sábado, 1 de dezembro de 2018

TEMPO DO ADVENTO: Introdução


Edemilton dos Santos 


Estamos iniciando um novo tempo litúrgico, o Tempo do Advento, dentro do Clico do Natal. Segundo Lira (2008, p. 35),

o Natal é preparado pelo Tempo do Advento, cujo significado é “vinda”. Aqui podemos nos lembrar das três vindas de Cristo em nossa história: aquela ocorrida no tempo, a diária (na pessoa do próximo, no sacerdote, nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e em sua Palavra proclamada) e a que acontecerá no final dos tempos quando ele virá glorioso para julgar os vivos e os mortos.

Analisando cada uma dessas vindas pode-se dizer que vivemos uma constante espera pelo Senhor fazendo memória da sua primeira vinda. Quando nos preparamos para encontrar alguém, numa visita a familiares ou amigos, quando nos dirigimos ao trabalho, quando vamos participar das celebrações nas comunidades, quando vamos para um encontro bíblico, sempre estamos esperando o momento de começar o encontro. E esta é a mesma sensação da espera do Senhor. A diferença é de que nos encontros citados acima nos encontramos fisicamente com as pessoas. No encontro celebrativo-sacramental com o Senhor, nos encontramos de forma sacramental fazendo memória de sua vinda.

Para celebrar bem este momento do Natal, precisamos nos preparar. Por isso o Tempo do Advento não é um tempo penitencial, mas um tempo de interiorização e reflexão sobre a grande notícia: o Deus que se fez pequeno, desceu e veio morar entre os humanos, assim como afirma a kenosis (Fl 2,6-11). Isto é: a dinâmica de Deus que vem ao encontro do humano.

As Leituras da Liturgia da Palavra, as orações, antífonas, prefácios e louvações remetem para esta espiritualidade. Atentos a esse detalhe, é preciso que os cantos também estejam nessa sintonia para levar a assembleia litúrgica a rezar com unidade espiritual toda a ação litúrgica.

O tempo do Advento está dividido em duas partes: a que vai do primeiro domingo até o dia 16 de dezembro e do dia 17 ao dia 24 de dezembro. A primeira parte está voltada para uma reflexão escatológica. A segunda, para a primeira vinda, isto é, o Natal do Senhor.

O símbolo visível do Advento é a coroa do Advento. Nela se faz a caminhada mistagógica de adentrar no mistério do Natal refletindo sobre a realidade escatológica e a primeira vinda. Sai-se do Tempo Comum, adentra no Tempo do Advento, alegra-se por estar perto para celebrar o Natal e compromete-se em vivenciar o Natal no cotidiano seguindo os ensinamentos de Jesus encarnado na humanidade.

Sendo assim, as próximas partes deste estudo irão trazer as reflexões sobre a vinda do Senhor, a kenosis, a liturgia do Tempo do Advento, a primeira e a segunda parte do Advento e a coroa do Advento.     

sábado, 2 de junho de 2018

QUANDO EU OLHO PARA O CÉU, OLHO TAMBÉM PARA A TERRA


A Igreja celebra o 9º Domingo do Tempo Comum. O Tempo Comum é o tempo em que somos chamados a olhar para os ensinamentos de Jesus e sua atuação junto ao povo sofrido e excluído do seu tempo, por causa de um poder opressor que visava mais a lei que a vida humana.

Neste Domingo, a antífona da entrada conclama: “Olhai para mim, Senhor, e tende piedade, pois vivo sozinho e infeliz. Vede minha miséria e minha dor e perdoai todos os meus pecados”[1].  A Oração da coleta dirige uma súplica a Deus: “[...] afastai de nós o que é nocivo, e concedei-nos tudo o que for útil. [...]”[2]. A oração final ou Depois da comunhão, dividida em duas partes, na primeira suplica a Deus que o seu povo, nós, sejamos governados pelo seu Espírito agora que nutridos pelo Corpo e Sangue do Filho. Na segunda parte, é uma súplica importante para a missão. Assim diz: “Dai-nos proclamar nossa fé não somente em palavras, mas também na verdade de nossas ações para que mereçamos entrar no reino dos céus”[3].

O Evangelho (Mt 2,23-3,6) mostra a ação de Jesus em favor da vida. Ao ser visto arrancando espigas recebe dos fariseus o seguinte comentário: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” (2,24). Depois de chamar a atenção deles e citar o exemplo de Davi, Jesus os repreende dizendo: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (2,27). Ao curar o homem da mão seca, Jesus aponta para o que deve ser feito: chama o homem para o meio e questiona: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (3,4). Depois disso, libertou o homem do seu mal. Os fariseus, com os olhos fechados na lei, tentavam tramar contra Jesus.

A Primeira Leitura (Dt 5, 12-15), chama a atenção e orienta o povo de Deus para a importância do dia de descanso e, nesse dia, cuidar da fé, pois é o Dia do Senhor, dia de fazer memoria da ação libertadora de Deus. O salmo de resposta (80/81) aponta para um cântico que permite o humano abraçar a fé por meio de nossa força que exulta no Senhor. A Segunda Leitura (2Cor 4, 6-11), Paulo testemunha as tribulações sofridas, mas a presença de Jesus que dá força para enfrenta-las e vencê-las.

