quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018: UMA RETOMADA DE 1983


                                                                                                                           Edemilton dos Santos[1]


No ano de 1983 a CNBB convocava os fieis católicos e o povo em geral para refletir sobre a Violência na Campanha da Fraternidade daquele ano. O tema, Fraternidade e Violência, chamava a atenção para tantas formas de violência que estavam acontecendo no Brasil naquele ano. O lema, Fraternidade Sim, Violência Não, convocava o povo e os governantes a optar pela fraternidade ao invés da violência.

Para ilustrar, eis alguns pontos da história:


Na Região Nordeste, 1983 será lembrado como o ano em que a seca chegou ao auge. Iniciada em 1979 a seca deixou milhares de famílias desabrigadas sem água e as mulheres e as crianças são as que mais sofreram com a estiagem.

E se como não bastasse, a economia vivia dias de terror. A inflação chegava a incríveis 200% ao mês. O cruzeiro, moeda da época foi maxidesvalorizado. Em abril, uma onda de saques assolou São Paulo. Mais de 200 estabelecimentos comerciais foram alvo de saqueadores.

E ainda teve as enchentes no Sul do País. Somente em 5 e 6 de julho choveu na região a impressionante marca de 170 mm. E os brasileiros foram solidários e doaram mantimentos às vítimas do flagelo no Sul.

Depois de sete anos de ditadura militar, a Argentina voltava a respirar democracia com a posse de Raul Alfonsin, o primeiro presidente civil eleito pelo voto.[2]


Hoje, 14 de fevereiro de 2018, 35 anos depois, motivada por uma forte concentração da violência no
Brasil, a CNBB volta com o tema para ser refletido durante a Quaresma e o ano todo. A diferença é de que o tema tem um acréscimo a mais: Fraternidade e Superação da Violência e o lema “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

 A semelhança que existe entre os dois cartazes são as pessoas de mãos dadas e na diversidade de raças. A diferença e de que no de 1983 são crianças e adolescentes que clamam um mundo mais fraterno e no cartaz atual são pessoas de diferentes idades pedindo a superação da violência.

Alguns pontos a serem refletidos neste ano:


No Brasil, criou-se um discurso conveniente, segundo o qual o povo brasileiro é pacífico; contudo, basta observar com cautela a sociedade para perceber como a violência está presente no dia a dia das pessoas.

A definição mais genuína da palavra cultura é “cultivo”. Disseminar uma cultura é cultivar um modo de ser, de estar e de agir. Quando se apresenta a violência como cultura, parte-se de uma análise da realidade em que comportamentos, mídias, expressões verbais, músicas etc. foram se tornando “normais”, “comuns”.

A cultura da violência é uma cultura excludente, pois a associa às classes sociais e raciais, criando, assim, estigmas sociais como “o povo daquele país não presta”, “aquele rapaz tem cara de bandido”, “aquela mulher merece apanhar”

A violência apresenta-se nas mais variadas formas: física, psicológica, institucional, sexual, de gênero, doméstica, simbólica, entre outras. Superar as várias faces da violência é tarefa de todos.

O não atendimento aos direitos elementares das pessoas constitui um nascedouro para a violência em sociedade.

O convite que a Igreja faz, por meio da Campanha da Fraternidade, não visa à superação de um quadro estatístico cheio de dados e números; ela convida à superação na vida e na história de cada homem e mulher subtraídos de seus direitos.

A superação da violência não é uma teoria, mas deve ser um caminho de ativa transformação. Essa mudança passa pela pessoa, pela comunidade e pela sociedade. A conversão conjugada dessas três realidades é uma trilha segura para todo desejo de superação.[3]


Como se percebe no texto do Pe. Luiz Fernando da Silva, não existe uma única forma de violência, mas várias formas de violência. Além das várias formas existem, também, os vários rostos da violência tanto os que sofrem como os que promovem. Estamos vivendo um tempo sombrio no país que é marcado por várias formas de violência, sobretudo um ódio sem necessidade que provoca a ira tanto falada como escrita. Essas manifestações estão em todas as partes, isto é, em muitas ações físicas ou redes sociais. Diante dessa realidade é preciso nos perguntar: o que estamos fazendo para amenizar a violência?

Que possamos, ao longo desse ano, refletir sobre esse tema tão pertinente, principalmente por se tratar de um ano eleitoral. Que os planos de governo dos candidatos possam estar voltados para a paz. Que a forma dos candidatos expressarem sua campanha seja uma forma de paz e não de violência. E esse pode ser a evidência, para nós cristãos e cristãs, prestar a atenção nas campanhas eleitorais e não votar em candidato que incita a violência. 

Que Deus, por meio de Jesus Cristo na ação do Espírito Santo nos ajude a sermos mais solidários e promotores da paz! Que Maria nos ajude a encontrar o caminho da paz que nos leva a seguir e testemunhar Jesus Cristo nas nossas ações diárias.



[1] Licenciado em Filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi, graduando em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco, Graduando em Sociologia pela Uninter, pós-graduando em Docência no Ensino Superior pela Unicesumar e professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina.
[2] NUNES, Kleber. O Brasil e o Mundo em 1983: Nordeste sofre com seca, surge a Rede Manchete e país sofre com saques e inflação alta. Disponível em: <http://contandohistoria1977.blogspot.com.br/2013/07/o-brasil-e-o-mundo-em-1983-nordeste.html>. Acesso em 14fev de 2018.
[3] SILVA, Luiz Fernando da. Fraternidade e superação da violência. Vida Pastoral. São Paulo: Paulus, ano 59, n.39, p. 3-12, jan-fev 2018.

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