez em Cana da Galiléia e manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele”) e o que é mais surpreendente, esta glória se manifesta na cruz (João 17,1: “Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho para que o teu Filho glorifique a ti”).
Esta glorificação acontece mediante a morte, João se refere logo de início em 13,1 (“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegou a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”).
O termo “hora” para João não indica um momento determinado do dia, mas possui uma significação simbólica e teológica e engloba a morte e glorificação do Cristo (João 7,30; 8,20; 17,1).
Na Quinta-Feira Santa a Igreja une numa mesma celebração litúrgica, a memória do Lava-pés, da Instituição da Eucaristia e da “primeira ordenação sacerdotal”. Comparando com as narrações da Última Ceia em Mateus, Marcos e Lucas com a de João, constata-se que nesta última a memória da Instituição da Última Ceia e da Nova Aliança no sangue de Jesus foi substituída pela memória do Lava-pés e do Novo Mandamento. “Como eu lavei os pés de vocês, também vocês devem lavar os pés uns dos outros (versículo 14), ou em um termo menos figurativo: Como eu os amei, assim também vocês devem amar uns aos outros” (versículo 34).
Através do Lava-pés, os apóstolos se tornam participantes da obra salvadora de Cristo: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (13,8), esta participação se realiza em primeiro lugar pelo batismo a que refere 13,10: “Quem se banhou não tem necessidade de se lavar, porque está inteiramente puro”. Com efeito, através do batismo, como diz Paulo, o cristão é “sepultado com o Cristo na morte para que, como o Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Romanos 6,4).
As duas referências de Judas (versículos 2 e 10) parece, pelo contrário, bastante importante para a compreensão do texto. Cristo não exclui o traidor do benefício do rito do Lava-pés; Judas, porém, é um “impuro” e o rito não terá para ele nenhuma utilidade. Ainda assim essa referência faz surgir o sentido da leitura: mesmo diante daquele que o trairá, o Senhor se abaixa.
O Evangelho de João capítulo 13 não fala da Eucaristia, como fazem Mateus, Marcos e Lucas. Em seu lugar, aparece a cena da narração do Lava-pés, durante a Última Ceia, quando Jesus celebrou a Páscoa com seus discípulos. Observando bem, João trabalhou o mistério da Eucaristia de maneira completa no capítulo 6 quando afirma que Jesus é o “Pão da vida” (João 6,35); “Eu sou o pão que desceu do céu” (João 6,41); “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (João 6,51). O Evangelho de João, escrito no final do século I da era cristã, não inclui o rito da instituição da Eucaristia (já era vivência comum nas comunidades cristãs), mas inclui a prática dela decorrente: o modo como os cristãos deviam relacionar-se uns com os outros – no serviço, no amor e na gratuidade. O exemplo fantástico é o próprio Jesus que lava os pés dos discípulos. “Se que eu sou o Mestre e Senhor lavei os seus pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo (...)” versículos 14-15).
Consciente de estar realizando o projeto do Pai, Jesus mostra como esse projeto se traduz em ações concretas que serão a norma da comunidade: despoja-se do manto (sinal da dignidade do senhor) e pega o avental (toalha: ferramenta do servo). É o Senhor que se torna servo. De fato, quem devia lavar os pés eram os escravos. Jesus faz tudo sozinho: derrama água, lava, enxuga. Ao retomar o manto não se diz que Ele pôs o avental e sim que vestiu o manto por cima. Isso significa que seu serviço continuará. O Lava-pés de Jesus se prolonga até a cruz e nela tem seu ponto alto.
Jesus se entrega, oferece sua vida por nossa libertação. Fazendo a refeição com os seus discípulos, ensina-nos a abrir o coração no gesto de partilha e comunhão. Comer do mesmo prato e beber do mesmo copo é exigência para vivermos a irmandade e a fraternidade. Jesus, porém, vai além do comer juntos. Ao lavar os pés dos discípulos, repete o gesto dos escravos da época. Rompe assim com o esquema dominante do seu tempo. Pedro, que acha normal o sistema de dominação, resiste ao gesto de Jesus, não compreendendo e não aceitando que o Mestre lave os pés dos discípulos. Lavar os pés é colocar-se a serviço, especialmente na construção da paz. É sermos solidários com as vítimas das guerras, dos terremotos, da dengue, da fome e da desigualdade social. É um ato de amor.