Pois bem, atualizando esta Palavra e o mistério celebrado neste dia do Senhor, é necessário olhar para a realidade e perceber quais os sinais que a Liturgia de hoje nos impele para vivenciarmos no nosso dia a dia. Quando a antífona da entrada pede que se afaste de nós tudo o que é nocivo, quando o Evangelho convida para direcionar o olhar à vida humana, quando a Primeira Leitura convoca para guardar o Dia do Senhor, estão interpelando a nós cristãos para unir fé e vida e, sobretudo, valorizar aqueles e aquelas que estão sofrendo às margens da sociedade por causa de um poder opressor que visa à saúde financeira e não a saúde humana e o respeito pela valorização da fé.

Que atitude devemos ter enquanto seres humanos presentes numa comunidade cristã? No mínimo atitudes que afastam a opressão e agreguem a acolhida, o perdão e o respeito. O que adianta ir à comunidade pedir que Deus afaste de nós o que é nocivo se depois que sair da igreja pedir a intervenção militar? O que adiante pedir ser governado pelo Espírito de Deus se lá fora é a favor do armamento? O que adianta ouvir com atenção e piedade a Liturgia da Palavra se depois se fecha para os necessitados e não abre o coração para o amor de Deus pensando só em si?  O que adianta pedir vigor para proclamar a fé em palavras e ações se no dia a dia não consegue vislumbrar ao lado o irmão que passa por necessidade?

Chega de cristão que olham para o céu pensando que Deus está somente lá. Chega de cristãos que suplicam por um coração adorador olhando somente para o alto. O verdadeiro coração adorador é aquele que, como Jesus, prima pelo bem estar do ser humano. A Eucaristia não é alimento para ficar guardado no coração, mas é alimento para ser vivenciado no dia a dia com atitudes que exprimam amor e fraternidade. Panos, ornamentos, igrejas luxuosas não estão no coração do povo sofredor. Se somos Igreja de Jesus Cristo precisamos ser Igreja simples e de coração humilde para saber valorizar o outro, em suas diferenças, acolhendo-o e promovendo-o a vida, convidando-o para vir ao meio, fazer parte da comunidade. 

Portanto, precisamos de uma Igreja, e aqui entende-se cristãs e cristãos, que ao olhar para o céu, saiba também olhar para a terra, pois a verdadeira missão está no viver a liturgia vivencial e não só a liturgia ritual, pois o rito nos fortalece para a vivência.  


[1] Missal Dominical. 10ª Ed. São Paulo, Paulus, 2011, p. 920.  
[2] Idem.
[3] Idem, p. 924.

sábado, 10 de março de 2018

CELEBRAÇÃO DO TRÍDUO PASCAL: PASSAGEM DA ANTIGA PARA A NOVA CRIATURA


Estamos nos aproximando da celebração mais importante de todo o Ano Litúrgico, a saber, o Tríduo Pascal. Esta celebração necessita estar carregada de mistagogia e espiritualidade para levar o povo de Deus a fazer a experiência de mergulhar no mistério da Paixão e da Morte de Jesus para ressurgir, com Ele, na vida Nova. Sendo assim, a celebração do Tríduo Pascal é a experiência de morrer para a criatura velha com atitudes velhas e renascer uma nova criatura com atitudes novas. O texto que segue, sem a pretensão de ser uma doutrinação, pretende auxiliar as equipes de celebração e liturgia, para uma melhor preparação dessa Grande Celebração.

A primeira pergunta que precisa ser feita é: o que celebramos? Martín (2006, p. 347), é claro em afirmar: “a celebração do mistério pascal, ao mesmo tempo em que evoca os fatos finais da vida terrena de Cristo, revive e atualiza a participação dos batizados na passagem das trevas para a luz”. Em outras palavras, celebrar o Tríduo Pascal é celebrar a realidade em que a comunidade está inserida. Porém não basta só isso. É importante que a comunidade, nesta celebração, faça a experiência de passar das trevas para a luz.

Este momento é muito importante por se tratar do contexto real da comunidade, isto é, o mistério pascal inserido na vida da comunidade orante. E quando se fala em vida se traz a memória os fatos que são bons e aqueles que são menos bons. As equipes responsáveis para esta celebração têm a missão de fazer a transformação da assembleia litúrgica. Mas, como? O conjunto do tríduo pascal precisa levar os fieis a entender que não é só de momentos ruins que vivemos, mas que estes são passageiros e servem para fortalecer a nossa fé e, sobretudo, a buscar a superação na Luz que é Jesus Cristo.

