sexta-feira, 10 de abril de 2015

MÚSICA RITUAL – 2 DOMINGO DA PÁSCOA – 12 DE ABRIL DE 2015

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo Pascal, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 2º Domingo da Páscoa. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.
Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembleia, “inseri-la no mistério celebrado” (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia X, Tempo Pascal Ano B. Encontramos também no Ofício Divino das Comunidades ótimas opções.

1. Canto de abertura. Cristo ressuscitou verdadeiramente (Apocalipse 1,6).  “O Senhor ressurgiu, aleluia, aleluia!”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 1.

2. Refrão para o acendimento do Círio Pascal. “Cristo-Luz, ó Luz bendita,/ Vinde nos iluminar!/ Luz do mundo, Luz da Vida,/ Ensinai-nos a amar!”, CD: Festas Litúrgicas I, melodia da faixa 9.

3. Canto para acompanhar a aspersão com a água. “Banhados em Cristo”, CD: Tríduo Pascal II, melodia da faixa 11 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 196. Outra ótima opção é o canto “eu vi foi água”, CD: Tríduo Pascal II, melodia da faixa 12 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 225.

4. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas.” Vejam o CD Tríduo Pascal I e II e também no CD Festas Litúrgicas I; Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria Reginaldo Veloso e outros compositores.
O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembléia.

5. Salmo responsorial 117/118. “Deus é minha força e coragem”. A pedra angular. “Dai graças ao Senhor porque ele é bom!”; CD: Liturgia X, melodia da faixa 2.

6. Aclamação ao Evangelho.  Felizes os que crêem sem terem visto.  (João 20,29). “Aleluia... Acreditaste, Tomé, porque me viste”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 3. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical ou a versão que está no CD.

7. Refrão após a homilia. “Põe a mão nas minhas chagas, não hesites, crê somente, Aleluia, Aleluia!”. Mesma melodia da música “Celebremos nossa Páscoa, na pureza na verdade, Aleluia, Aleluia!”, e estrofes do Salmo 117, CD: Liturgia X, melodia da faixa 7.

8. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração, no Tempo Pascal. “Bendito sejas, ó rei da glória!”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 6.

9. Canto de comunhão. “Não sejas incrédulo mas crê”, (João 20,27). Mesma melodia da música “Celebremos nossa Páscoa, na pureza na verdade, Aleluia, Aleluia!”, e estrofes do Salmo 117, CD: Liturgia X, melodia da faixa 7.
O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho do 2º Domingo de Páscoa. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o corpo e sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. É de se lamentar que muitas vezes são escolhidos cantos individualistas de acordo com a espiritualidade de certos movimentos, descaracterizando a missionariedade da liturgia. Toda liturgia é uma celebração da Igreja e não existem ritos para cada movimento e nem para cada pastoral.



“COMO O PAI ME ENVIOU, TAMBÉM EU VOS ENVIO”

2º DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
ANO B
12 de abril de 2015

Leituras
    
     Atos 2,32-35. Entre eles ninguém passava necessidade.
     Salmo 117/118,2-4.16-18.22-24. A mão direita Senhor me levantou.
     1João 5,1-6. O que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus.

     João 20,19-31. A paz esteja convosco.

1.    PONTO DE PARTIDA

Hoje é o domingo da profissão de fé de Tomé. Há u
ma semana celebramos a Páscoa da Ressurreição. Nós batizados, fomos sepultados na morte com Cristo e ressuscitamos com ele. Neste Tempo Pascal, somos fortalecidos pela Palavra de Deus e pela Eucaristia a fim de darmos testemunho de Jesus ressuscitado, seja pela nossa vida pessoal, pela participação comunitária, seja pela atuação transformadora da sociedade.
Hoje também é o domingo da Divina Misericórdia, instituído por João Paulo II, no dia 30 de abril de 2000, damos graças ao Senhor por seu eterno amor por nós, sempre disposto a nos perdoar, quando o nosso coração arrependido volta-se para Ele. Como Tomé, dizemos: “Meu Senhor e meu Deus” (João 20,28).
Celebramos a Páscoa de Jesus que se manifesta na comunidade dos discípulos e discípulas e em todas as pessoas e grupos que promovem a reconciliação no meio de nós.