            3.    DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

A liturgia de hoje lembra três momentos fundamentais da história da salvação.
Primeiro momento: a Páscoa dos judeus – jantar comemorativo da libertação do Egito. Eles comiam o cordeiro pascal, lembrando a mão forte de Javé que os havia libertado (primeira leitura).
Segundo momento: a Páscoa de Jesus – foi a última ceia de Jesus. Marca o início da celebração da Páscoa Cristã. A missa vespertina da Quinta-Feira Santa atualiza para nós o gesto prático que Jesus fez no cenáculo com seus apóstolos. Primeiro, Jesus fez o rito do jantar dos judeus, recordando a Páscoa judaica: a libertação do Egito, a passagem do mar Vermelho e a Primeira Aliança ao pé do monte Sinai. Em segundo lugar, nessa mesma ceia, Jesus fez a passagem para a nova Páscoa, a Nova Aliança, agora selada no seu sangue derramado e no pão compartilhado, memória que os cristãos celebram sempre em cada missa. João expressa essa realidade com o rito simbólico do lava-pés. A Eucaristia leva necessariamente para a prática, parta o serviço. Todo o contexto da última ceia, conforme Leonardo Boff, aponta para o martírio: corpo doado, sangue derramado. A instituição da Eucaristia não é um rito simbólico: nela, Jesus faz a entrega de si mesmo. É um gesto definitivo, um só (por isso, a missa não renova o sacrifício, mas o traz presente, tornando-o visível de novo no sacramento).
Terceiro momento: a Páscoa dos cristãos – na segunda leitura, São Paulo narra a prática dos primeiros cristãos: reuniam-se nas casas para fazer a memória de Jesus. O grande ensinamento dessa tradição judeu-cristã é que nós somos chamados para a caminhada da libertação. Marcados pelo amor de Deus para construirmos um povo novo, nossa vocação é viver em comunidade, promover a paz, a justiça, a solidariedade: viver a Páscoa de Jesus, não conformar-se com os valores deste mundo.
O centro da Quinta-Feira Santa é a instituição da Eucaristia, do sacerdócio cristão a serviço e o novo mandamento do amor, fundado na não-violência. Nesse tripé está nosso ideal cristão, nosso sonho de um novo mundo:
·      A instituição da Eucaristia nos lembra a partilha dos bens. Se todos somos filhos e filhas do mesmo Pai, se todos somos irmãos, a mesa do mundo deve ser para todos, sem fome, sem miséria, sem exclusões. Por que o mundo não coloca as potencialidades enormes de riqueza que tem a serviço da vida? Eis o convite da Eucaristia. Quem comunga sinceramente deve querer um mundo mais partilhado.
·      O sacerdócio cristão colocado a serviço do povo nos lembra que o poder deve ser partilhado. Que o maior é aquele que serve. Que nossa atitude fundamental deve ser a do lava-pés, e não a busca desenfreada das honras, do prestígio, que acaba dominando os mais fracos. “Se eu que sou Mestre e Senhor vos lavei os pés...” Esse gesto de Jesus nos mostra como a tão apregoada democracia, da qual o mundo ocidental tanto fala, não é eucarística, porque não se põe a serviço, mas concentra sempre mais.
·      O mandamento do amor nos lembra que a atitude suprema do ser humano, a exemplo de Cristo, é o perdão, a acolhida, a solidariedade, o empenho pela justiça, da qual vem a paz. Nunca o ódio, o revide, a violência, a guerra.
“Ao entrar neste mundo, tão marcado pelas injustiças e pelo ódio, pela segregação e perda de sentido da vida, Jesus Cristo vem nos ensinar a amar com o amor de Deus e a sermos felizes”.
O Mestre toma nas mãos o jarro com água e lava os pés dos discípulos. Veio para servir e faz questão de nos ensinar a fazer como ele. Ser discípulo é assumir como lema de cada dia o serviço gratuito aos irmãos e irmãs, a começar pelos mais necessitados.
A beleza do amor gratuito está em viver a generosidade e a alegria de Deus que “nos amou primeiro” e quer o nosso bem antes que nós possamos amá-lo e agradecer-lhe. Os gestos de amor gratuito não pesam, pois nascem da bondade do coração e alegram a pessoa que ama no mais profundo de seu ser. A felicidade está em dar (At 20,35), isto é, em experimentar, como fruto da bondade, a beleza de fazer o bem, de ajudar os outros, a exemplo do próprio Deus. Ao lavar os pés, Jesus acrescenta: “Sereis felizes, se fizerdes assim” (João 13,17). Para ser feliz assim, é preciso amar gratuitamente.