Diante da catástrofe chamada violência, que vivemos hoje, deixamos nos afetar por ela e, quando vamos a comunidade, estamos carregados de pedidos e pouco de agradecimentos. Este é um sinal de trevas na vida de fé. Trevas porque acomodam as pessoas e elas acreditam que só existem coisas más, sem falar na demonização[1] da liturgia, e não são capazes de sair desse contexto. Por este motivo que, ao finalizar o rito da celebração da Vigília Pascal, e com ela o Tríduo Pascal, a comunidade deve entender que o acontecimento da morte de Jesus – aquilo que era ruim e parecia ser o fim – foi apenas um momento, um instante, a passagem das trevas para a Luz. O que permaneceu e tirou da acomodação os apóstolos, amigos e amigas de Jesus foi a Ressurreição. Diante disso, é preciso envolver a liturgia do tríduo pascal com uma simbologia que leve a comunidade a entender que a experiência maior, e que deve permanecer, é a do Ressuscitado e não a do Crucificado. No entanto, a experiência do Crucificado não pode ser menosprezada, pois para chegar a Ressurreição Jesus precisou passar pela morte de cruz. E é por meio dela, segundo Martín (2006, p. 348), “que os cristãos renovem em si mesmos a passagem da morte para a vida”, pois o que permanece é a vida.

Uma segunda pergunta pertinente a esta celebração é: como celebramos? Aqui precisamos adentrar em cada um dos momentos do Tríduo Pascal para enfatizar o desdobramento desta pergunta.

Para vivenciar o ‘como celebramos’ é preciso retomar o ‘o que celebramos’ de cada um dos momentos da celebração do Tríduo Pascal. Segundo Buyst (2002, p. 63), “na quinta feira santa celebramos a Páscoa da Ceia; recordamos as palavras e os gestos de Jesus na última ceia, na qual expressou o sentido de sua vida e morte e nos mandou celebrar sempre em sua memória”. Eis aqui o primeiro momento do Tríduo Pascal.


Pois bem, como celebramos? Este dia é um dia de alegria em que Jesus se reúne com os seus amigos para celebrar a Páscoa. Dois gestos de Jesus marcam esta celebração: a instituição da Eucaristia e o lava-pés. É preciso ficar atentos para não dar a ênfase maior ao lava-pés e menor a instituição da Eucaristia. Nas comunidades que têm somente a celebração da Palavra de Deus, a Eucaristia precisa ser valorizada no momento da Louvação quando se traz o pão eucarístico para o altar. É bom lembrar que não é momento de adoração. É um cântico de ação de graças rendendo louvores ao Senhor que se faz presente como alimento na forma de pão.

O que preparar para este dia? Por se tratar de um dia festivo é importante que o ambiente esteja alegre com flores vivas e arranjos litúrgicos que levem a assembleia litúrgica a mistagogia da celebração. A cor litúrgica para este dia é o branco. Atenção para duas observações importantes.

Primeira: tanto nas comunidades que têm missa como nas comunidades que têm celebração da Palavra o sacrário deve estar vazio conforme orientação do Missal Romano (p. 247). Por que o sacrário vazio? É a celebração da memória da instituição da Eucaristia. Ainda não se tinha o cristianismo. Jesus celebrou a páscoa judaica e nela instituiu a Eucaristia. Eis o porquê do Sacrário vazio.

Segunda: o lava-pés. Aqui é importante se perguntar: a nossa comunidade ainda reproduz uma cultura machista? O que é isso? É quando a equipe de Liturgia escolhe somente homens para o ato litúrgico simbólico do lava-pés. Junto com Jesus andavam homens e mulheres. Com certeza no momento da páscoa todos e todas estavam presentes até porque a celebração da páscoa judaica era uma festa familiar. É bom se questionar no momento da preparação da celebração: nossa comunidade é formada só de homens? É claro que não! É formada de homens e de mulheres. Então, porque no lava-pés só aparecem homens? Ah, porque Jesus lavou os pés dos doze apóstolos que eram homens. É importante que estejam representados no gesto do lava-pés aquelas pessoas menos favorecidas da sociedade e de todos os movimentos e pastorais da comunidade. Quando se fala em representação significa que todos devem estar presentes, inclusive mulheres, jovens, adolescentes e crianças, pois a Igreja serve a todos e o gesto do lava-pés é serviço. Não importa se passar de doze pessoas. Não estamos fazendo um teatro ou encenação, mas uma memória do grande gesto de Jesus de abaixar-se para servir.

Falamos no início deste texto de transformação. A Campanha da Fraternidade deste ano fala e orienta para a superação da violência. A violência, nos seus mais diversos tipos, mancha a vida da pessoa, da comunidade e da sociedade Um gesto interessante a ser feito seria de que os participantes do lava-pés estariam vestindo duas túnicas ou vestes sendo que a primeira estaria manchada, suja (com tinta ou outro material). No momento em que lava os pés, o(a) ministro(a) ou o sacerdote, tira aquela veste suja ficando somente a veste branca. Com isso se faz a comunidade a refletir de que só é possível superar a violência quando se serve e se deixa ser servido evocando o Amor como forma plena de servir, pois este é o tema central da Liturgia deste dia. Eis aqui um dos pontos que se pode refletir na atualização da Palavra.

Finalizando esta celebração a Igreja fica vazia. Tiram-se as toalhas do altar, cobrem-se as imagens, tiram-se as flores e faz-se o translado do Santíssimo. Seria interessante não fazer o translado para os fundos da igreja, por exemplo. O melhor é fazer para outro espaço para que esse sinal do vazio permaneça até o momento da proclamação da Páscoa na celebração da Vigília Pascal no Sábado Santo. As flores utilizadas para ornamentar esta celebração podem ladear o Santíssimo. ‘
Durante a noite de quinta feira até às 15h de sexta feira se faz a experiência da agonia de Jesus no Horto das Oliveiras quando ele fica em vigília, é preso e condenado. É o momento de velar com Jesus e depositar ali todas as angústias e tristezas. Durante o momento da adoração é importante mais silêncio do que fala.