2.    DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

O Evangelho narra a aparição de Jesus ressuscitado á comunidade reunida. É fundamental voltarmos o nosso olhar para o momento que Jesus escolheu: a comunidade reunida! A comunidade cristã reunida deve aparecer como sinal de Cristo ressuscitado. “a paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (João 20,21). Isto mostra que a Igreja já nasceu missionária.
Na tarde do primeiro dia da semana, os discípulos estavam reunidos, de portas fechadas, quando o Senhor apareceu, ressuscitado. Era Ele mesmo. Fez questão de mostrar em seu corpo as marcas da paixão, para que ninguém tivesse dúvidas. Do lado dos discípulos, havia o medo, a incredulidade, a tristeza. Do lado de Jesus, a paz, a reconciliação e uma força capaz de provocar uma nova atitude no meio da comunidade.
Podemos perceber claramente que ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-se como ponto de referência, fator de unidade. A comunidade está reunida em volta dele, pois Ele é o centro onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o “medo” e a hostilidade do mundo.
Jesus passa para os discípulos a missão que recebeu do Pai, dando-lhes o dom do Espírito Santo e a graça de oferecer o perdão.
Jesus “soprou” sobre os discípulos reunidos em sua volta. O verbo aqui utilizado é o mesmo do texto grego de Gênesis 2,7, o qual diz que Deus soprou sobre o homem de argila, infundindo-lhe a vida de Deus. Com um “sopro”, Jesus transmite aos discípulos a vida nova que fará deles homens novos. Agora, os discípulos possuem o Espírito, a vida de Deus, para poderem como o Mestre dar-se generosamente aos outros. É esse Espírito que constitui e anima nossas comunidades cristãs.
Jesus aparece-lhes não só para que dessem testemunho de sua ressurreição, mas também para dar-lhes o Espírito Santo e enviar-lhes em missão.
Pensemos no nosso hoje: se ouvíssemos de outros: “Vimos o Senhor!”, sem o testemunho narrado no Evangelho, será que nossa atitude seria muito diferente da de Tomé? Ele precisou ver para crer, por isso, arrependido, professa sua fé em Jesus Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!” (João 20,28). É na vida da nossa comunidade (na sua liturgia, no seu amor, no seu testemunho) que encontramos as provas de que Jesus está vivo.
Nossa fé precisa ser, realmente, incondicional para que reconheçamos o Senhor. Mesmo sem podermos tocar em suas mãos e em seu peito aberto, é possível vê-Lo na Palavra anunciada e num simples pedaço de pão, porque Ele mesmo disse que ali estaria, se reunidos celebrássemos sua memória. Se estivéssemos, porém, ausentes da comunidade, do Espírito de amor e partilha que Ele nos propõe, poderemos ser o Tomé de hoje, incapazes de crer. Fora da comunidade, da fé e da vivência segundo o Espírito de Deus, dizer que Ele está vivo no meio de nós pode fazer-nos parecer meros visionários aos olhos de quem não crê.
Hoje também, é preciso acreditar antes de ver, pois é a fé que abre nossos olhos à presença de Jesus, a seus sinais e a sua graça.
Este é nosso desejo, todos “queremos ver Jesus, tal qual expresso no Projeto Nacional de Evangelização: “Ver Jesus é o anseio mais profundo do coração humano, mesmo sem o saber”. “Em Jesus Cristo, Deus manifesta-se aos que o procuram e lhes oferece a vida em plenitude” (PQVJ. P.5). E contudo, podemos dizer que vemos, nós também: a realidade do Cristo glorioso, no Espírito.
Nós somos agora o “espaço” da salvação de Deus, do qual podem brotar equilíbrio e vida plena paras todos. Tornando-nos missionários da reconciliação pelo exercício do perdão. Isso, com certeza, é paz, justiça, saúde e vida para todos. “Como o Pai me enviou, também eu envio vocês”, disse Jesus. Daí a importância de vivermos em comunidade, a exemplo das primeiras comunidades cristãs, perseverantes na escuta da Palavra, na comunhão fraterna (caridade, solidariedade, ajuda mútua, partilha de bens, serviço à vida), na fração do pão (Eucaristia como memorial de Jesus) e nas orações diárias como alimento da fé.
A nossa celebração de cada domingo faz memória desta presença viva de Jesus ressuscitado. Hoje, esta presença não é visível como naquele domingo em que Tomé podia por o dedo em suas chagas. Agora, Ele se manifesta invisível, contudo não menos real. Ele entra em nossas assembléias na situação concreta de cada comunidade e de cada pessoa, vem ao encontro de nossa frágil fé, cheia de medo, cheia de dúvidas... E nós ouvindo-O dizer “Bem-Aventurados os creram sem ter visto”, fazemos a confissão amorosa da nossa fé esperando receber também o dom do Espírito Santo e a força para sermos testemunhas de sua ressurreição.
Contemplamos o Senhor ressuscitado com as mãos feridas pela morte. A ressurreição é a vitória sobre o mal, não sua negação ou fuga. Que Ele nos ajude a superar a cultura individualista e a cultura da morte e a viver o tempo novo da ressurreição.