            4.    A PALAVRA DE FAZ CELEBRAÇÃO

A glória da Cruz de Cristo Jesus
A antífona de entrada cantada pela assembléia põe em relevo a Cruz afirmando-a como a única glória dom povo cristão (cf. Gálatas 6,14). Numa feliz versão para essa antífona, o compositor Pe. Campos articula a Cruz e o mandamento do amor, muito importante para compreender em que consiste exatamente a glória da cruz: “Nós nos gloriamos na cruz de nosso Senhor, que hoje resplandece com novo mandamento do amor”. O amor extremo com o qual Deus, em Jesus, nos ama é o “fundamento” da cruz e do sacramento que, ritualmente, nos faz dela participantes. Conforme a Oração do Dia é “banquete do seu amor” que gera a “caridade e a vida”. é neste sentido que as Constituições Apostólicas (século IV) nos trazem, no texto mais antigo de uma Anáfora siríaca, o sentido da Cruz de Jesus: “O Juiz foi julgado, o Salvador foi condenado, o Impassível foi cravado numa cruz e o Imortal, por natureza, morreu. Ele que faz viver foi sepultado, para libertar do sofrimento e arrancar da morte aqueles por quem viera, e para quebrar os laços do diabo e libertar os homens de seus enganos.” A experiência salvadora da Cruz fundada no amor de Deus, em Jesus, tem por objetivo retirar o Antigo Adão da morte, recriando-o como nova criatura à imagem do Novo Adão, o Ressuscitado. Para isso o caminho da Cruz tornou-se para Jesus, uma rota exigente: mergulhou na morte para dela retirar os que tinham sido por ela encarcerados.
A ação ritual do Lava-Pés é a demonstração mais silenciosa desta verdade, à qual os cristãos subordinam sua existência. O primado do amor que se desdobra em caridade, em auxílio mútuo. Através do serviço que os cristãos e cristãs prestam aos seus irmãos e irmãs, o bom odor de Cristo se vê espalhado e isso como fruto da renovação experimentada pelos sacramentos... e estes, sobretudo a Eucaristia, não podem ser celebrados desconectados deste desdobramento ético vital.

            5.    LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

No centro da liturgia eucarística, repetimos e atualizamos as palavras do Apóstolo Paulo: “Todas as vezes que vocês comem deste pão e bebem deste cálice estão anunciando a morte do Senhor até que ele venha”.
O mistério da fé que celebramos na Eucaristia é o mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor Jesus, atuante nas realidades pessoal, comunitária e social. É a celebração do mistério pascal de Jesus Cristo representado na ação simbólico-ritual com o pão e o vinho.
Anunciar a morte do Senhor “até que ele venha” implica para todos nós o compromisso de transformar nossa vida, de tal forma que se torne eucaristia, sinal de comunhão.
Como “cume e fonte”, a celebração eucarística deve nos ajudar a discernir e expressar, na liturgia, a presença pascal de Cristo em nossa vida pessoal, comunitária e social; deve nos levar a fazer de toda a nossa vida uma caminhada pascal e a nos comprometermos com a transformação do mundo.
Quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia, estamos vindo das nossas tribulações e angústias do dia-a-dia para buscarmos em Cristo força e sustento para nossa caminhada. Na missa, a Palavra de Deus nos educa e o mistério pascal de Cristo nos convoca para ofertarmos nossa vida e transformá-la numa oferta agradável a deus, completando assim o que falta à Paixão de Cristo. Na última ceia, antecipando sua Paixão, Cristo renovou, no seu sangue, a Primeira Aliança. Celebrando agora sua memória na missa, estamos nos oferecendo com Cristo, entrando em comunhão com ele e proclamando sua ressurreição “até que ele venha”.

            6.    O LAVA-PÉS

Tradicionalmente a “ação ritual do lava-pés” evoca o significado profundo da entrega de Jesus, antecipada e anunciada profeticamente, no sacramento da Eucaristia. Embora opcional essa ação ritual, costuma ser celebrada em todas as paróquias e comunidades, é de grande valor e estima por parte dos fiéis. Ele tem duplo significado: primeiro, é gesto profético que anuncia a morte de Jesus como Servo Sofredor; Ele realiza um trabalho de escravo, antecipando sua morte na cruz, que era uma condenação reservada aos escravos. Segundo, é sinal de sua doação total, de seu amor. E este amor deverá ser vivido por nós, seus discípulos e discípulas, na continuação da missão do Servo do Senhor: “eu dei o exemplo para que vocês façam a mesma coisa que eu fiz” (João 13,15).
Infelizmente, em não poucas partes, ganhou aspecto bastante teatral, sobretudo quando a comunidade não é envolvida e assiste como expectadora a um grupo que se veste como apóstolos. Não é preciso que as pessoas se vistam com figurino da época, mas assumam a “psicologia” dos personagens.
Escolher pessoas engajadas na pastoral, ou outras que prestam um serviço significativo, ou, ainda, pessoas ligadas com o tema da CF deste ano; não é necessário que os “apóstolos” sejam homens, nem que sejam em número de doze (é preciso evitar que o Lava-pés se pareça com teatro ou folclore).

Pe. Benedito Mazeti
Assessor diocesano de Liturgia - Diocese de São José do Rio Preto - SP.

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