Ao chegar às 15h da Sexta Feira Santa tem-se o segundo momento da celebração do Tríduo Pascal: páscoa da cruz. Segundo Buyst (2002, p. 70), “neste dia fizemos memória da Paixão e morte de Jesus. No centro da nossa atenção está a cruz”.a A cruz é sinal de dor e sofrimento. Neste ano a dor que somos chamados a olhar e refletir é a dor provocada pela violência. Mulheres espancadas pelos maridos. Crianças vitimadas por tantas realidades. Pessoas agonizando vitimas de ações violentas dos governantes para com a sociedade. Olhares tristes e massacrados pela exclusão social. Jovens e famílias de corações partidos por causa do uso de entorpecentes e outras formas. Enfim, corpos quebrados pela dor da violência física, verbal e cibernética.  

Este dia é um dia de luto e de dor, mas não um dia de tristeza. É um dia de olhar para quais situações de cruz nós ajudamos a construir. É um dia de perceber que a cruz faz parte da nossa caminhada cristã e existencial, mas não é eterna. É um dia de poder perceber que precisamos passar pela cruz para chegar a Ressurreição, isto é, passar pelas tribulações para alcançar o Amor.

O espaço sagrado, vazio e despojado, nos leva a entender de que precisamos nos despojar de tudo aquilo que atrapalha a vida comunitária, pessoal, social, familiar e laboral. É o momento de nos esvaziarmos e deixar o Amor tomar conta do nosso coração, pois o ato litúrgico da Celebração da Paixão representa o grande ato de Amor de Jesus que se faz pequeno, frágil e incapaz para se tornar Grande na Nova Criação e salvar a humanidade toda.

Evite-se, neste dia, qualquer tipo de Sacramento, exceto em ocasiões especiais que necessitem do atendimento sacerdotal, como por exemplo, pessoas em perigo de morte, ou circunstâncias pastorais especiais.

Nesta celebração são quatro grandes momentos: Liturgia da Palavra, Adoração da Cruz e Comunhão. Na Liturgia da Palavra tem-se o cântico do servo sofredor (1ª Leitura), a súplica de Jesus para que Deus não o abandone (Salmo), a exaltação da cruz (2ª Leitura), o relato da paixão (Evangelho), e a Oração Universal (proclamada da Mesa da Palavra por fazer parte da Liturgia da Palavra). A adoração da cruz nos leva a venerar o crucificado que está sem vida. Ele se doou até a última gota de sangue para que a humanidade pudesse experimentar a vida nova renascida do lado aberto de Jesus (cf Jo 19,34). A comunhão, feita na simplicidade do vazio, é o sinal da presença de Jesus sacramentado no seio da comunidade que faz memória da sua entrega. A cor litúrgica para este dia é o vermelho.

Nem no início e nem no final da celebração tem o sinal da cruz. A procissão de entrada entra em silêncio e o presidente prostra-se diante do altar, ladeado pelos leitores, ministros e salmistas. No final da celebração todos se retiram em silêncio após oração sem final sem a benção final. Por quê? Porque ainda estamos dentro da grande celebração do Tríduo Pascal e a celebração da Paixão é o segundo momento. Terminado este momento, aguarda-se ainda em silêncio orante o início da celebração da grande vigília, a Vigília Pascal, mãe de todas as celebrações.

A celebração da Vigília Pascal, segundo Martín (2006, p. 350), “é essencialmente uma celebração ampla da Palavra de Deus que termina com a eucaristia”. Alguns elementos chave dessa celebração: fogo, água, batismo e Palavra de Deus.

A celebração inicia fora da Igreja. É a celebração do plenilúnio, isto é, da lua cheia. Sempre nesta semana tem a lua cheia, sinal da plenitude da luz. Antes de iniciar a celebração com a benção do fogo seria interessante fazer uma serenata ao redor da fogueira com cantigas populares, como por exemplo, “luar do sertão”, para dizer que este dia é um dia de alegria e de glória. É o dia em que a vida vence a morte. É o dia em que Senhor reservou a grande revelação do seu Filho amado, o Cristo Ressuscitado, a nova Criação. Quando chegamos a um local e sentimos que o mesmo está alegre isso nos torna alegres mesmo que não estejamos tão alegres. Este é o sentido principal desta celebração, a alegria. Quão lindo não é ver as pessoas chegando e serem acolhidas com lindas cantorias. É a vida presente neste espaço.