3.    A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

Apoiado no Evangelho de hoje, o cerne da Divina Liturgia é a fé no Ressuscitado. Essa fé pascal se desdobra em todos os domingos do Ano Litúrgico, condensada na profissão de fé de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. Reunimo-nos para celebrar nossa Páscoa, sabemos que o Mestre está vivo, mas nosso encontro se dá no horizonte mistagógico dos que crêem, mesmo sem ver. O que vemos e sentimos despreza a lógica daquilo que é palpável. A celebração da Eucaristia não é outra coisa senão a ritualização do Mistério Pascal do Senhor. As portas da comunidade da Ressurreição estão escancaradas. A assembléia celebrante não agrega membros de uma sociedade secreta, reunidos para uma festa privada. Daí não se admitir missas especiais e particulares, que sinalizam privilégios e benefícios, nem mesmo missa especial de Natal para satisfazer certas famílias privilegiadas.
A Páscoa não se presta a ser desfrute individual, uma alegria subjetiva pela qual cada fiel ressuscita com “seu” Jesus privatizado. Os desdobramentos da festa pascal são missionários e evangelizadores. A bem-aventurança do Senhor é clara. Ela recai sobre os que não se contentam em crer sem a necessidade de tocá-lo. Isso basta. Nossa única segurança é o anúncio de que Ele está vivo, trazendo-nos paz e convidando-nos ao perdão mútuo. Mesmo não apalpando suas feridas, cremos Nele e em sua capacidade de nos agregar como irmãos, na celebração da vida que mata a morte. Ele se faz presente no centro da comunidade reunida, em torno da Palavra e da Eucaristia, vivificando-a com o sopro do Espírito Santo. Não se trata de presença física, mas sacramental e mistério. A dinâmica do rito nos envolve e nos inebria, através de gestos e símbolos, na bem-aventurança de crer, mesmo sem ver. Para nadar na contramão do caminho de Tomé, não se precisa ter uma fé irrepreensível e pura. As dúvidas, de vez em quando, assolam a nossa vida. Como ficamos então, diante do desafio de crer sem duvidar? A fé no Ressuscitado não comporta arrogância dos que se vangloriam de nunca terem questionado os desígnios de Deus, mas requer abandono e entrega, testemunho e ajuda uns dos outros. Ninguém cresce na fé sozinho. Em comunidade, reunidos todos os domingos, humildemente pedimos: Nós cremos, Senhor, mas aumentai a nossa fé (Marcos 9, 14-29).

