Edemilton dos Santos[1]
No ano de 1983 a CNBB convocava
os fieis católicos e o povo em geral para refletir sobre a Violência na
Campanha da Fraternidade daquele ano. O tema, Fraternidade e Violência, chamava
a atenção para tantas formas de violência que estavam acontecendo no Brasil
naquele ano. O lema, Fraternidade Sim, Violência Não, convocava o povo e os
governantes a optar pela fraternidade ao invés da violência.
Para ilustrar, eis alguns pontos
da história:
Na Região Nordeste, 1983 será lembrado como o ano em
que a seca chegou ao auge. Iniciada em 1979 a seca deixou milhares de famílias
desabrigadas sem água e as mulheres e as crianças são as que mais sofreram com
a estiagem.
E se como não bastasse, a economia vivia dias de
terror. A inflação chegava a incríveis 200% ao mês. O cruzeiro, moeda da época
foi maxidesvalorizado. Em abril, uma onda de saques assolou São Paulo. Mais de
200 estabelecimentos comerciais foram alvo de saqueadores.
E ainda teve as enchentes no Sul do País. Somente em 5
e 6 de julho choveu na região a impressionante marca de 170 mm. E os
brasileiros foram solidários e doaram mantimentos às vítimas do flagelo no Sul.
Depois de sete anos de ditadura militar, a Argentina
voltava a respirar democracia com a posse de Raul Alfonsin, o primeiro
presidente civil eleito pelo voto.[2]
A semelhança que existe entre os dois cartazes
são as pessoas de mãos dadas e na diversidade de raças. A diferença e de que no
de 1983 são crianças e adolescentes que clamam um mundo mais fraterno e no
cartaz atual são pessoas de diferentes idades pedindo a superação da violência.
Alguns pontos a serem refletidos
neste ano:
No Brasil, criou-se um discurso conveniente, segundo o
qual o povo brasileiro é pacífico; contudo, basta observar com cautela a
sociedade para perceber como a violência está presente no dia a dia das
pessoas.
A definição mais genuína da palavra cultura é “cultivo”.
Disseminar uma cultura é cultivar um modo de ser, de estar e de agir. Quando se
apresenta a violência como cultura, parte-se de uma análise da realidade em que
comportamentos, mídias, expressões verbais, músicas etc. foram se tornando
“normais”, “comuns”.
A cultura da violência é uma cultura excludente, pois
a associa às classes sociais e raciais, criando, assim, estigmas sociais como
“o povo daquele país não presta”, “aquele rapaz tem cara de bandido”, “aquela
mulher merece apanhar”
A violência apresenta-se nas mais variadas formas:
física, psicológica, institucional, sexual, de gênero, doméstica, simbólica,
entre outras. Superar as várias faces da violência é tarefa de todos.
O não atendimento aos direitos elementares das pessoas
constitui um nascedouro para a violência em sociedade.
O convite que a Igreja faz, por meio da Campanha da
Fraternidade, não visa à superação de um quadro estatístico cheio de dados e
números; ela convida à superação na vida e na história de cada homem e mulher
subtraídos de seus direitos.
A superação da violência não é uma teoria, mas deve
ser um caminho de ativa transformação. Essa mudança passa pela pessoa, pela
comunidade e pela sociedade. A conversão conjugada dessas três realidades é uma
trilha segura para todo desejo de superação.[3]
Como se percebe no texto do Pe.
Luiz Fernando da Silva, não existe uma única forma de violência, mas várias
formas de violência. Além das várias formas existem, também, os vários rostos
da violência tanto os que sofrem como os que promovem. Estamos vivendo um tempo
sombrio no país que é marcado por várias formas de violência, sobretudo um ódio
sem necessidade que provoca a ira tanto falada como escrita. Essas
manifestações estão em todas as partes, isto é, em muitas ações físicas ou
redes sociais. Diante dessa realidade é preciso nos perguntar: o que estamos
fazendo para amenizar a violência?
Que possamos, ao longo desse ano,
refletir sobre esse tema tão pertinente, principalmente por se tratar de um ano
eleitoral. Que os planos de governo dos candidatos possam estar voltados para a
paz. Que a forma dos candidatos expressarem sua campanha seja uma forma de paz
e não de violência. E esse pode ser a evidência, para nós cristãos e cristãs,
prestar a atenção nas campanhas eleitorais e não votar em candidato que incita
a violência.
Que Deus, por meio de Jesus
Cristo na ação do Espírito Santo nos ajude a sermos mais solidários e
promotores da paz! Que Maria nos ajude a encontrar o caminho da paz que nos
leva a seguir e testemunhar Jesus Cristo nas nossas ações diárias.
[1] Licenciado
em Filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi, graduando em Teologia pela
Universidade Católica Dom Bosco, Graduando em Sociologia pela Uninter,
pós-graduando em Docência no Ensino Superior pela Unicesumar e professor da
Rede Pública do Estado de Santa Catarina.
[2] NUNES,
Kleber. O Brasil e o Mundo em 1983: Nordeste sofre com seca, surge a Rede
Manchete e país sofre com saques e inflação alta. Disponível em:
<http://contandohistoria1977.blogspot.com.br/2013/07/o-brasil-e-o-mundo-em-1983-nordeste.html>.
Acesso em 14fev de 2018.
[3] SILVA,
Luiz Fernando da. Fraternidade e superação da violência. Vida Pastoral. São
Paulo: Paulus, ano 59, n.39, p. 3-12, jan-fev 2018.


Nenhum comentário:
Postar um comentário