Com a benção do fogo novo, nova luz se irradia para toda a comunidade. É a luz do Ressuscitado que vai invadindo o espaço sagrado e, sobretudo, o coração humano. É hora de cantar o Exulte proclamando a Páscoa do Senhor. A vida que venceu a morte. Depois é o momento de escutar a Palavra de Deus que conta toda a história da Salvação por meio das leituras, salmos e Evangelho. Durante o hino de louvor pode se levar as flores para ornamentar a cruz que a partir de agora é símbolo de vida e também os arranjos que irão compor a ornamentação do espaço sagrado. Na partilha da palavra destacar as luzes da comunidade. Ações que são luzes do Ressuscitado no seio da comunidade reunida. É o dia de proclamar a claridade e não as trevas. Depois da palavra proclamada e refletida é o momento de reviver as promessas batismais e os novos batismos, caso haja, invocando a presença de todos os santos e santas de Deus, de ontem e de hoje, que nos antecederam no Reino dos céus no testemunho do seguimento a Jesus Cristo e da vivência do Batismo. É o canto entoado do banho em Cristo Ressuscitado que nos torna uma nova criatura, pois as coisas que eram antigas já se passaram e o novo nascimento surgiu para nos tornar novas criaturas. E, por fim, a grande prece Eucarística numa solene ação de graças ao Ressuscitado que não mais está morto, mas entre nós. A grande memória da vida-luz que surge das trevas-morte.

É dia de festa e de alegria, como diz a canção. Um momento lindo seria a comunidade se organizar para depois da celebração fazer uma confraternização e partilha de alimentos simbolizando a vida nova partilhada no seio da comunidade que se alegra pela Ressurreição de Jesus, assim como os discípulos de Emaús (cf Lc 23).

E assim, com a celebração do primeiro domingo da páscoa ou domingo da ressurreição, acontece a ligação entre o Tríduo Pascal e o Tempo Pascal. Essa é uma celebração igualmente importante para todos. Assim, a grande centralidade do Tempo Pascal, que se estende por cinquenta dias, é a experiência do Ressuscitado em comunidade.

Para concluir vale ressaltar que o Tríduo Pascal é uma única celebração. Sendo assim, celebrá-lo “quebrado” destitui-se o seu sentido teológico. Portanto, se se optar por fazer uma das celebrações do Tríduo pascal nas comunidades, que sejam feitas todas ou nenhuma, salvo em circunstâncias pastorais especiais.


REFERÊNCIAS

BÍBLIA SAGRADA. Bíblia de Jerusalém. 3 Ed. São Paulo: Paulus, 2004.

BUYST, Ione. Preparando a Páscoa: quaresma, tríduo pascal, tempo pascal. São Paulo: Paulinas, 2002.

MARTÍN, Julina López. A liturgia da Igreja: teologia, história, espiritualidade e pastoral. Trad. Antônio Efro Feltrin. São Paulo: Paulinas, 2006.

MARSILI, Salvatore. Sinais do Mistério de Cristo: Teologia litúrgica dos Sacramentos, espiritualidade e Ano Litúrgico. Tradução: José Afonso Beraldin da Silva. São Paulo: Paulinas, 2009.



[1] Utilizo este termo para designar os vários movimentos que pregam mais o demônio a Jesus Cristo. Este tipo de atitude cria um vício litúrgico nas pessoas de que elas precisam tirar o demônio existe em suas vidas para alcançar a glória, o livramento, etc. Por trás de tudo isso está o inconsciente da fé, isto é, vai a comunidade para pedir a ausência do mal, mesmo que ele não exista no momento, e se esquece de agradecer pelo amor que rega a vida familiar, comunitária e laboral.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A MENSAGEM DO HINO DA CF 2018: CAMINHO MISTAGÓGICO PARA O AMOR


Edemilton dos Santos

A proposta da Campanha da Fraternidade para este ano de 2018 é refletir sobre um tema que está preocupando muito uma parcela do povo brasileiro, a violência. Digo parcela, pois se dizer o povo inclui também os nossos governantes, que na maioria das vezes, e, diga-se de passagem, uma grande parte deles estão envolvidos em algum tipo de violência.

O hino proposto para este tema nos leva a um processo mistagógico da superação da violência e entrar para um mundo de paz. Este texto quer refletir sobre os caminhos apresentados pelo hino para ir ao encontro de superar a violência e abraçar a paz. E todo este processo se faz em nome de Jesus Cristo nosso Senhor.

O primeiro ato que o hino chama a atenção é para o tempo litúrgico que estamos vivendo: o tempo quaresmal. Em seguida faz uma súplica ao Deus da vida apresentando a mensagem da mesma: superar a violência. Depois deste desenho apresenta onde está a raiz de todo o mal: “ o íntimo que não sabe amar”. Quando se fala em íntimo se fala de onde está o centro dos sentimentos humanos, o coração. Esta expressão é muito forte e relembra as palavras do próprio Jesus: “a boca expressa o que o coração está cheio” (Cf Mt 12,24). E só quem não sabe amar é que cai nas armadilhas da violência.

O refrão do hino tem uma voz profética muito comprometedora para nós cristãos: convoca aos seguidores de Cristo a viver a fraternidade que é superar a violência, derramar perdão ser fermento de fraternidade, pois só assim estaremos seguindo os passos de Jesus que nos diz que somos todos irmãos. Depois de cantar este refrão se chega a perceber a difícil missão que se tem pela frente: ser sinal de perdão e amor em um mundo marcado pela violência. Será que damos conta ou vamos ser cristãos de sacristia?