4.    LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

A Eucaristia é o momento da paz. Em cada Eucaristia, Cristo nos dá a sua paz e quer que a atualizemos para nossos irmãos e irmãs. A paz de Cristo é a paz do Ressuscitado. É diferente da paz do mundo que quer a paz à custa de armas.
Nesta Eucaristia, apresentemos a Cristo a cegueira do mundo, para que Ele a ilumine. Apresentemos o ódio do mundo, para que Ele o converta em amor. Apresentemos o sofrimento de tantos inocentes, para Ele os console.
Na eucaristia o Senhor nos une num só coração e numa só alma e, na mesa eucarística, partilha seu corpo e seu sangue como alimento. Ele nos dá a sua paz ao perdoar nossos pecados e nos convoca a sermos suas testemunhas, fortalecidos pela presença do Espírito Santo.
A exemplo das primeiras comunidades cristãs que se reuniam nas casas para a oração e a partilha do pão, também nós, hoje, nos reunimos para celebrar a Eucaristia, no primeiro dia da semana.
Assim como os discípulos ouviram o Senhor ressuscitado, na liturgia da Palavra, quando são proclamadas as leituras, é Jesus que nos fala novamente. Após escutarmos e refletirmos a Palavra na homilia, como Tomé, fazemos nossa profissão de fé com o Credo.
Através do ministro que preside a assembléia eucarística, na liturgia eucarística, quando temos Jesus presente no pão e no vinho, é Ele mesmo que nos diz, como outrora aos discípulos: “A paz do Senhor esteja sempre convosco”.
Depois de comungarmos o próprio Jesus que se dá a nós em alimento, com a bênção de Deus Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo, somos enviados em missão, tal qual os discípulos, que de Jesus receberam a missão confiada a Ele pelo Pai. A cada celebração litúrgica, esta missão nos é confiada novamente, e a cada celebração damos graças a Deus, “porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia”.
Não é em experiências pessoais, íntimas, fechadas, egoístas que encontramos Jesus ressuscitado, mas sim no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une is irmãos e irmãs em comunidade de vida.


            Um abraço fraterno a todos
            Pe. Benedito Mazeti
            Assessor diocesano de liturgia

terça-feira, 7 de abril de 2015

O TEMPO PASCAL

O Tempo Pascal encerra grandes mistérios que a Igreja celebra e este subsídio pastoral analisa.

“Os cinquenta dias que se prolongam desde o domingo da Ressurreição até ao domingo do Pentecostes celebram-se na alegria e exultação como um único dia de festa, melhor, como «um grande domingo»” (S. Atanásio, Epist. fest., 1: PG 26, 1366; cit. in IGMR, 22). Todo o Tempo de Páscoa é igualmente Páscoa: “Os domingos deste tempo são considerados como ‘Domingos de Páscoa’; por isso, os domingos que se seguem ao domingo da Ressurreição se designam domingos II, III, IV, V, VI, VII da Páscoa” (IGMR, 23).

A intensa oração da Igreja durante o Tempo Pascal merece uma reflexão e um estudo aprofundado do mistério pascal de Cristo ressuscitado. O Secretariado Nacional de Liturgia dedicou o IX Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica, em 1983, a esta temática: “A Celebração do Mistério Pascal: o Tempo Pascal”. O interesse por este assunto estendeu-se a quase todas as dioceses, que organizaram encontros diocesanos de pastoral litúrgica sobre esta temática. As duas edições das conferências do Encontro Nacional logo se esgotaram, mostrando assim o interesse eclesial destes assuntos. A pedido de muitos fiéis, situados sobretudo em grupos eclesiais com responsabilidades partorais, apresentamos agora uma recolha de textos sobre o Tempo Pascal: conferências e artigos já publicados, mas revistos pelos autores e organizados de uma forma sistemática, em ordem a uma visão de conjunto.

O conteúdo, o significado e a mensagem do Tempo Pascal são abordados com a profundidade que a Celebração do Mistério Pascal merece: uma linguagem tão teológica como pastoral, para se tornar acessível e útil a todos os fiéis.