A segunda estrofe nos diz que é preciso plantar a paz que terá como consequência a não-violência. E este é o compromisso de todo o cristão. Chega de violência, chega de corrupção, chega de vidas corrompidas desfazendo a criação, é a súplica dolorosa feita na terceira estrofe. O que o mundo espera é o novo acontecendo no meio do povo. O novo da paz e da harmonia e não da ganância. Só assim o Reino de paz e justiça acontecerá e a humanidade se sentará na roda da fraternidade, é o desejo da quinta estrofe. E, por fim, aseta estrofe, apresenta a misericórdia da Igreja que acolhe e perdoa quem percebe que errou e toma consciência do seu erro. O Sacramento da Reconciliação com Deus, com os irmãos e com a natureza.

Diante desta proposta mistagógica fica a expressão que não quer se calar: um mundo que quer destruir os pequenos e pobres do Reino e da sociedade, vai conseguir superar a violência? Uma Igreja em que os seus membros são capazes de defender atos de violência, mesmo sem se dar conta, vai conseguir superar a violência? Eis um tema que mexe com o profundo âmago do ser humano e convidada a uma atitude de conversão, pois a violência não se pratica somente com armas e gestos, se pratica com a língua também quando difama o seu irmão.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018: UMA RETOMADA DE 1983


                                                                                                                           Edemilton dos Santos[1]


No ano de 1983 a CNBB convocava os fieis católicos e o povo em geral para refletir sobre a Violência na Campanha da Fraternidade daquele ano. O tema, Fraternidade e Violência, chamava a atenção para tantas formas de violência que estavam acontecendo no Brasil naquele ano. O lema, Fraternidade Sim, Violência Não, convocava o povo e os governantes a optar pela fraternidade ao invés da violência.

Para ilustrar, eis alguns pontos da história:


Na Região Nordeste, 1983 será lembrado como o ano em que a seca chegou ao auge. Iniciada em 1979 a seca deixou milhares de famílias desabrigadas sem água e as mulheres e as crianças são as que mais sofreram com a estiagem.

E se como não bastasse, a economia vivia dias de terror. A inflação chegava a incríveis 200% ao mês. O cruzeiro, moeda da época foi maxidesvalorizado. Em abril, uma onda de saques assolou São Paulo. Mais de 200 estabelecimentos comerciais foram alvo de saqueadores.

E ainda teve as enchentes no Sul do País. Somente em 5 e 6 de julho choveu na região a impressionante marca de 170 mm. E os brasileiros foram solidários e doaram mantimentos às vítimas do flagelo no Sul.

Depois de sete anos de ditadura militar, a Argentina voltava a respirar democracia com a posse de Raul Alfonsin, o primeiro presidente civil eleito pelo voto.[2]


Hoje, 14 de fevereiro de 2018, 35 anos depois, motivada por uma forte concentração da violência no
Brasil, a CNBB volta com o tema para ser refletido durante a Quaresma e o ano todo. A diferença é de que o tema tem um acréscimo a mais: Fraternidade e Superação da Violência e o lema “vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

 A semelhança que existe entre os dois cartazes são as pessoas de mãos dadas e na diversidade de raças. A diferença e de que no de 1983 são crianças e adolescentes que clamam um mundo mais fraterno e no cartaz atual são pessoas de diferentes idades pedindo a superação da violência.

Alguns pontos a serem refletidos neste ano:


No Brasil, criou-se um discurso conveniente, segundo o qual o povo brasileiro é pacífico; contudo, basta observar com cautela a sociedade para perceber como a violência está presente no dia a dia das pessoas.

A definição mais genuína da palavra cultura é “cultivo”. Disseminar uma cultura é cultivar um modo de ser, de estar e de agir. Quando se apresenta a violência como cultura, parte-se de uma análise da realidade em que comportamentos, mídias, expressões verbais, músicas etc. foram se tornando “normais”, “comuns”.

A cultura da violência é uma cultura excludente, pois a associa às classes sociais e raciais, criando, assim, estigmas sociais como “o povo daquele país não presta”, “aquele rapaz tem cara de bandido”, “aquela mulher merece apanhar”

A violência apresenta-se nas mais variadas formas: física, psicológica, institucional, sexual, de gênero, doméstica, simbólica, entre outras. Superar as várias faces da violência é tarefa de todos.

O não atendimento aos direitos elementares das pessoas constitui um nascedouro para a violência em sociedade.

O convite que a Igreja faz, por meio da Campanha da Fraternidade, não visa à superação de um quadro estatístico cheio de dados e números; ela convida à superação na vida e na história de cada homem e mulher subtraídos de seus direitos.

A superação da violência não é uma teoria, mas deve ser um caminho de ativa transformação. Essa mudança passa pela pessoa, pela comunidade e pela sociedade. A conversão conjugada dessas três realidades é uma trilha segura para todo desejo de superação.[3]


Como se percebe no texto do Pe. Luiz Fernando da Silva, não existe uma única forma de violência, mas várias formas de violência. Além das várias formas existem, também, os vários rostos da violência tanto os que sofrem como os que promovem. Estamos vivendo um tempo sombrio no país que é marcado por várias formas de violência, sobretudo um ódio sem necessidade que provoca a ira tanto falada como escrita. Essas manifestações estão em todas as partes, isto é, em muitas ações físicas ou redes sociais. Diante dessa realidade é preciso nos perguntar: o que estamos fazendo para amenizar a violência?