SUMÁRIO

O Mistério da Páscoa e a sua Celebração, José Ferreira
A Festa da Páscoa, Luís Ribeiro
O Tempo Pascal na Tradição da Igreja, José Ferreira
O Leccionário do Tempo Pascal, Luís Ribeiro
O Tempo Pascal nas Orações do Missal e da Liturgia das Horas, Pedro Ferreira
A Igreja e o Tempo Pascal, José de Leão Cordeiro
Espiritualidade Pascal, José Ferreira

A Virgem Maria no Tempo Pascal, Luciano Guerra

Fonte: http://www.portal.ecclesia.pt/ecclesiaout/liturgia/liturgia_site/livros/livros_ver.asp?cod_livro=7

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O CANTO E A LITURGIA: DUAS FACES DE UM ÚNICO MISTÉRIO

Edemilton dos Santos*

O que vamos cantar hoje na missa?
Esta é uma pergunta feita pelas nossas equipes de música quando se preparam para escolher os cantos para a celebração que será cantada por elas. Neste estudo, mesmo que de forma breve, algumas orientações para a escolha correta dos cantos, tomando como base o tempo litúrgico que estamos vivendo, isto é, o Tempo Pascal.
Primeiramente vale salientar que as equipes de música não irão cantar na missa e sim cantar a missa. Porque está diferença? Cantar na significa cantar para. Quer dizer, fazer uma apresentação. Canta a significa cantar junto com alguém. Neste caso, cantar a missa quer expressar que juntos, presidente, equipe de liturgia e celebração e povo de Deus reunido, cantam a oração do na forma poética da letra e da melodia da música litúrgica entoada para aquele momento da celebração. Por isso que não cantamos na missa e sim cantamos a missa.
Seguindo nosso estudo é necessário buscar a reposta da pergunta que introduz este texto: o que vamos cantar? Como estamos falando do canto da equipe de cantos vamos listar somente os cantos do povo, entoados pelas equipes que conduzem o mesmo. Antes, porém, de adentrar na sequencia dos cantos, faz-se necessário introduzir o tempo litúrgico Pascal, para se ter uma ideia do que cantar neste momento do Ano Litúrgico.
Durante o Tempo Pascal cantamos a Ressurreição de Jesus Cristo. A experiência humana de Jesus na morte, causada pelos poderes opressores e por sua experiência de abandono, não é para sempre, mas para remeter a humanidade à graça de também experimentar a Ressurreição. Nesse tempo o canto expressa a alegria da Ressurreição do Senhor, que também é ressurreição da humanidade.
E agora? Como é a estrutura dos cantos?
Pois bem, temos os cantos processionais, isto é, aqueles que acompanham os momentos de procissão na celebração. São eles: abertura, oferendas, comunhão e final, quando este é cantado na saída do povo. Existe também o canto de aclamação quando se faz a procissão com o Evangeliário do Altar até a Mesa da Palavra. Caso não seja feita a procissão o canto de aclamação entra em outra categoria: aclamações. Estes cantos mudam conforme o Tempo Litúrgico e a Liturgia da Palavra. Geralmente as estrofes permanecem as mesmas apenas o refrão que é outro, porém na mesma melodia.
Os cantos fixos ou do ordinário são os cantos do Ato Penitencial, Hino de Louvor, Creio, Santo, Pai-Nosso e Cordeiro de Deus. Estes cantos tem a mesma letra do texto rezado. Equivocadamente, principalmente o Hino de Louvor, é apresentado numa aclamação trinitária confundindo com a oração do Glória ao Pai, Ao Filho e ao Espírito Santo. Esta oração quer dizer o seguinte: O Pai, gerador do Filho, transmite-lhe toda a sua natureza e vida Divina. O Filho, por sua vez, abandona-se totalmente ao Pai através de seu amor. O Espírito Santo deriva do amor recíproco entre o Pai e o Filho. Assim sendo, aportamos também àquela que é a missão da Santíssima Trindade: o Pai cria, o Filho salva e o Espírito Santo santifica. No Hino de Louvor está a exaltação