Que possamos, ao longo desse ano, refletir sobre esse tema tão pertinente, principalmente por se tratar de um ano eleitoral. Que os planos de governo dos candidatos possam estar voltados para a paz. Que a forma dos candidatos expressarem sua campanha seja uma forma de paz e não de violência. E esse pode ser a evidência, para nós cristãos e cristãs, prestar a atenção nas campanhas eleitorais e não votar em candidato que incita a violência. 

Que Deus, por meio de Jesus Cristo na ação do Espírito Santo nos ajude a sermos mais solidários e promotores da paz! Que Maria nos ajude a encontrar o caminho da paz que nos leva a seguir e testemunhar Jesus Cristo nas nossas ações diárias.



[1] Licenciado em Filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi, graduando em Teologia pela Universidade Católica Dom Bosco, Graduando em Sociologia pela Uninter, pós-graduando em Docência no Ensino Superior pela Unicesumar e professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina.
[2] NUNES, Kleber. O Brasil e o Mundo em 1983: Nordeste sofre com seca, surge a Rede Manchete e país sofre com saques e inflação alta. Disponível em: <http://contandohistoria1977.blogspot.com.br/2013/07/o-brasil-e-o-mundo-em-1983-nordeste.html>. Acesso em 14fev de 2018.
[3] SILVA, Luiz Fernando da. Fraternidade e superação da violência. Vida Pastoral. São Paulo: Paulus, ano 59, n.39, p. 3-12, jan-fev 2018.

sábado, 21 de outubro de 2017

AS QUATRO TÊMPORAS E AS ROGAÇÕES

As quatro têmporas se referem ao tempo das quatro estações, como tempo de oração. Poderia se dizer que é o tempo cronológico caminhando com o tempo kairós que entra na história para dar significado a santificação do tempo. As rogações são clamores do povo que pede a presença de Deus numa ocasião especial.

Entendendo o que são as quatro têmporas. Segundo o blog Sendarium,

As Quatro Têmporas, como períodos específicos de jejum e penitência associados em sintonia ao ciclo da natureza e às quatro estações do ano, foram formalmente estabelecidas pelo Papa Gregório VII. Aplicadas ao hemisfério sul, a primavera contempla as Têmporas de Setembro (terceira semana de setembro), o verão relaciona-se às Têmporas de Dezembro (tempo do Advento, terceira semana de dezembro); ao outono corresponde as Têmporas da Quaresma (primeira semana da quaresma) e, finalmente, o inverno compreende as Têmporas de Pentecostes, que ocorrem dentro da Oitava de Pentecostes (primeira semana de pentecostes).[1]

Elas estão intimamente ligadas ao percurso do Ano Litúrgico em que se faz a caminhada do kronós com o kairós. Isto é, no tempo da humanidade que caminha fazendo história Deus se faz presença caminhando com seu povo.

Outro momento importante para a humanidade, dentro do percurso do Ano litúrgico são as rogações ou ladainhas. Esta, primeiramente, era rezada nos três dias que antecediam a Ascenção.  Depois da reforma do Vaticano II  recebeu importância particular como momento privilegiado de penitência cabendo aos bispos locais ver a melhor data para estes momentos de súplica invocando a graça de Deus sobre a humanidade.

Estes dois momentos são importante por levarem a humanidade a fazer uma profunda experiência de Deus no tempo presente e no tempo cotidiano. Deus não se afasta do cotidiano humano, mais bem, está nele para construir história com o ser humano, se alegrar com ele e ser apoio e força nos momentos de tristeza. Portanto, as quatro têmporas e as rogações nada mais são do que Deus presente, com toda a sua infinitude, na finitude da humanidade.   


[1] Disponível em <http://www.sendarium.com/2016/03/as-quatro-temporas.html>, acesso em: 15 de ago. de 2016.


sábado, 11 de março de 2017

A CAMINHADA DO DIA DO SENHOR NOS PRIMEIROS SÉCULOS DO CRISTIANISMO

  
Edemilton dos Santos[1]

São tantos os testemunhos e escritos que se tem sobre o dia do Senhor. Aqui serão apresentados apenas alguns a título de análise. O ponto de partida apresenta alguns nomes dos santos padres da Igreja que falam, em suas cartas, sobre o dia do Senhor.
Antes de tudo é preciso ter em conta que, além das Sagradas Escrituras, os padres tinham como importante documento a Didaqué, ou seja, o catecismo dos primeiros cristãos. Tudo indica que tenha sido escrita por volta dos anos 60-70 d.C. Numa de suas passagens assim se refere ao Domingo: “Reunam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, [...]” (DIDAQUÉ 14,1). Duas constatações: partir o pão e agradecer. A reunião que exorta o autor da Didaqué tem por finalidade fazer memória do acontecimento pascal, onde Jesus deixa o mandato de fazer em sua memória esse resgate da partilha. Porém ela não acontece sem um agradecimento. Se pode dizer: partilha e ação de graças são inseparáveis para os primeiros cristãos.
Imbuídos desse espírito os Santos Padres exortam os seguidores de Cristo a viverem nessa mesma dinâmica. Prova disso é a carta que Santo Inácio de Antioquia escreve aos Magnésios. Nela assim se pronuncia acerca do dia do Senhor:aqueles que viviam na antiga ordem de coisas chegaram à nova esperança, e não observam mais o sábado, mas o dia do Senhor, em que a nossa vida se levantou por meio dele e da sua morte” (Carta aos Magnésios 9,1).[2]       
Quando se refere aos que viviam na antiga ordem se dirige aos que observavam o sábado. Diz ele que a passagem se deu por meio do alcançar uma nova esperança, isto é, a experiência da Ressurreição que se deu no Primeiro Dia da semana, agora chamado de o Dia do Senhor.
Com esse pequeno adendo em sua carta aos magnésios, Inácio de Antioquia quer orientá-los que a partir de agora o Primeiro Dia da semana passa a ser o dia da vivência e do encontro em comunidade.
São Justino vai mais além. Faz uma bonita reflexão referindo-se ao Dia do Senhor. Retoma a criação e passa pela Ressurreição até chegar aos seus dias. Assim se expressa:

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos [...] Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos (APOLOGIA I 67, 3.7)[3]

Estes testemunhos são importantes para compreender como o Domingo foi se fundamentando cada vez mais, tornando-se um dia especial para a vida em comunidade. Isso constitui um fator verídico e a observância era fundamental pois “qualquer homem diminui a Igreja, por não se reunir a ela, e faz com que falte um membro no Corpo de Cristo”, cita Ryan na página 16 de seu livro O Domingo: história, espiritualidade, celebração, referindo-se ao autor da Didascália Apostolorum. 
Outro importante testemunho dessa época sobre o dia do Senhor é de Eusébio de Alexandria. Diz ele:

O dia santo do Senhor é a comemoração memorial do Salvador. O dia do Senhor é chamado domingo ("dia dominical", kyriake hemera) porque é ele o senhor (kyrios) dos dias. Antes da paixão do Mestre não se chamava dominical, mas primeiro dia. Neste dia, com efeito, o Senhor estabeleceu o fundamento da criação. Igualmente, neste dia, Ele deu ao mundo as primícias da ressurreição. Neste dia... ordenou celebrar os santos mistérios. Este dia é para nós a “fonte (arché) de todo o bem, é o princípio da criação do mundo, o princípio da ressurreição e o princípio da semana (sermão 16 sobre o dia do Senhor) (ALDAZÁBAL, 2000, p. 78).  

Palavras que merecem atenção especial em se tratando de certa proximidade com o acontecimento da Ressurreição e a caminhada das primeiras comunidades. Talvez falte hoje esse retomar dos primórdios do cristianismo, aqui especificamente o domingo, para que ele tenha novamente essa sobriedade dispensada.
A observância do domingo era tão importante que, para o povo desse período da história do Cristianismo, “o princípio de que não há domingo sem eucaristia não era uma medida disciplinar, era uma convicção profunda e arraigada” (RYAN, 1997, p. 18).
Para o povo dessa época, participar das celebrações comunitárias era um prazer e uma necessidade vital que brotava do coração. Pode-se correr o risco de afirmar que a primeira necessidade do Domingo era participar da comunidade. A liturgia talvez não estivesse tão estruturada, mas algumas partes específicas já se faziam presente mostrando a beleza do encontro fraterno na eucaristia celebrada. São Justino apresenta como era realizado esse rito.

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: "Amém". Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. (APOLOGIA I 67, 3-6)[4]

Sendo assim, a beleza do rito remonta inteiramente ao Mistério Pascal. Essa essência da fé precisa ser retomada para que não se perca esse fundamento primeiro de nossa fé.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALDAZÁBAL, J. Domingo, dia do Senhor. In BOROBIO, Dionísio. A celebração na Igreja: ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Edições Loyola, 2000, Vol 3, p. 67-91.

DIAQUÉ. O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. 16ª Ed. São Paulo: Paulus, 1989.

RYAN, Vincent. O domingo: história, espiritualidade, celebração. São Paulo: Paulus, 1997.

Imagem:
Disponível em: <http://www.comunidadefanuel.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Domingo-Dia-do-Senhor.jpg>. Acesso em 11 mar de 2017.
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[1] Professor da Rede Pública do Estado de Santa Catarina, licenciado em Filosofia, Pós-Graduado em Docência no Ensino Superior e Graduando em Teologia. O trabalho aqui apresentado foi realizado para a disciplina de Ano Litúrgico e Liturgia das Horas do curso de Graduação em Teologia da UCDB.
[2] Disponível em http://www.veritatis.com.br/print/141, acesso em 01 de agosto de 2016. 
[3] Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016. 
[4] Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/435, acesso em 01 de agosto de 2016.
N do A: A primeira parte dessa citação já se encontra citada acima. Não consta, no entanto, uma repetição, mas a necessidade para o entendimento do contexto geral da citação.