a Jesus Cristo como Rei do Universo e Salvador da humanidade, por isso que todo a canto faz menção a segunda Pessoa da Santíssima Trindade elucidando assim uma exaltação cristológica e não trinitária. Para os demais cantos do ordinário a dica é escolher cantos que possuem a mesma letra, ou letra parecida com a letra do texto rezado. Como saber se o canto é litúrgico ou não no caso das partes fixas? A resposta é simples: se a letra fugir totalmente do texto rezado não é considerado canto apropriado para estas partes da celebração. No entanto fica a pergunta: mas, se só dispomos dos cantos com aclamação trinitária? Pode ser rezado ou cantado, desde que se procure aprender e buscar os cantos com as letras próprias.
Ainda temos, durante a celebração, o canto do Salmo Reponsorial. Este canto deve ser cantado na Mesa da Palavra, pois faz parte da Liturgia da Palavra. Por circunstâncias pastorais poderá ser cantado no local que está a equipe de cantos. Por isso, para facilitar o acesso com o instrumento, seria melhor que a equipe de cantos ficasse próximo da mesa da Palavra. O canto do Salmo expressa a espiritualidade bíblica do louvar ao Senhor por meio da expressão poética. É o povo que canta as maravilhas de Deus presente na sua misericórdia, criação e ação em favor do povo. Não existe canto de meditação, pois o Salmo sempre está de acordo com a Primeira Leitura.
Ainda temos durante a liturgia cristã, várias aclamações. Uma delas é a Aclamação ao Evangelho. É uma introdução, preparando a assembleia para o que será proclamado. É um canto breve sempre com um refrão do Aleluia e com o versículo indicado no Lecionário antes do Evangelho. Durante o Ano Litúrgico, o único tempo que não se canta o Aleluia é o tempo da Quaresma, para se cantar solenemente na Vigília Pascal. No Advento é um Aleluia mais suave, sem tom de festividade reservada para a Celebração do Natal.
Para concluir vale lembrar a importância de tirar um tempo para ensaiar os cantos a serem cantados durante a celebração. Quando se tem ensaio é possível corrigir os erros e acertar melhor no canto. Não quer dizer que não aconteça durante a celebração, mas a possibilidade de errar diminui bastante. Cantar a Liturgia é cantar a presença do Senhor no elo entre oração e canto aprofundando a mistagogia da espiritualidade mistérica celebrada naquele dia. Sendo assim é importante que canto e liturgia estejam convergindo e não divergindo. É necessário a unidade entre os dois para não correr o risco de o canto ir numa direção e a liturgia para outra. Escolher os cantos e ensaiar com antecedência é sinal de compromisso com Deus, com a Liturgia e com a comunidade. Quanto melhor cantada a liturgia melhor rezada será em toda sua unidade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECKHÄUSER, Alberto. Celebrar Bem. 2ª Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
BUYST, Ione, FONSECA, Joaquim. Música ritual e mistagogia.  São Paulo: Paulus, 2008.
CNBB. A música litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulus, 2002, 4ª Ed. (Estudos da CNBB, nº 79)
CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil. 20ª Ed. São Paulo: Paulinas, 2006. (Documento 43).
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Guia Litúrgico-Pastoral. Brasília, edições CNBB. 2ª Ed.
FONSECA, Joaquim.  Cantando a Missa e o Ofício Divino. São Paulo: Paulus, 2007. 3ª Ed.
FONSECA, Joaquim.  Quem canta? O que cantar na liturgia? São Paulo: Paulinas, 2008.
FONSECA, Joaquim. O canto e música no tempo do ano Litúrgico In: Liturgia em Mutirão: subsídios para a formação. Brasília, edições CNBB. 2007.
SACROSANTUM CONCILIUM. In: Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2001.









* Postulante dos Missionários da Sagrada Família. Formado em Filosofia pela Faculdade Pe João Bagozzi de Curitiba PR e Teologia (em fase de Conclusão) pelos Institutos Santo Tomás de Aquino de Belo Horizonte – MG e São Paulo de Estudos Superiores de São Paulo – SP. 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

“TODO AQUELE QUE É DA VERDADE ESCUTA A MINHA VOZ”


SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR
ANO B
03 de abril de 2015

Leituras

     Isaías 52,13-53,12. Diante dele os reis se manterão em silêncio.
     Salmo 30/31,2.6.12-13.16-17.25. Senhor, eu ponho em vós a minha esperança.
     Hebreus 4,14-16; 5,7-9. Permaneçamos firmes na fé que professamos.
     João 18,1—19,42. O meu reino não é deste mundo.



  1. DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA
           
É significativo que o Evangelho de João sobre a Paixão de Jesus comece num jardim e termine num jardim (cf. 18,1; 19,41). É uma referência ao jardim do Éden! “Onde o ser humano não soube se portar de forma humana autêntica, Jesus ensina o de possuir a vida: dando-se gratuitamente em favor dos outros. Diante de Jesus as pessoas têm duas opções: ou O reconhecem e se comprometem com Ele, ou acabam aderindo ao sistema injusto que O rejeitou e condenou, perdendo assim a chance de ter a vida. A hora de Jesus chegou. A hora em que, na sua morte, conclui sua obra em favor da humanidade: “Tudo está consumado”. Obra que daí para frente será levada adiante pelo Espírito: “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito”. Hora que provoca um sério julgamento. “É o momento em que são postas às claras as opções que as pessoas fazem a favor ou contra Jesus.
E aí, na sua Paixão e morte, que se mostra em que sentido Jesus é Rei. Aí está a amostra consumada de que sua realeza não se baseia no jogo de poder das realezas deste mundo, que fazem uso da força e da violência. A realeza de Jesus consiste em dar testemunho da verdade (fidelidade de Deus a seu projeto). Ele é Rei porque cumpre até o fim a vontade do Pai, que é a de amar de tal modo o mundo a ponto de enviar seu Filho Unigênito (João 3,16). Na Paixão, Jesus é o verdadeiro Rei. Rei coroado de espinhos e vestido com um manto vermelho. Rei cujo trono é a cruz. Rei de vestes repartidas. Rei porque é rei na arte de amar sem medida, a ponto de dar a vida para salva o povo de todo tipo de opressão. Rei que resgata definitivamente o que significa de fato ser rei. Rei que, por isso tudo, foi dignificado pelos seus discípulos com sepultura apropriada e perfumosa.
Rei imolado por nós e, por esse motivo, apelidado mais tarde pelos cristãos de Cordeiro pascal que tira o pecado do mundo.
Pelos sacramentos da Iniciação Cristã, nós optamos por ser discípulos e discípulas desse Rei. Mas temos que estar atentos, vigiar e orar sem cessar para não cairmos em tentação. Que tentação? Na tentação de querer aderir aos sistemas injustos que oprimem, flagelam e matam nosso Rei Jesus; hoje, sobretudo, simbolizado nos pobres excluídos, nos nascituros indefesos, nos idosos mal assistidos, nos indígenas explorados, nas vítimas do tráfico de drogas, nos reféns da violência urbana e rural, em tantos corpos jovens explorados pelo comércio e turismo sexual, e o planeta devastado pela ganância inescrupulosa dos sumos sacerdotes da idolatria do dinheiro e pela covardia de governantes com seus jogos sujos de poder, riqueza e prestígio. Estes são alguns exemplos apenas. Jesus hoje continua sendo flagelado, crucificado e morto de inúmeras formas.
Diante de Jesus temos duas opções: ou O reconhecemos e nos comprometemos com Ele, ou acabamos aderindo ao sistema injusto que O rejeita e O condena, perdendo a chance de termos a vida em plenitude. Como discípulos e discípulas Dele, permaneçamos firmes na primeira opção. “Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos” (Hebreus 4,14b). que Deus nos ajude  a sermos de fato assim, pois o mundo está precisando de pessoas cada vez mais comprometidas com a causa pela qual Jesus lutou até o fim!  
Ao final de sua narrativa da paixão, João diz assim: “Eu vi, eu dou testemunho e meu testemunho é verdadeiro! Eu sei que estou dizendo a verdade, para que vocês também acreditem!” (João 19,35).
Vamos seguir o convite de João e acreditar! Para além da cruz há uma manhã de ressurreição!

  1. A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

A celebração da Paixão e Morte do Senhor tem especial significado na vida do Cristão. É uma celebração da Palavra com distribuição da comunhão e que inclui alguns ritos significativos para a nossa Igreja: a oração universal e a adoração do Cristo na cruz. É também uma celebração marcada pelo silêncio, pela piedade e pelo sincero desejo de acompanhar os passos de Jesus em sua paixão e morte. É a segunda etapa da festa que costumamos chamar “Tríduo Pascal”. O Tríduo termina no Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor com a celebração das vésperas, ou ofício da tarde. É uma festa única que nos introduz no Mistério do Senhor, de seu amor extremado e de sua livre doação para salvar a todos e para levar a termo a vontade do Pai. Por isso mesmo tão cara a todos nós que cremos. Convém mesmo que seja preparada e celebrada com intensidade na Divina Liturgia.
Um dos ritos que estão previstos para celebrarmos esse mistério é o beijo da cruz. O rito é bastante significativo e eloqüente: cada fiel se aproxima, beija ou se inclina diante da Cruz do Senhor. O beijo é um gesto significativo presente em outras passagens dos evangelhos: o beijo do Pai que reencontra o filho perdido, na parábola lucana (Lucas 15,20), e a mulher que beija lava os pés de do Senhor com lágrimas, enxugando-o com os cabelos (Lucas 7,36-50). O primeiro demonstra o afeto do Pai que reencontra o seu filho que estava morto e tornou a viver. O segundo é o beijo de quem muito amou e por isso foi perdoada. Esses dois trechos nos ajudam a entender o que fazemos diante da cruz do Senhor ao beijá-la. Expressamos com esse mesmo rito a secreta alegria deste dia, quando o nosso olhar é orientado para a Ressurreição. Nosso beijo, como aquele do Pai misericordioso da Parábola, diante do filho despojado, confessa a Ressurreição que o sofrimento e a paixão escondem. Cobrimos de beijo aquele que por sua morte e ressurreição torna ao seio do Pai, confessando que estava morto mas tornou a viver (Lucas 15,32).O segundo beijo demonstra o amor da pecadora (não confundir com Madalena ou com Maria, a irmã de Lázaro) que alcançando o perdão, alcança igualmente a vida. É o beijo que não só se dá, mas que desfruta do amor divino que foi derramado no alto da Cruz, como perfume sobre a nossa humanidade. Amor mais forte do que a morte (Cântico dos Cânticos 8,6), capaz de ressuscitar (1João 3,14).

  1. LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Jesus dá sua vida para o perdão dos pecados. Ele é o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo. Jesus passou pela violência, pagou o mal com o bem. Venceu o ódio com amor. A paz do mundo só será possível se descobrirmos o caminho do perdão.
O mistério da Páscoa nasce a partir do sangue derramado de Cristo na cruz. Na celebração da paixão e morte de Cristo fazemos memória da sua entrega ao Pai, em vista do Reino. Unindo nossos passos aos passos de Cristo morto, elevamos nossa oração por toda a humanidade que foi resgatada pelo seu sangue redentor. Comungando o seu corpo e o seu sangue, recebemos dele a força para vencer as cruzes do nosso dia-a-dia.
Participando da comunhão eucarística, vamos assumir e assimilar sacramentalmernte toda a entrega de Jesus por nós, para que, como discípulos e discípulas do Mestre e Servo de todos, Rei universal e Sacerdote único, possamos viver o que Ele viveu. Por isso, após a comunhão, reza-se a seguinte oração: “Ó Deus, que nos renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo, conservai em nós a obra de vossa misericórdia, para que, pela participação deste mistério, vos consagremos toda a nossa vida”. Ao que todos respondem afirmativamente: “Amém!”.